Fechei-me há anos ao amor por recear o poder que consegue ter sobre mim. Com o passar do tempo, encontrei nesse desequilíbrio o meu meio-termo de felicidade. A minha paz interior.
E então apareceste tu. E vieste com a missão de agitar as fundações do meu ser.
O meu coração perde o compasso quando estás por perto. Sinto-o galopar-me no peito, agitado como um cachorro saltitando pela sala. Sinto-o falhar batimentos, para os compensar logo de seguida em dose dupla, com força contra as costelas.
Vejo-te e sou atirado de volta à adolescência. Aos amores para sempre. À paixão ardente, virgem e pura, à curiosidade, ao nervosismo, às borboletas no estômago. Caem-me por terra o escudo e a máscara e ali fico frágil, nu, exposto ao teu mistério, tentado pelo teu calor.
Os teus lábios mornos a um palmo de distância chamam-me num sussurro mudo ao ouvido. Olho-os fixamente, tentando adivinhar-lhes a temperatura e o sabor a que sabem, e no meio tempo sou derrotado pela fragilidade de criança em mim, vencido pela inocência, pelo medo de antigamente, e estagno ali, apenas a imaginar e a reviver um beijo que não chega a haver.
Quero tirar todas as horas do dia para olhar para ti. Quero sentir-te a pele e as linhas do teu corpo. Quero atirar-te o cabelo para trás da orelha e beijar-te o pescoço. Quero adormecer e acordar com o cheiro do teu perfume. Quero sonhar contigo. Quero sonhar os teus sonhos; quero viver os teus sonhos. Quero entrelaçar os dedos nos teus, nas tuas mãos frias, e mostrar-te o mundo. Quero pegar no teu dedo e dizer-te que é para sempre, o meu sempre, seja ele amanhã ou daqui por oitenta anos, enquanto eu respirar.
Mas tu permaneces de olhar fixo no horizonte, a observar serenamente o que te rodeia, sem te aperceberes de que ali estou. Sem te dares conta da agitação que no meu silêncio e na minha quietude me corrói as entranhas, bem até ao osso, quando o desejo e a hesitação se entrelaçam e medem forças. Não sei lidar contigo. Tento ler-te, mas pareces vir escrita numa língua que eu não conheço. Grito por dentro, mas tu não ouves.
Entenderias, se ouvisses?
quarta-feira, dezembro 27, 2017
terça-feira, novembro 21, 2017
Meia Morte
E partiste.
Não sei quem disse que quando já se está à espera é mais fácil. Porque não é. Não é... Não é estar à espera que torna mais fácil sentir-te afrouxar a minha mão. Não é estar à espera que torna menos doloroso ver os teus olhos perderem a tua luz imensa. Não é estar à espera que me faz aceitar melhor o teu último fôlego. Não é estar à espera que torna mais suportável escutar o bip da máquina esmorecer até ficar monocórdico, prolongando-se no ar, no vazio. No teu vazio.
Estamos todos à tua volta, mas foi o vazio que me preencheu. A pouco e pouco, a início, e depois todo de uma vez só. Deixei de os ouvir, deixei de os ver. Fechei-te os olhos para te deixar dormir o teu último sono e ficámos os dois sozinhos na sala. Eu sentado ao teu lado, segurando ainda a tua mão sem força, e tu deitado, bem ali, mas já longe algures.
O coração pulsa-me ao ouvido. No estômago, no peito, na garganta e na boca. Fomos adiando esta despedida, eu sei, mas não consigo despedir-me de ti. Não sei, aliás, despedir-me de ti. Vivemos muito, mas deixei tanto por dizer e tu deixaste tanto por ouvir, tanto por rir, tanto por partilhar... Despedir-me de ti é despedir-me de metade de mim, de mais de metade de mim, e eu simplesmente não sei fazê-lo. Não sei o que dizer, muito menos como dizer. Não encontro as palavras, as certas ou as erradas...
Ocorre-me só um agradecimento, o maior que algum dia endereçarei a alguém, já que te devo muito de quem sou hoje, de em quem me tornei. Posso agradecer-te em silêncio? Será que o ouves? Será que consegues sentir e medir a profundidade da minha gratidão...?
Choro sobre a tua mão, apercebi-me agora. Peço-te que me perdoes.
Da gratidão que te dirijo com carinho, do canto onde me encolho pequenino, vêm-me à memória os nossos episódios mais felizes. E não evito uma gargalhada murcha quando dou conta de que todos eles giram à volta de comida. Esboço um meio sorriso por entre as lágrimas. A comida e tu, tu e a comida. O pensamento aquece-me o coração.
E aquecendo, de um momento para o outro vejo-nos aos dois na casa da Costa, na mesa sob o toldo, a fazer macacadas enquanto a Avó aquecia as febras no forno. Tu com a gaita, que alternavas às escondidas com umas fatias de mortadela, e eu com a pandeireta. E ela fora de si com o chinfrim que fazíamos na rua, cirandando para trás e para diante, a gritar-te que eras pior do que eu. Sem ela ver, olhavas para mim, trincavas mais um pouco do farnel e encolhias os ombros, rindo. Separavam-nos praticamente 55 anos, mas formávamos uma dupla imbatível!
Uma lágrima atinge-me na mão e a memória esvanece-se como fumo no ar, tão depressa quanto aparecera, e de repente estamos de novo só os dois e sombras à volta. Sinto-te frio e fico gelado. As emoções descontrolam-se e disparam em todas as direcções e depois entram em parafuso, sem saída, como pescadinha de rabo na boca. Não te conheço sem calor, não te reconheço sem alegria, sem música, sem graça. Sem Vida.
