quarta-feira, dezembro 23, 2015

A Casa Onde Cresci

Voltei à casa onde cresci.

Há muito que já ninguém habitava aquele prédio velho. O elevador parara para sempre entre o segundo e o terceiro andar, suspenso como um corpo enforcado sobre o fosso, e os degraus empoeirados que se enrolavam em torno dele rangiam e estalavam ao som da minha passada cautelosa. O pó erguia-se do chão em espirais e encaracolava-se no feixe de luz da minha lanterna, antes de desaparecer para a escuridão como um peixe escondendo-se entre as rochas no fundo do oceano.

Cheguei ao quinto andar.
Levantei a lanterna e detive-me à porta, hesitante, vasculhando nas profundezas da minha mente todas as memórias que ela encerrava. Depois, alcancei as chaves no fundo do bolso e lancei-as à fechadura, como fizera tantas outras vezes naqueles dias. Mas agora tudo era diferente... até o próprio gesto de abrir aquela porta era já estranho ao meu corpo.

A porta balançou para trás num rangido desconcertante, a que não estava habituado, com as chaves tinindo nervosamente na fechadura. Convidava-me a entrar na nova extensão de negrume.

Inspirei duas e três vezes antes de avançar a medo. Não haveria nada a temer; nada senão eu próprio, nada senão o medo dos meus medos, os medos que ali tivera, e da ausência de tudo o que da minha vida um dia parte fizera. E contudo, esse medo existia e eu sentia-o bem presente, pulsando-me no peito e na garganta.

Não sabia como esperava encontrar a casa. Imaginava teias de aranha a cada canto, os quadros tortos nas paredes, por um fio, desbotados e sem vida, os candeeiros caídos, os tapetes torcidos... Mas tudo estava no seu lugar, tal como os meus pais o haviam deixado. Havia apenas pó. Pó, silêncio e saudade.

Já não sentia aquele lugar como casa. Tinha até dificuldade em dizê-lo familiar. Mas, sem que o pudesse evitar, aquelas paredes pareciam falar-me à medida que lhes apontava a minha lanterna.

Murmuravam-me imagens dos meus pais rindo e dançando em dias felizes, do meu pai bebendo um copo no seu canto nos dias mais pesados, dos meus irmãos e dos meus primos gatinhando atabalhoadamente nos seus pijamas de corpo inteiro, tropeçando desajeitadamente aqui e acolá, dos meus avós e tios reunidos na Consoada, do alvoroço na troca de prendas de Natal, da lareira crepitando lá ao fundo, dos filmes e jogos de cartas em família...

Tudo isso vive ali, naquela penumbra solitária.
Fora dela, a realidade é outra bem diferente, porque nenhuma daquelas pessoas está já entre nós. É irónico... Tento lembrar-me por que motivo foi que deixámos de nos falar, por que nos zangámos, e não consigo.

Por estupidez minha é tarde demais, mas dava tudo para voltar todos os dias atrás no tempo e refazer o que fizemos de errado. Voltar todos os dias a este prédio e a esta sala só para vos ver e para vos ouvir novamente. Para conhecer crescidos os irmãos que apenas conheci bebés. Para vos abraçar uma última vez. Para vos pedir perdão. Para poder despedir-me pessoalmente de cada um de vocês no vosso último dia.

Se há um milagre de Natal, que seja tudo isto não passar de um pesadelo e amanhã acordarmos de novo aqui, juntos, com uma segunda oportunidade aguardando debaixo do pinheiro. Nesta vida ou na próxima.

domingo, dezembro 13, 2015

O Teu Piano

A chuva e o frio baloiçam-se lá fora de mão dada, novamente. Agitam e regelam os pinheiros e esbarram-se nas nossas janelas, zumbindo. Esbarram-se, em particular, no janelão junto ao teu piano, que desde que te foste se mantém de persiana aberta - escancarada, antes - como era teu apanágio, debruçando-se a vista sobre o vale e sobre o bosque.

O ar tornou-se vazio sem o som do teu piano. Triste, entregue e rendido ao som solene e repetido da chuva pingando e escorrendo pelos vidros à minha volta. Não me importava que os dias que me restam de vida fossem passados sentado no sofá diante da nossa lareira, escutando a tua melodia harmoniosa. Oh, como gostava de te ouvir e de te ver tocar: os teus dedos saltando graciosamente pelas teclas, entre tons e meios tons, acordes e arpeggios; um ténue sorriso doce nos teus lábios engelhados e o efeito do pedal pisado prolongando-se pelo ar...

Hoje não há música em mim. O meu coração é uma pauta de pausas e silêncios, e as notas, se as houvesse, seriam bemóis e graves, melancólicas e descompassadas. E depois mais pausas, mais silêncios. Eras todos os meus tons cinzentos, as minhas dúvidas, as minhas surpresas e as minhas espontaneidades. Sem ti tornei a ser eu, um singelo homem mundano, apenas a preto e branco, como as teclas do teu piano.

sexta-feira, novembro 27, 2015

Ponto por Ponto

Ninguém gosta de pontas soltas. Por isso, listei num pequeno bloco todas as pontas que me faltavam atar e dia após dia comecei a riscar-te da minha vida. Ponto por ponto.

Precisava urgentemente de te arrancar de mim, de te extinguir do meu corpo como se extingue um fogo. E, por fim, de varrer e soprar da minha alma a tua cinza e os teus pós. Grão a grão. Ponto por ponto.

Comecei pelo que tinha mais à mão. As fotografias. Esses fantasmas que me observavam silenciosamente de todos os cantos da casa. Aquele, em particular, que me olhava fixamente da mesa-de-cabeceira enquanto dormia e que me saudava, a mim e à minha mágoa, todas as madrugadas de sorriso aberto e de faca em riste, pronto a cravar-ma entre as costelas.

