quinta-feira, julho 07, 2016

Tango Mortal

Ele era apenas um miúdo. 

Além de cheiro e memória, a morte tem cor. É vermelha e é negra. E no entanto não tem nada de colorida. Deixa-me as mãos em sangue, a alma em brasa e a mente em ferida. No cru jogo da guerra não há espaço para ser-se ético. Pode haver na morte cor, mas não há nada de poético.

Ele era apenas um miúdo. Mas vendo-me desarmado não hesitei em lançar as mãos ao seu pescoço e em apertá-lo entre os meus dedos com todas as energias que tinha em mim. 

Dançávamos um tango a dois. Eu apertava-lhe o pescoço e a vida nele para que ele não pudesse apertar o gatilho que me tiraria a minha. O instinto de sobrevivência percorria-me de alto a baixo, demorava-se no meu coração durante três rápidas batidas e depois dispersava para os meus braços. Depois para os meus dedos. E por fim para o pescoço dele.

Mantivemo-nos nesse ritmo incansável, cedendo e conquistando espaço de dança em alternância, até que a música parou. Sob o peso do meu corpo e das minhas mãos feridas, o pescoço dele finalmente sucumbiu, quebrando com a mesma fragilidade com que se partem galhos secos. Ouvi-lhe um estalido surdo e o ar a fugir-lhe de vez dos pulmões. Larguei-lhe por fim a garganta, os meus dedos roxos e hirtos da força, e rebolei para longe do corpo dele, rolando sobre as costas.

Podia ser apenas um miúdo, mas se em vez de lhe apertar o pescoço eu o tivesse deixado premir aquele gatilho, hoje estaríamos não a caminho do meu casamento, mas do meu funeral.

terça-feira, junho 28, 2016

Vazios de Ti

Sonhei contigo.

Sonhei contigo e acordei com um vazio estúpido de ti. Com uma comichão que não tem como coçar... Parece-me que no canto do teu sossêgo e do teu silêncio consegues ser mais sombra minha do que eu próprio, perseguindo-me pé ante pé sem que o saibas. Os fragmentos de ti em mim são resquícios de uma pólvora meia apagada; fuligem e estilhaços de uma mina armadilhada que um dia pisei sem querer.

Não dou pelo tempo, mas sei que passou e vai passando depressa. Oiço o burburinho dos ponteiros do relógio sussurrando na sala de estar e volta e meia apercebo-me ao longe de doze badaladas roucas. O tempo voa tremido e fugaz como os aviões de papel que punha em órbita em criança e é o veleiro que, ao sabor da maré e embalado em brisas, me afasta de ti e me guia a novos portos e horizontes.

Concluí com sucesso o curso de piloto-aviador. Saí de casa. Casei com a mulher que é a metade de mim e que me é por inteiro. Tenho dois filhos, um rapaz e uma rapariga como sempre quis, ele forte e reguila e ela a princesa dos meus olhos. Brincam neste momento no jardim do outro lado do vidro, enquanto escrevo, na casa que sempre quis ter. Uma vivenda em madeira com um quintal relvado, num bairro tranquilo e com boa vizinhança, com a mesma avózinha passeando-se todos os dias de leggings e fita na cabeça, toda desportiva e sorridente, em modo de jogging. Tenho um pastor alemão cachorrinho, pouco maior que o meu antebraço.

Tenho tudo.
E tenho um vazio de ti.

terça-feira, junho 14, 2016

Castelos de Sonhos

Se em matéria de matéria somos essencialmente água, em matéria de alma somos essencialmente sonhos.

Era isto que a minha avó tentava explicar-me. Tu és o teu castelo de sonhos. O género de castelo é lá contigo; tu decides se empilhas sonho sobre sonho, como blocos de pedra, e constróis um castelo no cume de uma montanha, ou se os dispões antes lado a lado, ao comprido, e constróis uma muralha tão infinita quanto infinitamente saibas sonhar.

O que é certo, dizia-me ela, é que não basta ser-se sonhos. Para se ser sonhos é apenas preciso atirar com carvão e lenha para dentro do forno da imaginação e soprar as brasas. O que é preciso é vivê-los. É correr loucamente atrás deles como leões atrás de gazelas, de garras para fora.

Quando te olhas ao espelho, despe-te de roupas, de penteados e de caras. Quantos sonhos vês? Quando sobes para a balança, cega os teus olhos para números e medidas. Quantos sonhos vês? Quando olhas pela janela, para o mundo lá em baixo e à tua volta, solta-te das tuas próprias correntes, dos teus medos e das tuas dúvidas. Quantos sonhos vês?

Não importa se é aquela ida ao ginásio na porta ao lado mas que parece tão distante, aquele café com o amigo quase esquecido, aquele telefonema que andas há séculos para fazer, aquele perdão que andas a adiar, aquela viagem até ao outro lado do globo, aquele curso superior que querias e não o que alguém queria para ti, aquele emprego que é a tua cara, a conclusão daquele projecto pessoal pendente, a publicação daquele livro ou uma completa viragem de 180º. Nunca é tarde de mais.

Recorda que os teus sonhos são o teu castelo e que não é esperado que alguém o construa por ti. Relembra que todas as jornadas, por longas que sejam, começam com a coragem de um primeiro passo. E antes que a palavra "fracasso" se forme na tua mente, como justificação cansada para desistires de ti, lembra-te que em criança não começaste a andar sem antes tropeçar e sem antes cair. Uma, duas e três vezes.

Como me disse um amigo, todos os puzzles começam com as peças dispersas, baralhadas. O que é preciso é saber juntá-las, uma a uma. Sonho a sonho.

sexta-feira, junho 03, 2016

E Viveram Felizes Para Sempre

"E viveram felizes para sempre."
Só que não.