Desculpa, não tenho palavras...
Partiste há três minutos e eu já morri dez vezes de saudades.
Não sei quem disse que quando já se está à espera é mais fácil. Porque não é. Não é... Não é estar à espera que torna mais fácil sentir-te afrouxar a minha mão. Não é estar à espera que torna menos doloroso ver os teus olhos perderem a tua luz imensa. Não é estar à espera que me faz aceitar melhor o teu último fôlego. Não é estar à espera que torna mais suportável escutar o bip da máquina esmorecer até ficar monocórdico, prolongando-se no ar, no vazio. No teu vazio.
Estamos todos à tua volta, mas foi o vazio que me preencheu. A pouco e pouco, a início, e depois todo de uma vez só. Deixei de os ouvir, deixei de os ver. Fechei-te os olhos para te deixar dormir o teu último sono e ficámos os dois sozinhos na sala. Eu sentado ao teu lado, segurando ainda a tua mão sem força, e tu deitado, bem ali, mas já longe algures.
O coração pulsa-me ao ouvido. No estômago, no peito, na garganta e na boca. Fomos adiando esta despedida, eu sei, mas não consigo despedir-me de ti. Não sei, aliás, despedir-me de ti. Vivemos muito, mas deixei tanto por dizer e tu deixaste tanto por ouvir, tanto por rir, tanto por partilhar... Despedir-me de ti é despedir-me de metade de mim, de mais de metade de mim, e eu simplesmente não sei fazê-lo. Não sei o que dizer, muito menos como dizer. Não encontro as palavras, as certas ou as erradas...
Ocorre-me só um agradecimento, o maior que algum dia endereçarei a alguém, já que te devo muito de quem sou hoje, de em quem me tornei. Posso agradecer-te em silêncio? Será que o ouves? Será que consegues sentir e medir a profundidade da minha gratidão...?
Choro sobre a tua mão, apercebi-me agora. Peço-te que me perdoes.
Da gratidão que te dirijo com carinho, do canto onde me encolho pequenino, vêm-me à memória os nossos episódios mais felizes. E não evito uma gargalhada murcha quando dou conta de que todos eles giram à volta de comida. Esboço um meio sorriso por entre as lágrimas. A comida e tu, tu e a comida. O pensamento aquece-me o coração.
E aquecendo, de um momento para o outro vejo-nos aos dois na casa da Costa, na mesa sob o toldo, a fazer macacadas enquanto a Avó aquecia as febras no forno. Tu com a gaita, que alternavas às escondidas com umas fatias de mortadela, e eu com a pandeireta. E ela fora de si com o chinfrim que fazíamos na rua, cirandando para trás e para diante, a gritar-te que eras pior do que eu. Sem ela ver, olhavas para mim, trincavas mais um pouco do farnel e encolhias os ombros, rindo. Separavam-nos praticamente 55 anos, mas formávamos uma dupla imbatível!
Uma lágrima atinge-me na mão e a memória esvanece-se como fumo no ar, tão depressa quanto aparecera, e de repente estamos de novo só os dois e sombras à volta. Sinto-te frio e fico gelado. As emoções descontrolam-se e disparam em todas as direcções e depois entram em parafuso, sem saída, como pescadinha de rabo na boca. Não te conheço sem calor, não te reconheço sem alegria, sem música, sem graça. Sem Vida.
Desculpa, não tenho palavras...
Partiste há três minutos e eu já morri dez vezes de saudades.
quinta-feira, outubro 26, 2017
Inferno
Fui subitamente arrancado do sono por um primeiro grito, bem perto no negrume da noite. Senti-lhe o pavor na voz estridente. O horror forçando a sua entrada em mim pelos meus ouvidos e estilhaçando-me da cabeça aos pés, osso por osso, e retesando cada músculo do meu corpo. Uma corrente de alta voltagem humana atravessando-me ali, fria, nua e crua.
Para lá dos vidros, o céu clareava. Contrariando a inércia forçada do choque, apressei-me primeiro até à janela e depois até à porta da rua. Por cinco segundos, desejei com todas as minhas forças que tudo não passasse do pior pesadelo da minha vida... Ao sexto segundo, fui socado de frente, na cara, selvagem e quente, pelo incêndio letal que tão perto lavra a terra. A minha terra.
As chamas estão já aqui, baloiçando loucamente a escassos metros, avançando na nossa direcção. Inclinam-se para nós, mais e mais, e crescem e uivam e enrolam-se nas árvores para as estrangular e desfazer em pó. As pessoas correm desenfreadamente em círculos, sem rumo, para os carros, para dentro e para fora das casas, por entre a cortina de fumo.
O sufoco adensa-se a cada segundo.
Sufoco físico, nos pulmões asfixiados que lutam para beber o pouco oxigénio que ainda sobra no ar. No nariz e na garganta que me rasgam e me queimam por dentro a cada inalação; nos olhos que gritam de dor para se manterem abertos, agredidos pelo fumo, poeiras em brasa e fagulhas que se retorcem no ar; nos tímpanos, dos gritos acutilantes que continuamente cortam o silêncio da noite a toda a volta; na pele, soterrada na espessa fuligem negra, do inferno ardente que nos cerca.
Sufoco psicológico, em tudo o resto. O cérebro pára, morre ali afogado no fumo que nos entra por todos os poros. E ao mesmo tempo vive a todo o vapor, despoletando e processando mil informações em simultâneo. O pânico, a adrenalina, o medo, o instinto de fuga, o terror, a urgência de salvar a nossa família e a nossa casa - que construímos a custo de uma vida de suor e lágrimas -, a aflição, o socorro dos vizinhos em apuros, a falta de ar nos pulmões...