Despedi das prateleiras e móveis todas as molduras que encontrei. Despedi-as, despedi-me delas e guardei-as onde nunca mais me lembraria de as procurar. De seguida, passei um pano no pó e na memória que sobrava delas em todo o lado, para não deixar vestígios. No lugar delas ficou apenas um vazio inocente.

Seguiram-se as tuas coisas. Os bocados de ti que ainda guardava sob o meu tecto. Arrumei-as uma por uma, com a saudade prenunciada de quem se despede dos filhos partindo para a guerra, e empacotei-as para tas fazer chegar dentro de breve.

Ias partindo aos poucos, à medida que riscava da lista os estilhaços da tua recordação em mim. Envolvendo-te mais e mais numa neblina difusa, como quem se distancia numa noite de nevoeiro.

Esqueci a tua voz.
A vida tratará de me fazer esquecer também o teu cheiro, o sabor dos teus lábios, o teu toque, o vício dos teus hábitos e, a seu tempo, as tuas feições. Há-de queimar de mim essa tua droga de que ainda ressaco.

E depois silêncio. O ar puro à minha volta e o eco do meu coração batendo livremente no meu peito. Apenas e só.

Ninguém gosta de pontas soltas. Por isso, listei num pequeno bloco todas as pontas que me faltavam atar e dia após dia risquei-te da minha vida. Ponto por ponto.

sábado, novembro 14, 2015

Sexta-feira, 13

Fechei a porta atrás de mim. Fechei a porta atrás de mim e tranquei lá fora os problemas do trabalho. Esses e todos os outros. Agora era só eu e os silêncios do meu apartamento. 

Um banho quente... Era de um banho quente que precisava, com tão pouca luz quanto possível, para lavar de mim o stress do dia e a loucura do mundo.

Deixei a água quente correr. Deixei que fervesse e que o vapor se apoderasse do ar. Enquanto isso, recolhi três velas e acendi-as ao fundo da banheira.

Libertei-me das roupas pesadas do dia. Passei-me para dentro da banheira, corri a cortina e mergulhei de uma vez só para debaixo do chuveiro. Deixei que a água quente me envolvesse e que sugasse para o ralo cada aflição que teimava em viver em mim. Os pensamentos dentro de mim eram como cordeiros num matadouro, a cirandar cegamente num labirinto à espera da sua hora de morrer num beco sem saída.

Tudo o que eu via era a luz das velas esborratada contra o vapor que pairava. Os meus músculos amoleciam, os meus joelhos ameaçavam ceder sob o peso do meu corpo e tudo o que eu ouvia, já longinquamente, era a água que me caía na cabeça e aos pés.

Hoje, por uma vez na vida, dava graças a Deus por ser sozinha. Não seria capaz de suportar a dor das centenas de famílias, avós, pais, mães e irmãos, que lá fora e na televisão choram, entre os gritos e as sirenes que encheram a nossa noite. Agora quero deitar-me, esconder-me da realidade e esperar que amanhã seja um dia melhor; esperar que quem sofre encontre neles a força que eu não teria para enfrentar a perda e o horror.

quarta-feira, novembro 11, 2015

Cicatrizes de Guerra

Alternava entre os cigarros e as unhas, quando as tinha, sempre que ias. Ia deixar os miúdos à escola de manhã e enquanto não era hora de os ir buscar limpava a casa de alto a baixo três vezes ao dia, só para me manter ocupada. Quando já não havia mais uma pinga de pó para limpar ou uma peça de roupa para lavar e engomar plantava-me à janela e observava as beatas, uma atrás de outra, a derreter-se por entre os meus dedos.

Os dias eram longos e cada segundo parecia demorar uma eternidade. Ouvia na minha cabeça os tiros que te rodeavam e tremia só de os imaginar. Só esperava ver-te surgir no horizonte, recortado no céu, de capacete na mão e mochila às costas, naquele teu passo exausto. Nada me trazia maior felicidade.

Congelei no dia em que quem vinha ao longe não eras tu. No dia em que me bateu à porta a notícia, como todas as noites nos meus pesadelos. Desde então, para além da cinza nos meus dedos derretem-se as lágrimas na minha cara, por entre soluços sufocados.

Salvaste a Pátria e agora eu tenho de salvar o nosso Lar, mas como é que se explica a um rapaz de seis anos que sonha ser como o Pai que partiste numa viagem para não voltar mais?

segunda-feira, outubro 26, 2015

Desassossego

Prossegue lá fora o dilúvio.
E eu prossigo cá dentro sem ti. O ruído da tua ausência e do teu silêncio inquieta-me. Mal oiço a trovoada que ruge lá ao longe. A falta da tua arrumação desarruma-me. Desarruma-me o pensamento. As ideias e os sentimentos. Remexe e revira tudo o que ainda respira aqui dentro.

Não consigo deixar de achar incrível a colecção de copos que vou deixando espalhada pela casa, uns vazios, outros meio vazios... E que mais incrível ainda era a paciência com que endireitavas estes meus defeitos sem deixar que eu desse conta deles.

Hoje, cada copo esquecido com que me deparo é um novo vislumbre de ti. Cada copo, cada cadeira da mesa, cada sofá da sala, cada lugar do carro, cada casa, cada quarto. Até o colchão da cama, como eu, ganhou a tua forma. Moldámo-nos a ti. Estás em todo o lado. Sim, estás. Vejo-te em todo o lado. É quase possível cheirar-te em todo o lado. Mas feitas as contas, não estás mais em lado nenhum. Não aqui, pelo menos. Mesmo depois da Vida continuas a bagunçar-me.

Os miúdos estão bem. Acho que finalmente consegui explicar-lhes o que é um Anjo e todas as noites antes de dormir eles procuram-te no Céu.

domingo, outubro 18, 2015

Chocolate Quente

Lá fora chovia. Chovia sempre.

Lá fora chovia, ininterruptamente. No jardim, no alpendre, no telhado e contra as janelas. O vendaval sacudia as portadas e zumbia pelas frestas das janelas. "Devíamos ter optado por um barco! Ou um bunker...!", dizias-me sempre, em dias destes.