É engraçado. Vivi uma infância embalada pelos mágicos filmes Disney (quem não?), esculpido ponto a ponto, sem que me apercebesse, pelas sábias lições de vida escondidas para lá das bonecadas. Inspirado, na minha inocência de criança, pelas mensagens de esperança de um mundo melhor e de uma vida plena, quantas vezes ao som de "E viveram felizes para sempre". Bem ou mal, isso reflectiu-se em mim, na minha forma de ser e estar na vida e na minha forma de projectar o meu futuro. Até há uma semana.

Neste quarto não há muito que fazer senão cansar-me de ler jornais e de ver os mesmos canais de televisão vezes sem conta. Nem meio vazio, nem meio cheio, apagar a televisão não se revela melhor opção, porque à falta desse ruído de fundo há só a minha respiração esquisita e os apitos intervalados desta maquineta irritante, que se me liga por uma agulha ao pulso. Nem a porra de uma mosca se ouve.

Então, enquanto esperava, optei por falar com os meus botões. Revi todos os cenários possíveis, ansiando pelos melhores e preparando-me para os piores. Sei lá, na altura pareceu-me uma boa ideia. Sempre gostei de ser racional e até hoje a vida não me tinha falhado nesse aspecto: a coisa da vida é que tudo se resume a uma questão de perspectiva. E nos meus breves anos de vida eu já carrego um histórico pesado de termos de comparação, que me faz olhar para tudo num paradigma de simplificação e de aceitação. Separar coisas importantes de coisas irrisórias ou acessórias.

A verdade é que vi partir amigos injustamente, vi partir irmãos e irmãs de amigos cedo demais, alguns deles de formas tão estúpidas quanto o ser humano pode ser estúpido. Onde me situo eu, neste circo de atrocidades, para poder sentir-me infeliz ou injustiçado com aquilo que tenho ou aquilo que me falta? Ao lado daqueles, que são problemas dignos desse nome, os meus eram anedotas. E daquelas más.

E assim relativizei a questão e ensaiei os cenários na minha cabeça. Embora fizesse all-in no "E viveram felizes para sempre" (porque, convenhamos, ainda tinha muito para viver), ao fim de muito ensaio neste palco decrépito sentia-me em paz com qualquer coelho que o médico pudesse tirar da cartola quando voltasse.

O problema - agora sim - é que, quando ele regressou e passou por aquela porta, entre mim e essa célebre frase tão cheia de sonhos e ambições surgiram duas palavras:

"É cancro".

Deixei de me ouvir respirar.

Deixei de me ouvir respirar e esqueci-me de todas as falas dos meus ensaios, de toda a apaziguada aceitação do meu destino deixado aos ventos.
"É cancro", naquele tom de voz sem réstia de alento, é o copo de vidro que nos escorrega das mãos; que deixamos cair aos nossos pés descalços e se desfaz ali em mil bocados e que te deixa petrificado, imóvel, com receio de assentares um dedo que seja no centímetro quadrado de chão errado. E o zumbido que fica nos ouvidos do vidro a quebrar-se, igual ao som de tudo em ti a quebrar-se também por dentro.

Ninguém te prepara para isto. Engasgas-te a responder, até que desistes de tentar formular uma resposta. Enquanto tu e o teu corpo digerem essa realidade, dás por ti a viajar mentalmente até à tua família, até aos teus amigos, até à tua miúda; a dar-lhes aquele último abraço e aquele discurso de despedida que na verdade não vais dar, porque sabes que quem cá fica são eles e só seria pior se soubessem.

Consegui finalmente engolir aquele bolo, a seco, e não precisei de mais palavras. Arranquei do pulso a porcaria do fio, saltei da cama e fui viver os últimos dias da minha vida, antes de me deitar aqui de vez.

Não deu para tudo, mas consegui um serão em família e dar o último adeus em silêncio a grande parte dos meus. Para terminar, hoje assisti pela última vez a um jogo de vólei da minha equipa, sem eles saberem. E ganhámos...! Ganhámos e ganhámos bem, com um mérito irrepreensível, e só por isso,  mesmo não seja "para sempre", eu vou daqui feliz.

Um abraço amigo.

quinta-feira, maio 05, 2016

Sonhos que Nunca Sonhaste

Ninguém quer lembrar-se do que a mente nos reserva durante a noite.

Os meus pais pariram-me sonhador. Na minha mente crescem sonhos como crescem morangos na terra ao sol. E nem preciso de os regar. O problema é que, num duelo à faroeste entre mim e a minha mente, quem vence é sempre ela. Porque sabe onde ferir.

"Calma lá, cowboy dos sonhos, que conversa vem a ser essa?", perguntas tu. Nem te dás conta. Não te dás conta porque, como disseste naquela manhã entre sono e cigarros, ao acordares nunca te lembras do que sonhaste. E ainda bem para ti: ninguém quer lembrar-se do que a mente nos reserva durante a noite.

Os pesadelos são poções fabricadas em caldeirão pela nossa mente - escolhendo os ingredientes certos a dedo e misturando-os "generosamente" - e administradas pela noite ao nosso corpo, via intravenosa. É uma matemática simples: durante o dia, o trabalho do corpo que não dá tréguas à cabeça; durante a noite, o veneno da cabeça que não dá descanso ao corpo. Olho por olho, dente por dente. E se por vezes a dose é pouca, vezes tem que é veneno mata-ratos, de concentração muito para lá da dose letal.

A nossa cabeça conhece-nos bem. Sabe com precisão milimétrica e a papel químico o que mexe connosco. O que nos assusta de morte, o que nos dá suores frios e o que nos dá sete coronhadas no estômago sem sequer nos tocar. Mesmo quando nós próprios não sabemos. Mas tu não percebes. Não fazes ideia do que isso é. Não sabes o que é veres-te num cenário tão real que não sabes distinguir se estás a dormir ou se estás acordado. As paisagens, os sons, os cheiros!, os rostos.