Tusso e oiço tossir. À minha volta, bem diante dos meus olhos incrédulos, o fogo desbrava e devora a floresta, engole casas e incinera vidas. Os corpos em brasa deambulam até que caem, rastejam até que morrem, entre murmúrios e gemidos.
Apercebo-me de que tenho a minha mulher pela mão e quero protegê-la, mas estou velho, impotente e sem forças. Apercebemo-nos os dois de que também a nossa casa está já nas presas do fogo, com línguas de chamas irrompendo das janelas e erguendo-se do telhado, estalando violentamente. O fumo forma uma cortina cada vez mais alta, cada vez mais negra, cada vez mais cerrada. O calor derrete-nos por fora e corrói-nos por dentro. O oxigénio escasseia e respirar torna-se doloroso.
Procuramos uma saída a custo. Voltamo-nos para o nosso carro, estacionado como sempre à porta de casa, mas também ele já sucumbiu à destruição, cobiçado pelo fogo. As árvores estão caídas e os trilhos cortados. O círculo fecha-se sobre nós. É tarde demais. Percebemos que estamos encurralados e que vamos morrer aqui.
Para lá dos vidros, o céu clareava. Contrariando a inércia forçada do choque, apressei-me primeiro até à janela e depois até à porta da rua. Por cinco segundos, desejei com todas as minhas forças que tudo não passasse do pior pesadelo da minha vida... Ao sexto segundo, fui socado de frente, na cara, selvagem e quente, pelo incêndio letal que tão perto lavra a terra. A minha terra.
As chamas estão já aqui, baloiçando loucamente a escassos metros, avançando na nossa direcção. Inclinam-se para nós, mais e mais, e crescem e uivam e enrolam-se nas árvores para as estrangular e desfazer em pó. As pessoas correm desenfreadamente em círculos, sem rumo, para os carros, para dentro e para fora das casas, por entre a cortina de fumo.
O sufoco adensa-se a cada segundo.
Sufoco físico, nos pulmões asfixiados que lutam para beber o pouco oxigénio que ainda sobra no ar. No nariz e na garganta que me rasgam e me queimam por dentro a cada inalação; nos olhos que gritam de dor para se manterem abertos, agredidos pelo fumo, poeiras em brasa e fagulhas que se retorcem no ar; nos tímpanos, dos gritos acutilantes que continuamente cortam o silêncio da noite a toda a volta; na pele, soterrada na espessa fuligem negra, do inferno ardente que nos cerca.
Sufoco psicológico, em tudo o resto. O cérebro pára, morre ali afogado no fumo que nos entra por todos os poros. E ao mesmo tempo vive a todo o vapor, despoletando e processando mil informações em simultâneo. O pânico, a adrenalina, o medo, o instinto de fuga, o terror, a urgência de salvar a nossa família e a nossa casa - que construímos a custo de uma vida de suor e lágrimas -, a aflição, o socorro dos vizinhos em apuros, a falta de ar nos pulmões...
Tusso e oiço tossir. À minha volta, bem diante dos meus olhos incrédulos, o fogo desbrava e devora a floresta, engole casas e incinera vidas. Os corpos em brasa deambulam até que caem, rastejam até que morrem, entre murmúrios e gemidos.
Apercebo-me de que tenho a minha mulher pela mão e quero protegê-la, mas estou velho, impotente e sem forças. Apercebemo-nos os dois de que também a nossa casa está já nas presas do fogo, com línguas de chamas irrompendo das janelas e erguendo-se do telhado, estalando violentamente. O fumo forma uma cortina cada vez mais alta, cada vez mais negra, cada vez mais cerrada. O calor derrete-nos por fora e corrói-nos por dentro. O oxigénio escasseia e respirar torna-se doloroso.
Procuramos uma saída a custo. Voltamo-nos para o nosso carro, estacionado como sempre à porta de casa, mas também ele já sucumbiu à destruição, cobiçado pelo fogo. As árvores estão caídas e os trilhos cortados. O círculo fecha-se sobre nós. É tarde demais. Percebemos que estamos encurralados e que vamos morrer aqui.
quarta-feira, outubro 18, 2017
Out of the Body
Hoje venho falar-te de ti.
Dei conta de que passo os meus dias a falar-te de mim nas linhas que escrevo. Da minha infância, da minha avó, das minhas viagens, do meu tempo na guerra, dos meus amores e dos meus desamores, das minhas alegrias e das minhas dores, do meu casamento, da minha família, da minha casa, da minha velhice e até da minha morte. Do teu canto, do teu silêncio, lês-me atentamente até adormeceres; ouves-me palavra por palavra, como se te embalasse a voz muda na tinta das minhas letras. E, no entanto, sobre ti nem uma palavra.
Pois hoje o meu tempo é teu, na esperança de que os teus últimos cinco minutos deste dia, na tua assídua leitura nocturna, já na cama, sejam de ti para ti.
Se escrevo com frequência, na solidão do meu conforto, saberás que falo bastante menos, preferindo usar o meu tempo lá fora ouvindo e observando. Não estou distraído, nem alheado da realidade; estou, sim, atento ao mais ínfimo zumbido e ao mais milimétrico detalhe do que me rodeia. E é muito isso que faço quando estás por perto.
E apercebi-me, nesse jogo que jogo sozinho, de que, por debaixo dessa máscara em que te escondes diariamente, és um diamante em bruto. Envolto apenas num lençol de poeira que vestes sem saber. E eu gostava que soubesses.