Lá fora chovia e a electricidade caiu. Caía sempre. Ganhei com o passar dos anos o teu feliz hábito de prender a lanterna à cintura e segui à risca o teu ritual de acender uma vela em cada divisão da casa. Sigo sempre. Sigo sempre e de algum modo faz-me parecer que ainda estás aqui.

Lá fora chovia como na noite em que nos conhecemos, no prado lamacento, tu com o cabelo colado à cara e o vestido colado ao corpo, e antes que caísse a noite fui à cave buscar dois toros de madeira. Já não sobram muitos da nossa última colheita.

Lá fora chovia e antes que o frio voltasse atirei os toros para dentro da lareira, com um par de pinhas, e ateei o lume. Hoje tive de o trabalhar um pouco mais para que se aguentasse firme. Parece que nestes dias até o fogo se recolhe e só ao fim de meia hora de trabalho tínhamos lareira digna do nome. 

Lá fora chovia. Lá fora chovia e cá dentro já as velas iluminavam a casa, trémulas, e a lareira aquecia o ar. O crepitar das chamas sobrepunha-se lentamente ao cair da chuva. À luz da lareira, consegui pela primeira vez olhar para a fotografia do nosso casamento sem que me viesse aos olhos uma lágrima.

Lá fora chovia e no lugar da lágrima surgiu um sorriso leve, um pouco amargurado ainda, mas um sorriso, contagiado pela tua felicidade irradiante. "Estás no meu lugar.", adoravas reclamar. Pois bem, hoje sentei-me no teu lugar e hoje não vou sair, sinto-te mais perto aqui e isso reconforta-me a alma.

Lá fora chovia e tenho a panela ao lume. Hoje trato eu dos nossos chocolates quentes.

quinta-feira, outubro 15, 2015

Palco de Guerra

Descobri que não sei o que é o silêncio. Que o meu silêncio é o mais ruidoso deles todos e que me ensurdece como nenhum outro.

Disseste-te um dia curiosa para conseguir ver o que se esconde para lá dos meus olhos. A loucura que dança para lá daqueles dois pequenos espelhos que te olhavam. Dizias imaginar que a minha mente era um palco de guerra, debaixo de fogo cruzado e cercada de explosões aqui e ali. Foram essas as palavras que escolheste. E não deixa de ser engraçado - e intemporal - que naquela tua pequena inocência tivesses tamanha razão. Afinal de contas,  sempre tiveste o hábito de pintar a tua opinião com um jeito muito próprio, arrojado, mas muito acertado.

É um palco de guerra. É um fogo cruzado a cada instante, sem uma trincheira onde te possas abrigar para recuperar o fôlego antes de uma nova investida. Sem uma parede entre ti e o inimigo, uma sombra que te resguarde do sol ardente ou um tecto que te ampare a chuva.

É a tempestade de areia que varre o deserto. É um tic-tac miudinho que te persegue, um sussurro que te encontra por mais que fujas e por mais que te escondas. É a voz que te falha quando queres fazer soar o alerta ao camarada que luta ao teu lado, é a soma de todos os receios e anseios quando o vês tombar diante dos teus olhos. É a angústia e a frustração de te aperceberes que não pudeste fazer nada para mudar o destino que teve. É o medo que te assola quando caiu o teu último homem e és o próximo a estar na cara do inimigo. O sufoco que te espreme os pulmões e te suga o ar quando escutas os seus passos arrastando-se até ti. É o rasgo de coragem que se incendeia em ti para te conduzir numa última carga. É o estilhaço de dor de seres atingido dez vezes no peito e duas na cara. É o frio que te trepa pelas pernas à medida que o sangue escorre pelo teu corpo. É a impotência de te veres vencido e vexado pelo teu inimigo, gigante diante de ti, enquanto cais de joelhos. É o desamparo que se apodera de ti quando os teus últimos suspiros te roubam as forças. É o silêncio mortal que paira no ar, numa dança macabra, depois de caíres de bruços, sem vida. 

É tudo isso e o teu inimigo seres Tu própria. 

quinta-feira, julho 23, 2015

Xeque-Mate

Estacionaste o carro no meu lugar e saíste tremendo e chorando, entre soluços, talvez com receio do que estava para vir. Quando nos sentámos frente a frente no mesmo sofá onde tudo começara dois anos antes, ambos percebemos o rumo que os próximos trinta minutos levariam. Mas nem assim doeu menos.

Xeque-mate. As tuas últimas palavras caíram como pedras em mim. Pedras de um mundo nosso ruindo ruidosamente dentro do meu peito. Oiço-as ainda, entoadas pela tua voz insegura: "Quero-te e quero querer-te, mas preciso de mim sem ti". Cada palavra um murro, atingindo-me repetidamente no estômago. Uma, duas, três... Dez. Dez palavras. Dez murros na fragilidade que crescia em mim a cada segundo. Dez murros que me arrancaram o ar dos pulmões e que te arrancaram de mim. Lia nos teus olhos, para lá das lágrimas, que baloiçavas timidamente entre o querer e o não querer, e todavia foi a indecisão que ditou a tua última cartada no nosso jogo a dois.

Percebi quando te levantaste e te vi sair pela porta, hesitante, que estavas a sair para sempre da minha vida; que levavas nos bolsos, entre as chaves de casa e os trocos do nosso último café, uma parte de mim.

Nunca mais me sentei naquele sofá.

sexta-feira, agosto 15, 2014

Nudez do Sufoco

Perdes todo e qualquer refúgio.

Caem as paredes e o tecto e ficas só, frente a frente com a tua sombra diminuída, entregue à arritmia ensurdecedora do teu coração. E sem paredes e tectos, dás por ti no centro de um tornado violento de silêncios somente teus. Silêncios que, apesar de silêncios, te gritam incessantemente aos ouvidos, impiedosos e desarmantes, abalando-te e subjugando-te como nenhuma outra voz consegue fazer. E então ficas nu nesse mesmo lugar que ocupas, nessa escura terra húmida que pisas e te envolve os pés agora descalços, desprovido das roupas que antes te acarinhavam a pele.