Tu - para quem, não lembrando, tudo será sempre novo, de novo - não farás ideia do que é, noite após noite, regressar ao mesmo sonho. Ao mesmo pesadelo. Às mesmas salas e recantos obscuros que já exploraste n vezes antes, mas que, enquanto novo sonho, terás de tornar a explorar. Com o mesmo medo com que exploraste da primeira vez. Já sabendo e antecipando o que vem lá por detrás daquela próxima porta.

Não sabes o que é estar no centro de acontecimentos tão grotescos que te deixam de mãos e pés atados e com o coração na boca e que, por te lembrares quando acordas, és obrigado a reviver. Vi o meu pai morrer brutalmente baleado, em plena emboscada islâmica, por exemplo. Vezes e vezes sem conta. À frente dos meus olhos. Sem poder impedi-lo e sem ter para onde fugir. E como esse, tinha outros tantos para partilhar contigo. As minhas partidas nocturnas de xadrez contra os meus medos, em que o meu Rei está sempre em Xeque; eu refém de mim próprio. Eu a ratoeira e eu o rato.

Invejo-te. Ninguém quer lembrar-se do que a mente nos reserva durante a noite. Eu lembro-me. E preferia não me lembrar.

sexta-feira, abril 29, 2016

Para Quem a Lama é Ouro

De repente esqueci-me por que estávamos a lutar.

Era a minha terceira jornada em guerra, longe de casa e fora do meu país. Nesse período, vi muita coisa. Testemunhei mais do que desejava e assisti às cicatrizes a brotarem-me à flor da pele e à flor do coração. Fragmentos de explosões, golpes de faca e ferimentos de balas. Irmãos de armas mortos, amputados, desfigurados e tantos outros feridos. Mas aquela imagem fez parar o mundo. 

Tínhamos acabado de abrir caminho em território hostil. Um lamaçal nas imediações dos destroços que sobravam daquela terriola. Achava-a deserta, já que não tínhamos avistado ninguém. Nem um pio. Só o vento varrendo as ruínas, os motores dos jipes e os passos secos de quem, como eu, seguia a pé. E os chocalhos da água nos cantis e das fivelas nos capacetes.

Atrás de nós vinham em coluna dois carros de combate, artilharia pesada. Ao atravessar o lamaçal, os carros abriam fendas na terra e as fendas depressa cediam lugar a poças, de uma água mais acobreada que os nossos coletes. E do silêncio asfixiante, uma criança de meio metro, escondida apenas entre pele, ossos salientes e uma coragem do tamanho do universo, arrasta-se para fora das ruínas e afoga a boca nas poças que deixávamos para trás, secando uma por uma. Via-lhe o coração bater por debaixo da pele seca, tal a magreza. De cérebro congelado, consegui apenas antes de seguir caminho deixar-lhe cair, como ali a mim tudo me caía, o cantil que trazia à cintura.

Sei contar de trás para a frente a história de todas as minhas cicatrizes, mas não encontro palavras à altura daquela nova que acabava de ganhar. 

Há verdades que ferem mais que balas.

quinta-feira, abril 28, 2016

Frágil

Tens o hábito terrível de partir do pressuposto que temos pela frente muitos e longos anos de vida, tu e eu e toda a gente. Mas em última análise, a vida é estupidamente frágil e não nos permite saber quem fica e quem parte, ou tão-pouco quando parte quem parte.

E então talvez fosse sensato relembrares isso com maior frequência, para que quando ao fim do dia te deitares tenhas absoluta certeza de que não deixaste alguém desapontado ou magoado, alguém com o pensamento amargo de te ter magoado a ti porque decidiste adiar explicações para outro dia - ou quem sabe para nunca - ou para teres absoluta certeza de que não deixaste alguém a quem gostarias de dizer o quanto significa para ti sem uma palavra.

A vida prega partidas e a verdade é que nunca vais saber quando foi a última vez que viste alguém, a última vez que tiveste a oportunidade de lhe dizeres e de fazeres com ela todas essas coisas que foste acumulando e tens em ti guardadas.

Talvez valha a pena pensar nisso.

(28/04/2014)

quarta-feira, abril 27, 2016

Ciência da Alma

Desde criança que acredito em almas. Enquanto todos acreditavam em Deus, na Vida depois da Morte, no Céu e no Inferno, eu acreditava somente em almas. E era gozado por isso.

É claro que a princípio não entendia a complexidade que o conceito envolvia. Na mente do meu eu pequeno, as almas eram imaginadas como minúsculos seres azuis conduzindo os corpos das pessoas à minha volta, sentados ao volante das suas vidas nos cockpits das suas cabeças. De cinto apertado e tudo. O cabelo no topo das cabeças servia, como era óbvio, para não deixar as almas ao frio.

Com o passar dos anos, a minha visão mudou um pouco e as pequenas almas azuis dissolveram-se num pó invisível que corria no sangue das pessoas, nessa encruzilhada de veias e artérias que eram como auto-estradas para elas. Se antes imaginava as pequenas criaturas azuis mais gordas ou mais magras consoante a figura ou a personalidade de cada pessoa, nesta fase media as diferentes almas em termos de densidades e formas desses pós, ainda que invisíveis. Quanto mais denso e quanto maior a dimensão das suas partículas, dos seus grãos, mais vincada e mais audaz a alma. Agradava-me a perspectiva científica da questão.

E então caiu-me nas mãos, como um pára-quedas furado, a expressão de alma gémea. A ideia baralhou-me. Como assim, "gémea"? Seriam dois pós congéneres? Alojados algures num mesmo quadrado imaginário da tabela periódica? Ou duas substâncias diferentes, soluto e solvente, com elevado coeficiente de solubilidade, capazes de se fundir na perfeição?