A parte mais difícil de escrever é começar. E é começar porque diante de ti tens uma página em branco, olhando-te ameaçadoramente nos olhos, em tom de desafio. Desalenta-te. O talento está todo lá, esvoaçando livremente pela tua cabeça, deslizando depois até ao peito, rodopiando no coração e ziguezagueando até à ponta dos teus dedos. Mas a folha continua branca. Faltam-te as ideias, faltam-te as directrizes, falta-te o método, falta-te a forma. Falta-te quem te oriente, quem te diga o que fazer e, mais importante que isso, quem te diga como fazê-lo. Falta-te encontrar a inspiração, porque é a inspiração que te faz saber o quê e o como.
Para mim, do que observei, é assim que és. Bem, não como tu és, mas como tu estás. É assim que acabas vivendo os teus dias, dia após dia. Como o escritor de frente para a folha em branco. Em que tu és o escritor, com todo o talento aprisionado, e a folha em branco é a tua vida, um livro aberto à espera de que o escrevas. A inspiração... bom, essa não a encontras porque a vida acontece. E quando a vida acontece, dizendo-te o que tens de fazer, como tens de fazer e como tens de ser, tu desligas a voz do teu coração, a força indomável dos teus sonhos, e confinas-te ao que o mundo espera que sejas, porque o mundo não está preparado para a tua grandeza.
Sabes aquela expressão da moda, do "out of the box"? Eu gostava muito que fosses não out of the box, mas out of the body. Sai do teu corpo e sai, sobretudo, do corpo do mundo, que o corpo do mundo tem uma mente tóxica. Sai e olha de frente para ti. Para a tua própria folha em branco. Olhos nos olhos, olhos na alma. Desculpa-me a foleirada, prometi-me a mim próprio deixar de ser foleiro há anos, mas tu és linda da cabeça aos pés. Cada centímetro teu. Cada centímetro cúbico teu, desculpa-me, que antes de escritor sou engenheiro. És linda. És, por muito que não o vejas, por muito que o teu espelho o distorça e por muito que o mundo alegue e te convença que não. És!
Mas ficaria muito aquém da análise de ti se me quisesse e me deixasse ficar pelo teu exterior. O teu exterior é pouco mais que o rascunho primeiro da tua história, pouco mais do que a sombra da tua luz. O que achei realmente enternecedor foi descobrir a tua verdadeira faceta, o teu verdadeiro Eu, quando o teu verdadeiro Eu é tão diferente daquele que levas e mostras ao mundo quando sais do teu esconderijo e passas por aquela porta. Bates a porta atrás de ti e toda tu acusas confiança, segurança e dureza. É quase possível ouvir-te a amargura na voz e cheirar-te, à distância, o desprezo na pele. Ler-te um vazio nos olhos que só me ordena que me afaste.
O engraçado é quando percebes que essa é a percepção mais antagónica de ti que se pode ter, quando tudo em ti é exactamente o extremo oposto. Não que não sejas confiante, não que não sejas segura, não que não sejas forte. És. Mas és ao mesmo tempo suave, doce; és frágil, és medrosa e és, surpreendentemente, muito sentimental. Confronta-se a máscara e aos poucos rompem-se as barreiras que ergues em teu redor. E entra-se num lugar só teu onde emanas amor no lugar de ódio. Onde atrais, quando tudo o que procuras é repelir. Onde tens sonhos e ambições maiores do que eu sei medir, quando tu decidiste ceder e acreditar que és só mais um peixe no aquário. E um daqueles de uma barbatana só, que nem direito nada.
A mensagem que te quero deixar é a de que tu vales toda a pena. A viagem ao centro de ti tem entusiasmado os meus dias e eu adorava dar-te em mão um bilhete para que a fizesses comigo. Para que soubesses dar o passo para out of the body e olhar para ti mesma com olhos de sentir. Para que soubesses largar a tua máscara e atirá-la para longe, bem para lá de nunca mais, e abraçasses contra o peito e contra o mundo o valor inestimável que tens.
Todavia, essa é uma viagem que deves fazer pelo teu próprio pé, com a tua própria vontade. Assim, despedindo-me, deixo-te o bilhete sobre a cabeceira para que o pegues pela manhã.
Dei conta de que passo os meus dias a falar-te de mim nas linhas que escrevo. Da minha infância, da minha avó, das minhas viagens, do meu tempo na guerra, dos meus amores e dos meus desamores, das minhas alegrias e das minhas dores, do meu casamento, da minha família, da minha casa, da minha velhice e até da minha morte. Do teu canto, do teu silêncio, lês-me atentamente até adormeceres; ouves-me palavra por palavra, como se te embalasse a voz muda na tinta das minhas letras. E, no entanto, sobre ti nem uma palavra.
Pois hoje o meu tempo é teu, na esperança de que os teus últimos cinco minutos deste dia, na tua assídua leitura nocturna, já na cama, sejam de ti para ti.
Se escrevo com frequência, na solidão do meu conforto, saberás que falo bastante menos, preferindo usar o meu tempo lá fora ouvindo e observando. Não estou distraído, nem alheado da realidade; estou, sim, atento ao mais ínfimo zumbido e ao mais milimétrico detalhe do que me rodeia. E é muito isso que faço quando estás por perto.
E apercebi-me, nesse jogo que jogo sozinho, de que, por debaixo dessa máscara em que te escondes diariamente, és um diamante em bruto. Envolto apenas num lençol de poeira que vestes sem saber. E eu gostava que soubesses.