É como se te arrancassem um tapete de debaixo dos pés de um puxão só. Ou talvez como se tirassem de debaixo de ti todo o teu chão, todo o apoio em que dia após dia te equilibras plenamente com a confiança cega de que estará para sempre lá, e é caíres desamparado num buraco sem fundo e avançares aos trambolhões por uma qualquer ravina imaginária.

É congelares no tempo e constatares que, como sempre ouviste dizer, o mundo e as pessoas que conhecias não congelaram e não esperaram - nem esperam - por ti. É a vida em teu redor manter o ritmo frenético e tu ficares para trás; seres posto de lado como aquela comida de que não se gosta na borda do prato.

É fazeres tudo e saber-te sempre a pouco. E é estares lúcido e são e estares ao mesmo tempo louco.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Conchas e Pérolas.

Mas, afinal de contas, interessa-te a pérola ou a concha da ostra?

A resposta parece óbvia, não parece? É que a mim parece-me e muito. O teu problema é teres nascido e crescido no seio desta cultura da imagem, a cultura das carapaças, onde as conchas prevalecem sobre as pérolas e onde, à conta disso, estas últimas se vão tornando numa raridade. Procura-se a concha bonita, a carapaça pitoresca e cativante, e esquece-se constantemente tudo o resto que habita dentro e para lá dela, por trás dessas paredes que não são mais do isso: paredes. E a concha adapta-se rígida e repetidamente a esse meio venenoso que, por obra do destino ou do Senhor, a acolheu no mundo. E então, debaixo do fatal fogo cruzado de preconceitos e olhares e críticas e censuras - que geralmente não vêm sós, nem fundamentadas - a concha fecha-se gradualmente, passo a passo, até que encerra de vez as suas portas, esquece as boas maneiras e as saudações de boas-vindas e ergue as barras daquilo que, daí em diante, passa a ser prisão ao invés de casa.

E chegamos ao mundo em que vivemos, não é? Outrora tínhamos pérolas nos mais variados sítios. Ou assim creio, pelo menos. Sim... aposto que os meus antepassados se cruzavam diariamente com tesouros como esses; imagino-os caminhando serenamente, deixando escapar um esporádico mas sincero «bom dia!», falando de pérola para pérola, ao passarem uns pelos outros nas ruas. De conchas abertas, abertas às gentes e ao mundo, brilhando até na mais escura das noites. E hoje? Hoje ao cair do sol, nas noites sem lua, vês... preto. Escuro... nada. Porque aquilo que antes reluzia e palpitava, hoje vive tapado pelas muralhas que então se fizeram levantar, à custa dessa vã vassalagem e desse tão cego amor à imagem. Muralhas, é que nem mais: afinal de contas, e repetindo-me, interessa-te num reino a majestosidade do castelo ou as qualidades e as capacidades do seu rei soberano?

Pergunta segunda: põe-te no lugar da pérola ora aprisionada. Como é que te sentirias? Diminuído, não é? Como se todo o mundo se inclinasse e se precipitasse na tua direcção a todo o vapor, de tochas acesas e armas empunhadas, ameaçando ruir e desabar-se sobre a tua concha, a tua casa, teu castelo e prisão, esmagando-te. Sufocante, não é? E tu repetes: «sim, é». Então se é e se tu sabes que é, por que raio insistes em ser o mundo que se inclina e se precipita na direcção das pérolas de pistola em riste, pronto a premir o gatilho antes do primeiro passo em falso? És mais do que quem te rodeia? Tens uma concha mais bonita do que a de quem vive ao teu lado e à tua volta? Variam as cores, os brilhos e as formas, mas conchas serão sempre conchas. E se não percebes isso, então és mais idiota do que alguma vez pensei e provavelmente em ti há apenas cinzas daquilo que, se calhar, em tempos foi uma pérola, uma pedra preciosa.

Quanto a mim, a minha concha é a minha porta e a minha janela e não as paredes atrás das quais me escondo. Guardo e seguro uma pérola e podes vê-la e tocá-la sempre que quiseres. Não tenho medo nem vergonha de ser quem sou e se tu, ou quem quer que venha da tua parte, tiveres algum problema com isso, podes sempre enfiar as mãos no fundo dos bolsos, pegar nos teus pézinhos, dar meia volta e pôr-te a andar.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Pontas Soltas

Ouvem-se coisas acertadas aqui e ali. Coisas que se vão falando para o ar de tempos em tempos, quando se passa por experiências boas e experiências más, que um dia mais tarde vêm espelhar - com mais ou menos precisão - aquilo por que passamos eventualmente. Se assim é, se as palavras e histórias de uns se ajustam às nossas, então talvez sejamos mesmo todos diferentes, mas no fundo todos iguais. É nisso que vou acreditando à medida que passam e voam os dias. É isso que começa a levantar-se como verdade. Mas como para toda a regra, também aqui há uma excepção. Ou duas, se quisermos ser minuciosos.

Ainda que na pretensa igualdade, há quem insista em viver num mundo paralelo, à parte deste nosso, onde é rei e dono e senhor do universo e arredores. Caminham como pavões por entre o reles e comum mortal, como se de algum modo um poder divino lhes tomasse as veias. Mas esses estão longe de ser preocupação ou problema de alguém. Talvez sejam motivo de inveja para uns, talvez para muitos até, porque nos dias mais tenebrosos que nos assolam conseguem irromper dessa penumbra com facilidade, superiores a tudo o resto. Fora isso, mais dia, menos dia falhar-lhes-á um pé nessa arrogante escalada ao Olimpo e então baterão no fundo, no nosso fundo, onde estamos todos e onde devemos estar. E que batam de cabeça, pelos deuses, para que se extinga a ideia de tentar subir uma vez mais!