Mas de que forma estava isso relacionado com o amor, de todo o modo? E então como funcionava essa conversa que tanto ouvia, entre choros e soluços dos mal-amados, de que "nada dura para sempre" e de que "o que é bom acaba depressa"? Uma solução perfeita não se inverte assim tão facilmente, tão espontaneamente.

Então, num esforço mental, aceitei a hipótese de a alma ser não um pó, mas algo de imaterial. E, aceitando, porque não estender à alma imaterial a teoria de Lavoisier, de que "na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"? Poderão as almas desviar-se das auto-estradas do sistema sanguíneo e saltar de corpo em corpo? Poderão as almas gémeas escolher um dia habitar noutra casa, num outro corpo, dando lugar a uma com quem a nossa alma incorpórea não se identifique mais...?

Fica-me a dúvida. Mas quero acreditar que sim. Talvez assim os amores não tenham sempre um fim, como dizem, mas apenas uma mudança de rumo. Talvez deixem de dar vida e brilho a um par de olhos e passem a dá-los a um par diferente. Então não acaba. Temos só de seguir espreitando na janela de cada um dos outros corpos em redor, até (re)encontrarmos, no seu cockpit vago e indefinido, o nosso soluto ou o nosso solvente.

sábado, abril 09, 2016

Quando o Céu Fica Cinzento em Nova Iorque

O céu sobre Manhattan nasceu cinzento, sem um sorriso.

Nasceu cinzento e teimou em manter-se assim. Por alguma razão, o cinzento do dia contagiava as pessoas; colava-se-lhes como uma sujidade que não sai. A mim, sobretudo. Mais do que nos outros dias todos.

Estava há horas enterrado na cadeira, no canto mais isolado do escritório, à espera que uns e-mails se esbarrassem na minha caixa de entrada; à espera que aquele apito de aviso irritante me martelasse os tímpanos de novo. Cansava-me a espera, a inactividade... Nos dias cinzentos tudo me cansava mais, como se o pavio da paciência encurtasse drasticamente. Aborrecia-me.

Perguntaram-me se queria descer para fumar um cigarro. Queria só descer. Queria fazer qualquer coisa que não aquilo e por um instante quase ponderei voltar a fumar um cigarro só por cinco minutos de escapadela. Mas abanei a cabeça e eles desceram sem mim.

Enquanto ouvia o elevador a chegar e a liberdade e o ar puro a fugirem de mim, empurrei-me até à janela. Apoiei primeiro o cotovelo na secretária, depois o queixo na mão e depois a testa no vidro gelado. E então entretive-me a observar as pessoas na rua, a fumar o meu cigarro imaginário.

Por alguma razão, no meio de toda a multidão, os meus olhos colaram-se a uma mulher de chapéu, elegante quase ao estilo de SoHo, como se colavam às pessoas os dias cinzentos. Saía de um edifício do outro lado da estrada; chapéu, óculos escuros, gabardina e bota alta. Parou junto à passadeira, à espera que o semáforo abrisse, e ajeitou o chapéu na cabeça. Depois o semáforo abriu e eu perdi-a quando ela atravessou a estrada. E voltou-me o aborrecimento.

Ouvi o elevador chegar. Tinha acabado a pausa do meu cigarro virtual. Resmunguei para mim próprio; ainda não me sentia pronto para me descolar da janela. Precisava de um último bafo. Mas o meu silêncio interior foi interrompido pelo eco de uns tacões aproximando-se e depois por uma voz estranha, terna:
- Mr. Gordon? Bom dia!
Não soava nada a cinzento.
Os meus olhos saltaram da rua e das pessoas para umas botas altas, para uma gabardina e para umas mãos segurando um chapéu.
- Tinha uns e-mails a que lhe responder, mas tinha assuntos a tratar nas redondezas e então pensei passar aqui e falar consigo pessoalmente.
O sorriso dela desarmou-me e despiu de mim o aborrecimento.

Dizem que tudo o que é preciso são 20 segundos de loucura. Por uma vez na vida deixei-me ser louco e no fim de tudo convidei-a para um café.

Hoje não está de chapéu, mas está de vestido de noiva à minha espera no altar.

domingo, março 13, 2016

Contornos

A minha avó tinha um entendimento muito próprio sobre a vida e sobre as coisas.

Era professora de desenho e de alguma forma isso talhara-a para ver o mundo de um modo diferente. Ela compreendia melhor do que ninguém a geometria da Natureza, por exemplo. As simetrias, as curvaturas, a disposição angular, os padrões, as cores. Compreendia-a e deleitava-se com ela.

Não raras vezes, enchia-nos os bolsos com conselhos de vida através das suas pequenas lições de desenho, enquanto nos observava a rabiscar umas folhas de papel com lápis e canetas de cor. Esta noite, por alguma razão, sonhei comigo sentado de novo no alpendre dela, com talvez 8 anos, com ela ao lado baloiçando-se na sua cadeira e espreitando por cima dos óculos o desenho que então eu fazia.

Estava a delinear a caneta preta todo o esboço que fizera a carvão, quando a voz dela me interrompeu, clara como se me falasse hoje ao ouvido: "Pousa a caneta preta, filho. Nada nesta vida tem contornos definidos".

No meu sonho, vi-me parar quase mecanicamente e pousar a caneta. Depois disso, quando captou a minha atenção, a minha avó divagou numa conversa que naquela altura não passou, para mim, de um comboio de palavras soltas. E que, no entanto e sem saber, mantive guardada para mim todo este tempo. Dizia ela:

"Nada nesta vida tem contornos; somos nós que os impomos. Desde cedo. Os primeiros desenhos são sempre contornos coloridos, mas sem preenchimento. Bonecos desenhados a caneta de feltro ou a lápis de cera, arrojados e alegres. Uns anos mais tarde, passamos a preferir, como tu, o lápis de carvão. A grafite. E a borracha, é claro. Preferimos construir primeiro uma base, um sustento mais sólido, perfeito à nossa medida. Depois, a cor. E durante alguns anos experimentamos vários tipos de cor: lápis de cor, lápis de cera, canetas de feltro, tons de grafite, guache, aguarelas... E no fim, sempre no fim, o contorno a preto."