A parte mais difícil de escrever é começar. E é começar porque diante de ti tens uma página em branco, olhando-te ameaçadoramente nos olhos, em tom de desafio. Desalenta-te. O talento está todo lá, esvoaçando livremente pela tua cabeça, deslizando depois até ao peito, rodopiando no coração e ziguezagueando até à ponta dos teus dedos. Mas a folha continua branca. Faltam-te as ideias, faltam-te as directrizes, falta-te o método, falta-te a forma. Falta-te quem te oriente, quem te diga o que fazer e, mais importante que isso, quem te diga como fazê-lo. Falta-te encontrar a inspiração, porque é a inspiração que te faz saber o quê e o como.
Para mim, do que observei, é assim que és. Bem, não como tu és, mas como tu estás. É assim que acabas vivendo os teus dias, dia após dia. Como o escritor de frente para a folha em branco. Em que tu és o escritor, com todo o talento aprisionado, e a folha em branco é a tua vida, um livro aberto à espera de que o escrevas. A inspiração... bom, essa não a encontras porque a vida acontece. E quando a vida acontece, dizendo-te o que tens de fazer, como tens de fazer e como tens de ser, tu desligas a voz do teu coração, a força indomável dos teus sonhos, e confinas-te ao que o mundo espera que sejas, porque o mundo não está preparado para a tua grandeza.
Sabes aquela expressão da moda, do "out of the box"? Eu gostava muito que fosses não out of the box, mas out of the body. Sai do teu corpo e sai, sobretudo, do corpo do mundo, que o corpo do mundo tem uma mente tóxica. Sai e olha de frente para ti. Para a tua própria folha em branco. Olhos nos olhos, olhos na alma. Desculpa-me a foleirada, prometi-me a mim próprio deixar de ser foleiro há anos, mas tu és linda da cabeça aos pés. Cada centímetro teu. Cada centímetro cúbico teu, desculpa-me, que antes de escritor sou engenheiro. És linda. És, por muito que não o vejas, por muito que o teu espelho o distorça e por muito que o mundo alegue e te convença que não. És!
Mas ficaria muito aquém da análise de ti se me quisesse e me deixasse ficar pelo teu exterior. O teu exterior é pouco mais que o rascunho primeiro da tua história, pouco mais do que a sombra da tua luz. O que achei realmente enternecedor foi descobrir a tua verdadeira faceta, o teu verdadeiro Eu, quando o teu verdadeiro Eu é tão diferente daquele que levas e mostras ao mundo quando sais do teu esconderijo e passas por aquela porta. Bates a porta atrás de ti e toda tu acusas confiança, segurança e dureza. É quase possível ouvir-te a amargura na voz e cheirar-te, à distância, o desprezo na pele. Ler-te um vazio nos olhos que só me ordena que me afaste.
O engraçado é quando percebes que essa é a percepção mais antagónica de ti que se pode ter, quando tudo em ti é exactamente o extremo oposto. Não que não sejas confiante, não que não sejas segura, não que não sejas forte. És. Mas és ao mesmo tempo suave, doce; és frágil, és medrosa e és, surpreendentemente, muito sentimental. Confronta-se a máscara e aos poucos rompem-se as barreiras que ergues em teu redor. E entra-se num lugar só teu onde emanas amor no lugar de ódio. Onde atrais, quando tudo o que procuras é repelir. Onde tens sonhos e ambições maiores do que eu sei medir, quando tu decidiste ceder e acreditar que és só mais um peixe no aquário. E um daqueles de uma barbatana só, que nem direito nada.
A mensagem que te quero deixar é a de que tu vales toda a pena. A viagem ao centro de ti tem entusiasmado os meus dias e eu adorava dar-te em mão um bilhete para que a fizesses comigo. Para que soubesses dar o passo para out of the body e olhar para ti mesma com olhos de sentir. Para que soubesses largar a tua máscara e atirá-la para longe, bem para lá de nunca mais, e abraçasses contra o peito e contra o mundo o valor inestimável que tens.
Todavia, essa é uma viagem que deves fazer pelo teu próprio pé, com a tua própria vontade. Assim, despedindo-me, deixo-te o bilhete sobre a cabeceira para que o pegues pela manhã.
quarta-feira, outubro 04, 2017
Ausência
Cheguei a casa estoirada do trabalho e segui a minha habitual rotina de inverno. Lareira acesa, banho quente demorado enquanto o meu cubículo aquecia, pijama confortável, luzes apagadas e música de fundo - Torn, na voz de Natalie Imbruglia.
E quando me tentava abstrair da montanha-russa do dia, lá me apareceste tu mais uma vez, pavoneando-te nos meus pensamentos. Não escolho pensar em ti, não escolhia se pudesse, mas a verdade é que não posso, nem consigo. Já tentei de tudo. Lareira apagada, luz acesa, Netflix, televisão com um qualquer filme do Die Hard com tiros a cada segundo, filmes de terror, filmes de princesas, música para dormir, música pesada, sudoku, ler um livro. Mas o meu último pensamento és sempre tu.
Onde andarás? Estarás feliz? Estarás com alguém? Estarás sozinho? Terás quem te aqueça o corpo e o coração no meu lugar? Pensarás em mim? Pensarás muito de vez em quando ou muitas vezes? Lembra-te-ás dos nossos momentos a dois? Tê-los-ás apagado da tua memória? Terás contigo o relógio que te ofereci? A fotografia do nosso último passeio que te ofereci no último natal?