Os outros, os que constituem a segunda excepção, pertencem a um grupo mais restrito e de certo modo mais problemático. É o grupo dos apáticos. Caracterizam-se de forma geral por serem pessoas excepcionais, cientes de que somos de facto todos iguais, mas que se esquecem com relativa frequência dessa mesma realidade. E por descuido passam pelos iguais, de olhos postos no que quer que esteja imediatamente além deles, e atravessam-nos sem sequer dar por isso. Sem ponta de má fé, contrariamente aos da primeira excepção.

Contudo, aqueles que se sentem invisíveis, sentem-se igualmente magoados... Uma, duas e três vezes. E quatro, cinco e seis, enquanto houver fôlego para suportar mais! Até que um dia esse embate lhes tire todo o ar dos pulmões. Aí, baixam os braços de vez e então dão um passo ao lado, para que deixem de ser atravessados. E passam simplesmente a não estar lá. Um dia, dois, três... e os apáticos nem se apercebem, porque em boa verdade nem se apercebem do que fazem.

Gostávamos sempre que tudo fosse mais simples, não é? Não era tudo mais fácil? Que um erro não gerasse uma discussão. Que um passo em falso não fizesse cair o céu e tremer o mundo. Que cada um fosse apenas quem fosse, diferente em tudo mas igual em tudo também. Que reconhecesse e aceitasse cada bocadinho e cada recanto de si, cada dom e cada defeito, para que pudesse revelá-los abertamente aos outros e pudesse ser aceite também por eles, sem medos e sem hesitações. Afinal de contas, é a aceitação e cooperação de todas essas diferenças - por mais profundas que sejam - que nos torna especiais aos olhos dos amigos, sem deixarmos de ser iguais a nós mesmos aos olhos do mundo!

Somos iguais, eu e tu. Somos imperfeitos: está inerente à nossa condição de humanos. Vive e deixa viver. Erra - reconhecendo o erro e deixando isso claro a todos - e por fim deixa errar. Não negues, feitas as contas somos mesmo iguais e é aí que reside o nosso verdadeiro valor.

terça-feira, outubro 19, 2010

Há dias assim.

Perguntava-me quando chegaria o dia de voltar a estas páginas e eis que chegou. Há coisas para que não há palavras que cheguem. Há pessoas para que não há agradecimentos suficientes. Há momentos que não têm igual. E há dias assim.

Posso dizer que fui sempre, nos poucos anos da minha vida, um alguém como outros tantos, que acreditam plenamente que há coisas que apenas acontecem aos outros... Até que elas chegam à nossa porta e a arrombam; entram sem pedir licença e apoderam-se de tudo aquilo que a nossa porta resguardava. Foi a minha vez.

As minhas paredes estremecem e o meu tecto ameaça ruir. E fora do meu mundo, fora da minha casa abalroada, o céu escurece e engole o que há para lá dele. Fico a sós com as coisas que até então aconteciam apenas aos outros. Não sei o que fazer, o que dizer ou por onde ir. Tudo à volta se veste de dúvida e tudo à volta fala de dor.

As coisas que tomei como certas durante todos estes anos escorregam por entre os dedos e não há mãos que cheguem para tudo. E vão deslizando para longe, quem sabe se para não voltarem nunca mais. Fica connosco o que não foi feito, o que não foi dito, o que devia ter sido feito e o que devia ter sido dito.

Fica dor. Infeliz repito... há dias assim.

domingo, abril 19, 2009

Minha Irmã

Imagina-te a andar à chuva em dia de tempestade. Imagina.
Imagina que à tua volta há água e nevoeiro. Só. Sentes frio, sentes humidade. Imagina.
Escuta. Ouves a chuva. Já não ouves carros, fugiram da tempestade. Imagina.
Estás só. Há silêncio dentro de ti. E desespero. Falta tranquilidade. Imagina.

Agora pára o tempo. Pára-o e imagina.
Olha em redor. Percebes...?
Vês as gotas de água paradas e o nevoeiro congelado? Aguardam-te.
Aguardam que olhes para eles e depois para ti da mesma forma.
Aguardam que os olhes e depois olhes o mundo da mesma forma.
Aguardam que os observes e depois observes a Vida da mesma forma.
Percebes?

E se eu te disser que imaginei e que a minha tempestade parou e que olhei?
E se te dissesse que daquela solidão de gente assustada me livrei?
E também que logo depois olhei de perto cada gota de água? Cada uma dos milhões?
Se te dissesse que dei um bocado de mim para ver de perto o mais natural da Vida que, por isso, desprezo todos os dias?
Se disser que toquei cada gota de chuva que por mim e por ti passa tão fugazmente que nem há tempo para pensarmos nela, mas que faz parte do mundo onde eu e tu vivemos?
E se, por isto, te dissesse que há mais para além do que queremos ver?
Acreditavas?

Então imagina. E tenta olhar. E fracassa. E sente o frio. E escuta a tempestade que cai. E sente o silêncio dentro de ti. E sente o desespero gritar. E procura tranquilidade. E fracassa uma segunda vez. Imagina. E agora pára o tempo. E volta a imaginar. Deixa-te passear pelo enxame de gotículas paradas e neblina adensada. Toca-os. E sente. Volta a ouvir, a ler se precisares, o que disse e o que deixei escrito. Sente. E acredita.
Há mais, além.

E agora sei. E agora sabes também.
Quiseste perguntar um dia se sabia definir amor. Tentei e tentaste. Ficámos tão longe.
Mas vou arriscar outra vez.