Lembro-me de nesse instante voltar-me para o contorno inacabado no meu desenho.

"A fase seguinte é a da tinta da China. Porque é para sempre. E para nós o para sempre é sempre melhor. Dá-nos estabilidade e segurança. Um contorno a lápis ou a caneta é frágil demais. Com o avançar da idade, vamos pondo de parte o hábito e o rigor da tinta da China e desistimos de desenhar contornos. Se encheres uma tela com tinta e a virares de pernas para o ar logo de seguida, o que é que acontece?"

"A tinta escorre...?", arrisquei.

"A tinta escorre. Escorre, pinga e estraga toda a pintura. Acabamos por largar a tinta da China porque percebemos que o 'para sempre' é o tempo que traz. Não o contorno, não a definição forçada. É preciso esperar que a tinta seque; que o papel absorva. Então deixamos a cor do preenchimento fazer o seu próprio contorno, moldar as suas próprias curvas. E é aí que os desenhos se tornam mais reais, mais limpos. Mais bonitos.

E aí sorriu-me. Sorriu-me e eu acordei, com a voz dela e o ranger da cadeira de baloiço ainda a zumbir-me ao ouvido. Vinte anos depois aquele comboio de palavras soltas ganhou forma em mim e levou-me a ver a vida com outros olhos. Os olhos dela.

Sem contornos.

segunda-feira, março 07, 2016

Cancro.com

Nunca mais escreveste.

Há meses que não recebo notificações de novas entradas no teu diário e isso tem-me agitado e desalentado. Parece que perdi de mim o meu novo entretenimento das horas vagas, o novo calor de fundo das minhas noites frias.

Acostumei-me a ter-te por perto, ainda que irremediavelmente longe e sempre sem rosto, e a tomar abrigo no asilo das tuas palavras. Em ti tinha a força que sozinha não tenho para viver o mundo, a coragem que sozinha não encontro para sair à rua e fazer-me à estrada e a tudo o que existe para lá dos meus receios.

Visitei castelos, fontes, prados e praias nos teus versos. Imaginei sentir a tua areia a escaldar-me os pés, a água em torno dos meus tornozelos enquanto corria à tua beira-mar, a brisa quente de um verão que não vivi na cara e entranhada nos cabelos, o leve aroma no ar no sussurro do vento primaveril, a Lua cheia num céu visitado por estrelas cadentes. Mergulhei fundo e de cabeça em ti e escalei sem medos as escarpas dos mundos que construías tão perfeitamente parágrafo a parágrafo. Respirei pelos teus pulmões, inspirei pelo teu nariz e vivi pelo bater do teu coração.

Esperava horas a fio à lareira por uma nova notificação, por um novo texto. E a cada noite lá estavas tu, no ícone vermelho piscando, com uma nova história para o mundo e um novo bilhete de ida sem volta para mim. Habituei-me a escolher estrategicamente a hora para te ler, para assegurar que adormecia ao terminar a leitura e prosseguia viajando noite fora no mundo que conheceras durante o dia.

E então seguiram-se sete meses de ti em silêncio e sete meses de mim vazia, sem a harmonia da tua prosa e sem a loucura da tua poesia. E desde que a tua retirada prolongada te riscou do mapa nunca mais sonhei igual. Os sonhos das minhas noites replicaram a monotonia desesperante dos meus dias, de uma rotina feita de nadas. Tornei a cansar-me de mim própria e do meu mundo sem cor nem forma, sem a tua adrenalina, as tuas paisagens e as tuas sensações mil.

Tornaste-te um cancro meu.
Mas é a tua ausência que me mata.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

A Prisão Dela

O mundo dela era sombrio.
Por fora andorinha em constante migração, por dentro prisioneira de guerra encarcerada numa masmorra. De mordaça na boca e envolta em mil grilhões. Suspensa pelos pés. Todos os dias ela respirava a custo dentro do seu próprio colete de forças, observando o mundo lá fora do avesso. De que serve a liberdade exterior quando se é escravo e refém de si próprio?

O mundo dela era um inferno. Todos os dias a vida dela pegava fogo e ela via o mundo incendiar-se à sua volta e desfazer-se a seus pés. Mas era ela o fósforo, a gasolina e o oxigénio. O calor, o combustível e o comburente. E sufocava no seu fumo.

O mundo dela era um programa de computador. Zeros e uns. Um pára-arranca. Um tic-tac oscilando entre o ser e o não ser. O ir e o ficar. O querer e o não querer. O viver morto e o morrer acordado. Na batalha entre ela e ela mesma, quem quer que desse a última estocada era ela que morria.

E ela um dia disse-me que há portas para lá da vida que eu não compreendia. E não compreendi. Mas a maior guerra é aquela que decorre no nosso interior, no nosso silêncio vagabundo.

É aí que começa a revolução.

domingo, fevereiro 07, 2016

Meia Dose de Verão

Tenho sede do Verão.

Tenho sede do calor. Sede do céu azul, do sol quente lá no alto e do bafo que paira no ar. Faltam-me as t-shirts, o calção de banho e as havaianas. A mochila às costas, o chapéu de sol ao ombro e a toalha debaixo do braço.