Bem sei que, se pudesses escutar os meus pensamentos, me acharias louca. Se calhar estou. Fui eu, afinal de contas, quem te despediu de mim sem que sequer tu te pudesses despedir devidamente. E hoje já nem sei por que o fiz. Nem sei se me interessa. Não sei se algum dia interessou. Não sei em que pensei na altura. Não sei o que penso hoje. Mas sem pensar queria-te aqui. Neste sofá que já foi também teu. Para me aqueceres os pés gelados enquanto a lareira não faz o trabalho que lhe é devido. Para depois te mandar para o chão quando estivesse com calor. Para te ouvir resmungar enquanto acedias ao meu pedido, sem nunca antes falhares o beijo na minha testa, com uma ternura do tamanho do mundo. Para me tapares quando adormecesse no sofá, após a lareira apagada. Para me pegares ao colo e me levares até à cama, ainda que seja a dez passos do sofá. Para acordar para um sorriso e não para um espelho mal humorado. Para chegar ao final do dia e ter os teus ouvidos prontos para me ouvir reclamar do meu dia e os teus braços prontos para num abraço apertado espantar de mim os males.
Depois, a vozinha irritante da minha consciência, a minha vozinha que eu não sei como suportavas, atira-me lá do fundo que fui eu que te amachuquei e joguei fora, qual embrulho de natal, sem mais nem porquê. Egoísmo, diz-me. Sinto-me chorar. Achar-me-ás egoísta? Guardar-me-ás rancor no lugar de amor? Desprezo no lugar de saudade? Choro mais. Talvez esteja mesmo louca. Que guardas de mim? Quando nos cruzamos na rua e nos fingimos meros amigos, quando me lanças o olhar doce de sempre, que sentimento esconde ele? Que pensas de mim? Que pensas de nós? Teríamos dado certo? Estaríamos agora a falar a dois de casamento, de filhos, de futuro? Em vez de em monólogo sobre o passado?
Os pensamentos disparam, uns atrás dos outros, ao som da música. Estou cansada de pensar, cansada de mim. Perco-me na falta de sentido. Mas é irónico, não é? Acabei contigo - no sentido literal, destrutivo, da palavra - sem querer saber o que pensavas e hoje não saber o que pensas - de mim, de nós - acaba comigo.
E quando me tentava abstrair da montanha-russa do dia, lá me apareceste tu mais uma vez, pavoneando-te nos meus pensamentos. Não escolho pensar em ti, não escolhia se pudesse, mas a verdade é que não posso, nem consigo. Já tentei de tudo. Lareira apagada, luz acesa, Netflix, televisão com um qualquer filme do Die Hard com tiros a cada segundo, filmes de terror, filmes de princesas, música para dormir, música pesada, sudoku, ler um livro. Mas o meu último pensamento és sempre tu.
Onde andarás? Estarás feliz? Estarás com alguém? Estarás sozinho? Terás quem te aqueça o corpo e o coração no meu lugar? Pensarás em mim? Pensarás muito de vez em quando ou muitas vezes? Lembra-te-ás dos nossos momentos a dois? Tê-los-ás apagado da tua memória? Terás contigo o relógio que te ofereci? A fotografia do nosso último passeio que te ofereci no último natal?
Bem sei que, se pudesses escutar os meus pensamentos, me acharias louca. Se calhar estou. Fui eu, afinal de contas, quem te despediu de mim sem que sequer tu te pudesses despedir devidamente. E hoje já nem sei por que o fiz. Nem sei se me interessa. Não sei se algum dia interessou. Não sei em que pensei na altura. Não sei o que penso hoje. Mas sem pensar queria-te aqui. Neste sofá que já foi também teu. Para me aqueceres os pés gelados enquanto a lareira não faz o trabalho que lhe é devido. Para depois te mandar para o chão quando estivesse com calor. Para te ouvir resmungar enquanto acedias ao meu pedido, sem nunca antes falhares o beijo na minha testa, com uma ternura do tamanho do mundo. Para me tapares quando adormecesse no sofá, após a lareira apagada. Para me pegares ao colo e me levares até à cama, ainda que seja a dez passos do sofá. Para acordar para um sorriso e não para um espelho mal humorado. Para chegar ao final do dia e ter os teus ouvidos prontos para me ouvir reclamar do meu dia e os teus braços prontos para num abraço apertado espantar de mim os males.
Depois, a vozinha irritante da minha consciência, a minha vozinha que eu não sei como suportavas, atira-me lá do fundo que fui eu que te amachuquei e joguei fora, qual embrulho de natal, sem mais nem porquê. Egoísmo, diz-me. Sinto-me chorar. Achar-me-ás egoísta? Guardar-me-ás rancor no lugar de amor? Desprezo no lugar de saudade? Choro mais. Talvez esteja mesmo louca. Que guardas de mim? Quando nos cruzamos na rua e nos fingimos meros amigos, quando me lanças o olhar doce de sempre, que sentimento esconde ele? Que pensas de mim? Que pensas de nós? Teríamos dado certo? Estaríamos agora a falar a dois de casamento, de filhos, de futuro? Em vez de em monólogo sobre o passado?
Os pensamentos disparam, uns atrás dos outros, ao som da música. Estou cansada de pensar, cansada de mim. Perco-me na falta de sentido. Mas é irónico, não é? Acabei contigo - no sentido literal, destrutivo, da palavra - sem querer saber o que pensavas e hoje não saber o que pensas - de mim, de nós - acaba comigo.
quinta-feira, agosto 24, 2017
Correspondência com uma Estrela
Não sei, Megan, qual estrela és Tu entre as estrelas que vestem o céu nocturno para lá da nossa janela. Suspeito, todavia, que sejas a que brilha mais que todas, aí bem a dois palmos da Lua. Tu, que aos meus olhos sempre brilhaste mais que as restantes. E conto, olhando-te, que consigas escutar-me, do alto da tua nova casa.