Lembras-te de quando éramos pequenos e nos sentávamos no cume daquela montanha a ver passar os comboios? De quando chovia torrencialmente e esperávamos a mãe e o pai? De quando tremíamos de frio, abraçados, e calados ansiávamos vê-los pisar a plataforma de embarque?
Lembras-te?
Lembras-te, sei que sim. Sinto que sim. Vagamente, por agora. Relembro agora a cara que fazias quando o pai nos mostrava aquelas invenções estranhas. Farás a mesma enquanto lês estas palavras. Recordas vagamente, mas a memória trar-te-á de volta esses velhos tempos, minha irmã. Ainda te interessa encontrar uma definição para amor? Provavelmente não. Dir-me-ias o que pensas agora, que bem sei, que amor se sente, não se define. Mas, de todo o modo, não podia deixar-me levar deste mundo sem te deixar uma resposta. Ou tentativa de uma. E, agora que vejo próxima essa altura, escrevinho estas palavras em letra desajeitada, que sempre tiveste jeito para decifrar, para saber que satisfiz todos os teus pedidos.

Lembra os comboios. Lembra-os. E tens aí a minha resposta.
O amor é como eles.
Quem vê de fora não percebe. Naquele cume não percebíamos. Pareciam todos iguais.
Lembras-te de falarmos disso? Parece que foi ontem…

Mas quem viaja neles sabe que é a coisa mais errada que se pode pensar. E quem pára debaixo da tempestade, à chuva, de tempo parado, como nós, compreende-o.
A gente muda. Quem ocupa o lugar ao lado é diferente. O da frente e o de trás também.
A conversa muda. As crises de que se falam são outras, as do Passado morreram.
O tempo muda. As rugas que se acumulam na minha face e na dos outros lembram-me que não vivo para sempre. Lembram-me que deixo para trás as coisas velhas e que à frente me esperam novas. Poucas, sim, mas novas.
Tudo muda. Comboios iguais? Nunca.

De dentro percebe-se. E quando nos sentámos pela primeira vez num comboio foi isso que me disseste ao ouvido, entusiasmada. Parecia tudo tão pequeno, tão simples…
Olha o comboio e olha o amor. Tocaste as gotas de chuva, tocarás tudo na Vida.
O comboio vem e vai. Vem, passa e vai.
Larga velha gente, velha coisa. Abraça nova gente e nova coisa.
E volta a vir e volta a passar e volta a ir. Nós somos passageiros. Sempre fomos.

A minha literatura sem jeito não há-de mudar. E se não foi nos noventa e dois anos que deixo para trás que mudou, não é nestes dias poucos, em que já respirar me traz dor, que mudará, minha irmã. Tu que soubeste parar a tempestade, a chuva e o nevoeiro, saberás encontrar na minha comparação tola uma luz, como aquela que víamos chegar do túnel escuro, lá em baixo, quando chegava um novo comboio.
Agora que consegui deixar-te uma pista para a tua pergunta de gente pequena, que de resposta concreta pouco tem, tenho um último desejo. Percebi, nos poucos anos que vivi, que os comboios, além de serem como o amor, são como a Vida.

Também é um comboio.
Subimos, pequeninos, numa estação embrulhada num nada sem jeito, que ninguém sabe onde fica. Atravessamos mundos e gentes, lugares diferentes. Viajamos com almas que quando entrámos já ali estavam havia uns tempos.
Almas jovens, almas adultas e almas enrugadas.
Almas que conheciam muito lugar.
Almas de quem nos fizemos conhecidos. E amigos. E namorados. E noivos. E familiares. Entre outros.

Aos poucos, fomos parando noutras estações. Estações de saída. Assistimos à partida dessas almas que nos acompanhavam desde o dia em que no comboio subimos.
O coração, então maduro, era invadido por melancolia, mágoa como a que partilhámos nos dias em que a mãe e o pai tiveram de descer e sair da nossa carruagem. Desde esses dias, juraria que nunca vi duas vezes o mesmo rosto no mesmo assento. As almas que partiram deixaram um vazio que ainda hoje me assombra.

Lês-me há muito, minha querida irmã, para agora chegar ao que quero.
Não oiço de ti há anos. Não sei de ti. Mas tu sabes de mim e procurar-me-ás neste mesmo hospital, dentro de poucos dias. Sim, sinto que o túnel onde o nosso comboio se enfiou está para acabar e que pararemos uma vez mais. E sim, sinto que é a minha vez de deixar a carruagem.

Antes de partir, que mais não te deixo por dizer, quero que sorrias por saber isto. Não podia ter na vida, no meu e teu comboio, melhor parceira do que tu. Se o amor é bonito, que ambos sabemos que é, é muito pouco comparado com o que é ter-te. Ter-te tido, melhor direi, que será este o tempo adequado, quando me leres. Sorri, minha querida. Fizeste da minha carruagem uma carruagem especial. Fizeste da nossa carruagem a melhor que qualquer Homem podia ter. Sorri.

Prometo não pisar a plataforma de embarque.
Prometo agarrar-me, com as poucas forças que sei ter, ao fim do teu comboio.
Seguirei contigo.
Tolo? Muitas vezes na Vida, mas não desta.
Seguirei contigo, sim. Não acreditas?

Olha as simplicidades da Vida com atenção. Olha a carruagem com o coração, os olhos fazem-te cega. Olha-a assim e saber-me-ás (ainda e como desde que nascemos) sentado a teu lado, nesse lugar vazio aos olhos por que te fazes sempre acompanhar.
Olha a chuva. Olha o nevoeiro. Aguardam que os observes e depois observes a Vida da mesma forma, que há mais para além do que vês.


O teu irmão.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Para Lá de Fogo!