Falta-me a areia entrelaçar-se entre os dedos dos meus pés. Falta-me guerrear com a areia para enterrar o chapéu. Falta-me estender a toalha, deitar-me e remexer-me nela até moldar a areia ao meu corpo. Falta-me o cheiro a protector solar e a minha mãe perguntando a cada dois minutos se já pusemos nova dose.

Falta-me o caminho até ao mar a escaldar os pés. Falta-me o congelar dos ossos dos pés ao entrar na água. Falta-me a frescura da água que me percorre ao mergulhar e a frescura dos teus lábios depois de um mergulho. Falta-me o sabor a sal na boca. Falta-me o meio quilo de areia na cabeça e os cinquenta no fato-de-banho. Falta-me deixar que o sol me evapore a água do corpo. Falta-me o bronze na pele.

Falta-me o livro na toalha e depois na sombra do chapéu. Faltam-me as cartadas em família e o vólei à beira-mar. Falta-me uma imperial fresquinha na esplanada. Falta-me fugir à pressa da maré que sobe sem aviso. Falta-me o pôr-do-sol. Faltam-me as gaivotas que gozam os últimos minutos de sol junto da rebentação. Faltam-me as sestas na praia ao final da tarde. Falta-me a música das ondas, o som do mar.

Falta-me sacudir a areia das pernas e dos pés. Falta-me o mergulho na piscina ao chegar a casa. Falta-me a caipirinha ou o gin tónico na varanda. Falta-me a vermelhidão do sol nas maçãs do rosto. Falta-me o cansaço ao fim do longo dia de praia. A pele ressequida e o banho revigorante ao anoitecer. Faltam-me as jantaradas sem hora marcada e nova cartada noite fora. Falta-me o Verão.

Mas lá fora chove a potes.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Sirenes na Noite

Ainda vejo as luzes das sirenes.
Mesmo quando fecho os olhos.

Não há som: a vida perdeu a música daquele troço de auto-estrada para a frente. Nem sirenes, nem buzinas, nem gritos lá fora, nem rádio, nem motor do carro, nem pastilhas dos travões, nem borracha de pneus a galgar alcatrão e depois a trilhar gravilha. Nada. Zero som. Apenas um inferno de luzes azuis rodopiando freneticamente num ciclo vicioso. E um helicóptero no ar, uma enchente de bombeiros, enfermeiros e polícias a afluir ao local, uma fila interminável de carros atrás deles, até onde a A5 se fundia com o horizonte.

Fui em piloto automático o resto do caminho até casa, focado em escutar o bater indignado do meu coração. Só quando puxei o travão de mão já na garagem estacionei de novo em mim. Voltava-me aos ouvidos, num zumbido, o som do mundo. Recordo que terminava na rádio o Sporting, com nova vitória numa reviravolta que eu nem ouvi.

Corri para a televisão. Estava em todos os canais. Entrevistas à GNR e depois às testemunhas. E de fundo o alvoroço da assistência médica. Perdi a conta às macas que passaram diante das câmaras, com os corpos cobertos. E intercaladamente a panorâmica do céu, do helicóptero; de novo o espectáculo de luzes giratórias, agora num prenúncio de morte.

Diziam as testemunhas, que aparentemente seguiam de perto os sinistrados, que um dos carros envolvidos se atirou para a faixa da esquerda sem mais nem ontem, intersectando a toda a largura a passagem a uma mota que aí vinha. Primeiro apontam para o que sobrava da mota, um acordeão de metal encastrado no separador central e uma roda quase intacta, e depois gesticulam para o outro lado da auto-estrada, dando a entender o destino infeliz da vítima que a montava. Vinte e dois anos. Tinha vinte e dois anos o sangue com que o condutor do automóvel, de quarenta, sujara as mãos. E esse estava algures lá atrás, junto à ambulância, queixando-se da cara dorida do airbag. (Dá para acreditar...?)

Claro que aquilo, como A5 que é, não ficou por ali... Não. O tempo de reacção das primeira, segunda e terceira linhas de automóveis que seguiam atrás foi demorado demais e o choque em cadeia, qual dominó, foi inevitável. Mais umas vidas perdidas aí. E uns minutos após a manobra formidável do primeiro automóvel, e por sorte após o condutor se esgueirar pela porta do pendura até à berma da estrada, um Audi surge "a pelo menos 200 à hora" na faixa da esquerda e enfaixa-se de frente naquele caos de carros e gente. Morte imediata para os tripulantes e morte por encomenda para as pessoas que, não tendo morrido no acidente, saíam dos carros aos tropeções em busca de abrigo e de um chá quente.

É incrível - e ao mesmo tempo aterradora - a fragilidade da nossa vida, não é? Ainda há dias lia no Facebook o post de um rapaz que perdeu a irmã mais nova num acidente igualmente estúpido, atropelada numa passadeira. Parece que a nossa estupidez não tem fim... Especialmente na estrada.

Há sempre alguém com mais pressa que os outros, há sempre alguém com mais privilégios que os outros, há sempre alguém que tolera mais um copo de álcool que os outros, há sempre alguém com um carro mais rápido que os outros - e que tem de o mostrar - e há sempre alguém demasiado importante para fazer bom uso dos piscas (também conhecidos curiosamente como "sinais de mudança de direcção")... Há sempre alguém.

Os outros? Os outros que se amanhem. Até que lhes toque a miúda na passadeira e o motociclista - e todos os que nessa noite cobriram o chão da A5 - serem os filhos deles.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Lugar dos Cheiros

Há pouco cheirei um lugar.
Sim, leste bem. Um lugar.
Não uma fragrância, mas um lugar, um momento.

Aquela nesga de ar perfumado entrou em mim sem pedir autorização e na mesma fracção de segundo transportou-me para longe daqui. Abandonei o meu corpo e vi-me cirandar indefinidamente por aí, fora de mim, algures no espaço. Algures no tempo, diria também.