Serei eternamente agradecido pela dádiva de viver uma vida em Ti; não só "contigo", não apenas "ao teu lado", mas em Ti. Contigo, ao teu lado e em cada pedaço do teu ser. Em cada traço do teu rosto, no pestanejo dos teus olhos, no fôlego da tua respiração, no som da tua voz. Em cada palavra da tua boca, em cada beijo dos teus lábios, em cada gesto das tuas mãos, em cada carinho dos teus dedos; em cada passo dos teus pés, em cada pensamento da tua mente, em cada ideal do teu carácter e em cada batida do teu coração...
Era desse coração que eu mais gostava. Dessa doçura infinita. Dessa bondade cega, dócil. E deixa-me já dizer-te, que nunca serão demasiadas as vezes que o repito e agora que não podes impedir-me de to dizer, que 42 anos de Ti foi o melhor que a Vida e o destino podiam ter-me reservado. Falar-te-ia em honra, falar-te-ia em privilégio e orgulho, oh se falaria!, mas quão curtas e vazias seriam essas palavras para te medir a Ti...?
Desculpa, estou a divagar...
Falava do teu coração de ouro; da tua doçura, infinita como o teu céu, e da tua bondade genuína, incondicional. E falava deles porque foi precisamente a ausência da tua bondade, a falta da tua gargalhada calorosa no ar, nas paredes, que me atingiu no peito quando regressei do jantar em casa da nossa Luisinha. Vim de lá quente, quente da lareira e quente do amor inocente dos nossos netinhos - para quem a Avó está só dormindo -, mas quando cheguei e fechei a porta atrás de mim faltou-me o teu calor invisível recebendo-me em casa de braços abertos. E ali fiquei, absorto na tua ausência, estarrecido.
Quando voltei a mim tinha um nó no estômago e duas grossas lágrimas deslizando-me pela cara. Não despi sequer o casaco da rua e vim tão depressa quanto pude para a nossa janela para procurar por Ti. Rodeado das tuas estrelas no céu, da lareira semi-apagada diante do sofá e do teu silêncio mudo.
Vivo realizado com a sorte que me foi confiada, e agradeço-a nova vez, mas viver nesta casa sem Ti, fora de Ti, é o mesmo que ter para mim todo o céu sem ter o brilho reluzente da tua estrela. É uma casa cheia e decorada, mas vazia e nua e sem a música do teu riso doce. É um tormento.
Tenho saudades tuas.
Achas que posso adormecer de vez e atravessar os anos-luz que nos separam?
quarta-feira, julho 12, 2017
Lição n.º Idade Emocional
Aprendes aos poucos que a idade não passa de um número, mais curto, mais longo, mais esguio, mais redondo. Aprendes que nada mais é do que um marcador de livros no teu caminho na vida, para que não esqueças a quantidade de páginas que escreveste, a quantidade de dias que respiraste.
Aprendes aos poucos o conceito de idade mental, idade intelectual. Aprendes, arrisco-me, o conceito de idade emocional. E aprendes que essas, essa em particular, não se mede em blocos de dias que vais saltando; que a idade emocional não existe em ti como o marcador de livros que regista o volume de páginas da tua vida, mas sim como o luxímetro que regista a intensidade de luz dessas tuas páginas.
Pára agora um pouco. Se olhares atentamente em teu redor - e em especial para o teu interior, para onde é mais importante olhar - depressa aprenderás essa lição. Não tardarás também a perceber que este mesmo luxímetro, que conta os teus anos emocionais, mede a luz dos teus dias, mas também a ausência dela. A sua escuridão. E que é a escuridão dos dias que vives que mais pesa na tua idade emocional.
Poderei segredar-te agora que hoje fiz mais um ano emocional.
Há uma série de coisas que mudam a tua perspectiva sobre a vida. Uma delas é acordares um dia e o teu pai ter cancro.
É acordares um dia sabendo que a pessoa que desde que nasceste te serviu de exemplo, de pilar de valores, de primeiro professor, de escudo, de teu modelo, tua imagem e teu reflexo, tem os dias (ainda curtos) contados. É acordares um dia sabendo que passaram 25 anos em que ele foi tudo isso para ti - e quanto mais...! -, sem te pedir nada em troca. E é acordares apercebendo-te de que provavelmente nunca antes, até hoje, lho reconheceste e nunca antes soubeste dar-lhe a devida palavra de apreço. O devido Obrigado. Ou quiçá o devido silêncio de um abraço sentido. E é ainda pensares que, para além de já com isso em falta, provavelmente foste injusto com ele tantas vezes, e quantas delas sem razão sequer.
É nesta sombra que se estende sobre o teu dia e se alastra sobre ti que tiras involuntariamente uns minutos para reflectir sobre a ordem das coisas. Sobre a lógica e a justiça dos acontecimentos, a filosofia da vida e a emoção de se Ser e de se Sentir. E aí, debruçado sobre ti mesmo, em harmonia com a pouca luz do teu dia, encontras um novo pedaço de ti e cresces um bocadinho.
O dia não ganha mais luz por isso. Claro que não. Mas tu aprendeste, aprendeste-te e melhoraste-te. Cresceste emocionalmente e passaste a saber lidar de uma melhor forma com a parca luz dos teus dias. Eu cresci. E comprometi-me por isso, nos dias que lhe são contados, a fazê-lo saber tudo o que não o fiz saber nos últimos 25 anos. Comprometi-me a sair daqui agora e, nos dias que lhe são contados, a fazê-los valer a pena.