Fechei os olhos para pensar novamente no que me transborda na alma, que é, para lá de muita coisa que não se explica, amor. Amor sem igual, no âmago de um mundo que esquece ou já nem sabe o que amor é. Se há maior orgulho do que aquele de quem enverga uma farda com séculos de história, em memória digna de gerações e gerações, que são família, então desconheço-o. E se o desconheço, tu desconhecê-lo-ás também, porque será uma pedra na vida, de que ninguém quererá falar ou ouvir. O maior orgulho é aquele que nos queima o coração. Amor que me afoga em lágrimas, quando ouso olhar para o passado. Amor que me inunda quando aperto, um por um, os botões d'O Dólman e quando piso as mesmas pegadas de gentes do mesmo sangue que, um dia, viveram o que vivo e se tornaram grandes homens. Grandes portugueses. Lembrança de uns que deixaram já a vida por eles passar. Subiram na vida por trabalho de algo que me é comum. Comum a todos os que da Luz Meninos são! A chama, que há tanto ano arde, vive em mim e em nós e não dorme. E neles viveu também, adormecida na eternidade. Chama que se acende por sentimentos que as palavras tentam, em vão, descrever. Mas é, com toda a certeza, amor a uma Casa: o nosso Colégio Militar. Nosso, de todos aqueles que seguiram, seguem e seguirão com fé os valores de um Criador iluminado, triunfante de tempos para trás deixados. Fundador distinto, Marechal António Teixeira Rebello, que, de tão corajoso, partilhou com todos um sonho que era só seu. E do sonho nasceu a Obra. Do sonho nasceu a realidade, como da terra brotam as flores, que só com Amor se firmam belas. E voltamos ao início de tudo. Amor, para lá do Fogo que, na alma, se faz vibrar. Amor em lembrar os anos em combate, luta dura em ardor, por uma Pátria que é nossa e de mais ninguém. Amor em repetir e continuar as batalhas onde guerrearam nossos irmãos e primos, nossos pais e tios, nossos avós e também os seus avós. Honra e orgulho. Honrados por viver aquele mesmíssimo sonho, tão ousado, que é Utopia, no seio de um mundo por si próprio condenado. E orgulhosos por erguer as espadas dos antepassados, nossos irmãos, e, com elas, vencer e conseguir os demais triunfos, por eles deixados por conquistar. Se houver algo neste mundo com tamanha grandeza, esperarei encontrá-lo. Tesouros destes não há muitos, garantidamente. Tesouros que, mais ricos do que qualquer fortuna, enchem e preenchem a alma de qualquer um. Quem sabe consente. Tesouros que, em retrospectiva, me fazem tremer da cabeça aos pés, tanto quanto tremi quando atravessei as portas daquele mundo desconhecido pela primeira vez! E ao amor e a tudo aquilo que me traz as lágrimas aos olhos, quando caio na tentação de reviver os fogos memoriais do que passou, junta-se mais e mais saudade. Saudade porque aquilo que me construíu me vai abandonando aos poucos, fumo do meu fogo. E vejo-o partir devagar, mas parece querer fugir mais depressa. Chamo-o, mas não pára. Peço-lhe para voltar, mas não volta! Como qualquer coisa que parte, de costas voltadas, deixa a marca. Deixa a dor e o vazio. Mas chamar-lhe «qualquer coisa» seria ingratidão da minha parte. É Casa sem congénere. E esse amor que dá e que deixa é tão reconfortante, tão singular, que arriscaria uma mais ousadia, ao dizer que é amor maior do que todos e do que qualquer um. Gritaria aos quatro cantos do mundo que o Colégio Militar, minha perpétua Paixão, representa e tem o que de melhor há nele. Palavras serão sempre palavras e não mais do que isso. Mas a lágrima que cai completa-as.
É saudade, meu amor, é saudade. Saudade que até mim veio e que a meu lado se sentou. Veio para ficar. Saudades tão pequenas, amontoadas numa só, tão gigante: saudades de cada pedrinha que faz de ti quem és, saudade das tuas paredes e tectos. Saudades do espírito que te habita. Saudades dos bons e dos maus momentos. Saudades da tua vida, da tua alegria e da bondade com que me acolheste. A mim e aos meus irmãos. Saudades de tudo. Perder tudo isto. Perder-te assim, como sei não haver alternativa. Mas depois de tudo... é impossível não doer.
Mas sim, fica jurado que te levarei para todo o lado. Fazes parte da alma, parte do passado e do presente, parte do futuro, parte de tudo. Tu és eu. E já há muito.
Um agradecimento será pouco para o que aconteceu e para o pouco que está para vir. Mas receio não poder dar mais do que isso. Assim, dou-te tudo - que é sempre pouco - o que tenho. Não consigo escrever mais... as palavras não chegam.
Estás e para sempre ficarás aqui dentro.

Tomás, 108 de 2001
2 Jan 2009

domingo, março 23, 2008

Why?

Guerreamos por insignificâncias.
Desejamos impossibilidades.
Estragamos importâncias
E ignoramos necessidades.

sexta-feira, novembro 16, 2007

[Perdição]

Tornou-se impossível
Evitar aqueles problemas
Que vêm até nós e nos abarcam...
E todos os dilemas
Que sufocam quando se exaltam.

Contra tudo e todos

Um dia
Tudo aquilo que sonhámos
Aquele mundo que sorria
Tudo aquilo por que lutámos
Aquele olhar que se perdia
Tudo aquilo por que passámos
Aquela felicidade que ardia
Viria a não ser mais
Que mera memória tardia.

O mundo rosado
Que contigo se desenhou
Na escuridão dos infelizes
E da realidade se apagou

Arrancado de mim
E também de nós
Parte crucial, sim
A luz e a voz

Ajoelhar-me-ia para
Recompor o que mudou
Pois só gente seria
Nesse olhar que se fechou

Mundo perdido no sonho derrubado
Futuro esquecido no presente perturbado
Destruição de fantasia e destino marcado
E lembrança de momentos nossos do passado