Era-me familiar o perfume. De certa forma, cheirava-me a felicidade. A conforto. A infância inocente. Ao colo protector de um Pai. Ao amor de um Avô. A casa. À casa de alguém querido. Aos cabelos ou às roupas da protagonista de um namoro feliz. A um passeio no parque em plena Primavera. À casa de férias de Verão. A um episódio muito particular da minha vida, talvez. Quem sabe...? Mas cheirava. Cheirava-me a algo terno, muito meu, há muito perdido no tempo. E enquanto o inspirei e expirei e tornei a inspirar mantive-me suspenso nesse lugar distante, nesse fragmento anónimo do meu ser, alheio e separado de mim.

E então, no mesmo abrir e fechar de olhos, deixei de o sentir, deixei de o respirar. E sem saber em que lugar e em que tempo estivera, ou quanto tempo estivera ausente, retornei a mim, ao mundo que não tinha parado de girar à minha volta.

O lugar daquele cheiro fechou-se bruscamente como uma gaveta em mim e deu a volta à chave. Quase podia ouvir-lhe o trinco estalar. Perdi-lhe o rasto... Perdi-lho, mas agora estou seguro de que haverá em mim mais uma centena dessas gavetas, um módulo carregado delas, apenas à espera da chave certa para saltar para fora e me levar de novo para o outro lado do mundo, para um tempo de que já mal tenho memória.

Sorrio e aguardo.
Pode ser que te torne a encontrar.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Bittersweet Sixteen

Eram três da manhã quando o telefone tocou e me arrancou do sono.

"Mãe". Duas chamadas não atendidas. Do outro lado da linha, a voz saía-lhe tremida, entre soluços e gaguejos, num pranto descontrolado. Filtrei-lhe as palavras "a tua irmã". Queria não ter filtrado, queria não ter percebido. "A tua irmã", repetiu ela, vincando as palavras e pregando-as a sangue frio na minha incredulidade.

Três palavras bastaram para eu cair em mim. Para eu me despenhar em mim como se despenha contra o solo um avião. Um embate brusco no meu fundo, uma explosão em cadeia e depois estilhaços e destroços ardendo por toda a parte.

Era a noite dos dezasseis anos dela. Como de costume, juntáramos a família na casa dos nossos pais e jantáramos juntos uma vez mais, à luz do sorriso fulminante dela. Horas antes, cantámos-lhe os parabéns e ela soprou as velas. Desde que celebrara o primeiro ano de vida era aquele o momento do dia dela que mais a fascinava. Vencer de um só sopro todas as velas do bolo. E eu teci-lhe o habitual comentário de que me recusaria a comer uma fatia que fosse, com receio de engolir os perdigotos dela. E apesar de provavelmente cansada da piada, ela respondeu-me mais uma vez com aquela gargalhada de criança que lhe era característica.

Era a noite dela e ela, que sempre fez tudo tão certo, apenas pediu para, no conforto da excepção, ficar até um pouco mais tarde no café com as amigas. E assim a vimos sair pela porta, depois de nos apertar no abraço mais ternurento do mundo, de olhos a brilhar. Mal imaginávamos nós que aquela era a derradeira despedida.

Os sweet sixteen dela perpetuaram-se agridoces na passadeira daquela estrada, no lugar certo à hora errada, às mãos de alguém demasiado apressado para esperar só mais dez minutos para responder a uma SMS. Sem saber em que mais pensar agora, posso só procurar consolo na esperança de que, na sua inocência pura, ela não tenha chegado a dar pelo automóvel e que se tenha mantido radiante até ao último segundo, desfilando alegremente pelos traços pretos e brancos no seu vestido azul. É assim que quero recordá-la...

Eram três da manhã quando o telefone tocou e me arrancou do sono. 
Não. Eram três da manhã quando o telefone tocou e te arrancou de mim.

Até já, Miúda.

terça-feira, janeiro 19, 2016

Anjos e Demónios

Ele era a minha cura e ao mesmo tempo o meu veneno.

Injectou-se de mansinho nas minhas veias como um antídoto, mas a substância activa de que era feito acabou por controlar todo o meu sangue e arrepiar-me da cabeça aos pés. Sabia tirar-me das sombras com que me habituei a vestir-me, mas sem saber fez de mim Rainha do meu tabuleiro de xadrez, peão do meu próprio jogo, quando à minha volta iam tombando todas as minhas defesas - bispos, cavalos e torres: sem escapatória, nua e exposta entre a espada e a parede, o coração ribombando aceleradamente à espera de ouvir sussurrar um letal "xeque-mate".

Enquanto não o escuto, fecho os olhos e faço-me refém de mim mesma. Alheio-me da guerra que explode com o meu mundo em meu redor. Sinto-me segura no meu silêncio. Equilibrada.

O teu calor fez do meu gelo água, sem forma, fluindo e dançando livremente dentro do meu corpo. Mataste à queima-roupa o frio em mim quando me trouxeste o teu lume e por isso preciso dessa minha estabilidade para voltar a definir-me. Para estagnar as águas que se agitam em mim como o mar contra as rochas.

De momento, sou peças soltas e espalhadas de um puzzle maior. O meu puzzle. Sou pedaços de um espelho partido, que juntarei minuciosamente para reconhecer nele o meu reflexo sem fissuras. Sou migalhas ao vento, de que me alimentarei a pouco e pouco para matar o jejum e a fome de mim.

Ele era a minha cura e ao mesmo tempo o meu veneno. Estava determinada a sugá-lo e a cuspi-lo para fora de mim, mas era já sangue do meu sangue e os meus lábios queimavam-se-me e ardiam-me ao tocar-lhe. Ele era a minha cura e ao mesmo tempo o meu veneno.

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Adeus

Assusta-me.