A marca dos que vieram e passaram
A gravura e cicatriz dos que ficaram
A mágoa e memória dos que embarcaram
Na ânsia desesperada dos que amaram

sábado, outubro 13, 2007

O Grito Final


Passam horas. Passam dias e semanas. Sorrateiramente, passam meses... passam anos. Olhamos para trás e vemos um passado longo e glorioso. Poderá inclusivamente ser considerado como «mal aproveitado», mas agora já pouco importa. Olhamos para o dia de hoje e vemos o quanto mudámos. Por fim, olhamos para o futuro e vemos que tudo o que um dia começou, brotou e floresceu está para morrer brevemente. Pouco falta para tudo acabar. Hoje, presente, somos Meninos da Luz em fase terminal. Somos Meninos da Luz formados. Somos instrutores. Amigos. Irmãos. Pais. Hoje, choramos em conjunto em prol de algo que certo dia nos uniu e marcou para sempre e que, quando o momento chegar, irá cicatrizar as nossas almas e corações para nunca ser esquecido...
Como pude achar, um dia, que a vivência colegial era longa? Como? Por que razão me terá parecido tudo tão lento? Não sei responder. Mas sei que estava redondamente enganado. Porque... vejo-me ao espelho e vejo o peso da responsabilidade sobre os ombros. E carregamo-la às costas, para todo o sítio; para onde quer que vamos. Passámos em "tão pouco tempo" de crianças a adultos prematuros. Passámos de aprendizes a mestres... Aqueles que hoje tomam o lugar que tomámos há 4 e 5 anos olham-nos e ouvem-nos. Tentamos a todo o custo fazê-los ver o que a nós foi explicado. Tudo passa depressa e tudo acaba, antes que nos apercebamos disso. Mas não assimilam isso. Tal como nós não assimilámos, tal como nós não percebemos. E custa profundamente vê-los fracassar e falhar precisamente onde nós errámos... Não conseguimos mudá-los e saímos magoados.
Hoje passamos-lhes tudo o que nos é possível e tudo o que nos foi passado, mas sempre de lágrimas no canto do olho, porque o nosso tempo de viver isso já está para trás das costas, já cedeu à inevitabilidade avassaladora do passado... e uma vez mais, dói. A dor é saudade incontrolável. O que anteriormente nos parecia tão fácil, hoje é tão difícil... Precisamente o contrário ao que, até termos uma posição de graduado, sempre pensávamos. Uma vez mais, estávamos enganados.
Mas só quem sente na pele a força e tristeza de um último grito, o grito final de desespero por ensinar e aperfeiçoar os erros que, outrora, foram nossos, se apercebe disso. O grito que traz o fogo de uma alma profundamente marcada. De ora em diante, contam-se os nossos últimos momentos. O grito é de imortalidade. O que ontem fizemos, e não fizemos, será por outros feito, sempre em plena continuidade.
Grito de guerra.
Grito de mágoa.
Grito de dor incontornável.
Grito de Saudade.
Grito de Vitória.
Grito de Felicidade e Esperança, Amizade que alcança…
O Nosso Triunfo.
É o fim, mas é de igual modo um começo. Tudo começará do zero para quem, no dia de amanhã, entrar pelas mesmas portas pelas quais entrámos certo dia. E dos miúdos que hoje ensinamos, receberão tudo o que estes recebem dia após dia. Receberão o que já foi de alguém, que hoje é nosso e que amanhã será dos nossos Putos.
Hoje, o Grito Final é nosso. Com orgulho e brio, gritemos.

Por Ti, Colégio que nos apraz,
Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz!

sábado, janeiro 27, 2007

Reflexão

Uma lágrima cristalina cai, tornando o papel molhado e rugoso. A tinta, gasta em palavras soltas, desvanece aos poucos nessa grossa gota salgada. Palavras que não parecem ter muito sentido. Todavia, a ideia retida em cada pequeno conjunto de letras mostra um pesado sentimento de amarga saudade. O arrepio que salpica nas costas e o formigueiro persistente que se apodera da mão, até à ponta dos dedos, dão um gosto quente sobre a frieza do papel, à medida que as palavras vão surgindo, calorosas. Sem marcar a tinta cintilante nele, papel, é difícil viver entre a escura solidão e o agonizante sofrimento... Com sequência, as lágrimas continuam a molhar o papel, a manchar e turvar as palavras e, aos poucos, mostram a convulsão e o sufoco apertado duma mente fustigada. Manchas que dão ao texto uma exclusividade pitoresca de uma expressão dura, fria e impetuosa. As memórias antigas encadeiam-se num sonho, que ecoa na mais profunda penumbra dessa mesma mente, a cada noite que inevitavelmente passa. Avivam o passado inesquecível e alimentam a esperança de um futuro igualmente singular. Cada protagonista dessas memórias é um ponto de luz nos dias de lubrina densa e escura e cada um é um longínquo caminho descoberto com muito ainda por descobrir. Cada um é uma das lágrimas que se soltam e cada um é um sorriso, por muito mais fugaz que ele seja.
A ironia impossível de entender é a longa durabilidade dos tempos em que anseio por vocês e a instantânea rapidez com que passam os momentos em que convosco estou. Há muito questiono a inquestionável razão de ser assim. E aqui nasce a soturna e lúgubre "solidão" de que muitos falam.
Resta-me murmurar este segredo:
« Um dia estas lágrimas secarão, tornando seco o agora humedecido e enrugado papel onde escrevo. Nesse dia perceberás o que digo. »

sábado, dezembro 02, 2006

[Um único]


(Dedicado ao Sr. Mário,
Gentil senhor e grande amigo.
Estará sempre presente,
Não aqui, mas comigo.)

Um sorriso sempre aberto,
Com uma força imortal,
Que nem de muito perto
Terá esta lágrima jovial

A honestidade,
A generosidade incondicional
Fogosa nesta amargura
E tristeza memorial

Num mundo cravado
Fundo no coração,
Perdido, mas encontrado
Na farda cor-de-pinhão

Aquele que provou Homem ser,
Que esta lágrima provocou,
Findou a estrada difícil de percorrer,
Mas grande é a marca que deixou

Mas o Homem não será ignorado,
E muito menos esquecido,
Será antes relembrado,
Como vencedor e não vencido

Aquele lugar que foi dele,
Agora deixou de ser,
Porém continua nele,
Uma memória não deixa de viver

Um agradecimento
De uns rapazes que foram seus,
Neste triste e mau momento,
Um grande, grande adeus

E um forte ZACATRAZ...