Assusta-me o avanço da doença que se alimenta de mim. A progressão lenta e venenosa do tempo nos dias que vão passando por mim a voar. Assusta-me. Mais do que o cabelo, assusta-me perder faculdades. Assusta-me abdicar aos poucos do controlo sobre o meu corpo e, mais ainda do que isso, deixar ao acaso o controlo sobre o pensamento como quem larga cinzas ao vento.

Assusta-me poder esquecer-me de ti. Esquecer-me do teu nome e deixar de te reconhecer as feições e a voz. Assusta-me deixar de associar as ondas do teu cabelo às indomáveis ondas do mar, grisalhas como as montanhas dos alpes. Assusta-me que tudo isto - que quem sou e quem fui, e quem somos e fomos em conjunto - se reduza mais dia menos dia a um vislumbre apagado, resignado a um recanto sombrio da minha mente, sentado ao frio onde eu próprio não me consigo encontrar.

Mais do que me falhe o coração, assusta-me que a mente me atraiçoe. Assusta-me que a par e passo tudo se esfume e que as memórias brinquem comigo como as crianças brincam às escondidas. Assusta-me perder a noção do tempo e do espaço. Que será não reconhecer os próprios filhos? Que será sujeitar-te todos os dias a ouvir-me perguntar-te quem és? Que será ver-vos chorar e sentir-me indiferente por já não saber quem são...?

Assusta-me.
Assusta-me, mas perdoa-me porque eu sinto que está para chegar.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

A Aliança

Perguntaram-me se tiraria do dedo a tua aliança.

Revoltou-me a questão. Revoltou-me e não consegui dar voz a mais palavras senão a um “não” praticamente mudo. Parecia-me tão evidente a resposta que um só “não”, seguro de si, seria mais do que suficiente para ela.

Não que alguma parte disto seja simples, mas quando o que se vive é assim tão genuíno, tão intenso e tão suado que ainda hoje me dá arrepios, a aliança é uma tatuagem que se grava a ferro em brasa no corpo e que vive como uma extensão de nós. É como se o metal se fundisse connosco e nos desse a beber diariamente a energia de tudo o que aos poucos construímos, em conjunto, em torno dele. O bom e o mau. O agradável e o desagradável. O fácil e o difícil. As virtudes e os defeitos. As convergências e as divergências. A paz e a discussão. Os silêncios e os clamores. As vitórias e as derrotas. Os sucessos e os fracassos. O erro e a aprendizagem. O desequilíbrio equilibrado.

As viagens de veleiro por esse mundo fora, à descoberta de mares e terras incógnitos. Um lar erguido orgulhosamente pedra sobre pedra, forjado a suor e lágrimas. Os jantares a dois. As lágrimas substituídas por sorrisos quando trouxemos ao mundo a primeira criança. E a segunda e a terceira. Os jantares a cinco. Os primeiros passos, as primeiras asneiras. As primeiras cabeçadas na esquina do móvel do corredor, volta e meia, e os primeiros sacos de gelo na testa deles até se me congelarem os dedos, o punho e meio antebraço. O ensino, a educação. As primeiras derrotas deles, as primeiras quedas e os primeiros triunfos. O cão. Os jantares a seis. As almoçaradas no quintal. As correrias. O cão fazendo de cavalo. As roupas sujas de lama. O primeiro impacto da faculdade. As namoradas. O primeiro casamento. O segundo e o terceiro, quase de seguida. Os netos.

Escrevemos uma história juntos. A tinta incerta, é certo, por esses milhares de páginas brancas que fomos preenchendo sem tremer. E como todas as histórias, não existe exactamente um fim. Há sempre um lugar reservado para a nossa imaginação; para definirmos para nós o que sucedeu para lá das últimas palavras escritas. É aí que nos permitimos voar e é aí que estou. É aí que estamos. É aí que a nossa aliança rodopia e vibra incessantemente. É que há coisas que nada na Vida, mesmo algo tão definitivo, tão perene e tão voraz como a morte, apagam ou destroem.

Podia continuar. Podia falar e não me calar mais hoje. Mas optei pelo “não” solteiro.

sábado, janeiro 02, 2016

A Carta que Nunca te Escrevi

Não me sai da cabeça a guerra.
Não me sai do corpo. Está em todo o lado, em cada osso, em cada fibra de cada músculo. Rasteja-me debaixo da pele, entope-me todos os poros. Vejo guerra, oiço guerra e respiro guerra. Vejo mortos, oiço tiros, detonações e gritos e respiro sangue e pó. Mesmo quando não vejo, não oiço e não cheiro coisa alguma.

Penso em ti sempre.
A minha pedra basilar. Seguro-me à minha espingarda com a vida, como se isso me segurasse a ti e a nós para sempre. Apertar entre os dedos este punho na calamidade que aqui se vive é apertar no coração, à distância, o nosso lar e a segurança e o conforto de aí estar.

Penso no miúdo.
Aqui há dias pensei que já deve ter a altura da minha espingarda de pé e ainda me ri sozinho à conta disso. Rir neste inferno, imagina tu. Estou ansioso por poder dar-lhe a conhecer e ensinar-lhe as coisas boas da vida, como um bom Big Mac, um sundae de caramelo, fazer xixi de pé, andar de bicicleta, conduzir o trator do Avô à socapa lá na quinta, um ou dois palavrões de homem a sério, dar um bom gancho de direita para as ocasiões, engatar a futura mulher num pub ao tropeçar "acidentalmente" em si próprio, pedir a mulher mais espectacular do mundo em casamento num pôr-do-sol no topo do Rockefeller... Essas coisas normais de ser-se pai.

Por falar nisso, dá um beijo aos meus pais.

Tenho saudades tuas.
Tenho saudades vossas e esta é a carta que eu escreveria se não tivesse sido atingido na cabeça e no peito esta madrugada.