Amo-te, já com saudade.
Aprendes aos poucos o conceito de idade mental, idade intelectual. Aprendes, arrisco-me, o conceito de idade emocional. E aprendes que essas, essa em particular, não se mede em blocos de dias que vais saltando; que a idade emocional não existe em ti como o marcador de livros que regista o volume de páginas da tua vida, mas sim como o luxímetro que regista a intensidade de luz dessas tuas páginas.
Pára agora um pouco. Se olhares atentamente em teu redor - e em especial para o teu interior, para onde é mais importante olhar - depressa aprenderás essa lição. Não tardarás também a perceber que este mesmo luxímetro, que conta os teus anos emocionais, mede a luz dos teus dias, mas também a ausência dela. A sua escuridão. E que é a escuridão dos dias que vives que mais pesa na tua idade emocional.
Poderei segredar-te agora que hoje fiz mais um ano emocional.
Há uma série de coisas que mudam a tua perspectiva sobre a vida. Uma delas é acordares um dia e o teu pai ter cancro.
É acordares um dia sabendo que a pessoa que desde que nasceste te serviu de exemplo, de pilar de valores, de primeiro professor, de escudo, de teu modelo, tua imagem e teu reflexo, tem os dias (ainda curtos) contados. É acordares um dia sabendo que passaram 25 anos em que ele foi tudo isso para ti - e quanto mais...! -, sem te pedir nada em troca. E é acordares apercebendo-te de que provavelmente nunca antes, até hoje, lho reconheceste e nunca antes soubeste dar-lhe a devida palavra de apreço. O devido Obrigado. Ou quiçá o devido silêncio de um abraço sentido. E é ainda pensares que, para além de já com isso em falta, provavelmente foste injusto com ele tantas vezes, e quantas delas sem razão sequer.
É nesta sombra que se estende sobre o teu dia e se alastra sobre ti que tiras involuntariamente uns minutos para reflectir sobre a ordem das coisas. Sobre a lógica e a justiça dos acontecimentos, a filosofia da vida e a emoção de se Ser e de se Sentir. E aí, debruçado sobre ti mesmo, em harmonia com a pouca luz do teu dia, encontras um novo pedaço de ti e cresces um bocadinho.
O dia não ganha mais luz por isso. Claro que não. Mas tu aprendeste, aprendeste-te e melhoraste-te. Cresceste emocionalmente e passaste a saber lidar de uma melhor forma com a parca luz dos teus dias. Eu cresci. E comprometi-me por isso, nos dias que lhe são contados, a fazê-lo saber tudo o que não o fiz saber nos últimos 25 anos. Comprometi-me a sair daqui agora e, nos dias que lhe são contados, a fazê-los valer a pena.
Amo-te, já com saudade.
quinta-feira, junho 22, 2017
Cor da Cegueira
Deixei de ver com 20 anos.
Hoje, com 25, aprendi a pintar o meu mundo imaginário com as minhas cores. Com cores que, enquanto via, enquanto tive a bênção e o dom da visão, nem sequer sonhava existirem.
O teu problema é que nunca foste cego. Nunca soubeste o que é abrir as pálpebras e não haver luz para lá dos teus olhos. Não haver dia, não haver cor. E não haver nem céu nem mar. Não haver mais o rosto de alguém para quem um dia amaste olhar.
Nunca soubeste o que é esta escuridão de quem divaga livre mas preso na prisão infinita da mente. A prisão de quem não vê, mas tudo sente.
E porque nunca foste cego, nunca foste capaz de ver para além dos olhos ou de sentir para além do tacto. Para além dos instintos básicos e primários que florescem em ti através do que vês e do que tocas. E para ti, para quem é essa a realidade do mundo e a cor da vida, isso é tudo o que conheces e tudo quanto baste. É essa a tua paleta de cores. E por isso eu aceito que não compreendas a obra de arte que desenhei para mim no meu mundo às escuras, sem luz nem cor.
A verdade é que aprendi nestes cinco anos a apreciar a minha escuridão, esta cortina de sombra que me separou do que antes via. E não querendo parecer presunçoso, hoje sinto que, sem ver, vejo perfeitamente. Hoje sei que a tua visão imaculada é na verdade um daltonismo grave, acromático, oscilando num espectro pobre e neutro de pretos e brancos. E a culpa não é tua, porque foi assim que te ensinaram a ver. É assim que o mundo vê.
E então era isso que hoje queria partilhar contigo. As verdadeiras cores da vida - e, sobretudo, das pessoas - estão muito para lá daquilo que vês e daquilo que tocas. Atreve-te a ver mais do que apenas caras e corpos. Atreve-te a tocar mais do que apenas pele. Atreve-te e vê por exemplo a forma como ela olha para ti. Vê como lhe gela a respiração quando tem medo e procura segurança em ti. Vê como a consome a saudade da tua presença. Vê como são salgadas as lágrimas que chora quando está magoada. Vê como treme quando tem frio e como se lhe acalma a pulsação quando se comprime contra o calor do teu peito. Vê como lhe fervilha o sangue de emoção quando estás por perto. Vê como soa o riso tímido dela quando está feliz. Vê a graciosidade do sorriso dela quando te aperta nos seus braços e a musicalidade da sua voz quando te fala ao ouvido. Vê como canta a melodia do seu coração. Vê. Atreve-te e vê.
Atreve-te e vê com todos os teus sentidos como lhe dança a alma.
E nesse dia saberás o que é ser cego como eu.
Hoje, com 25, aprendi a pintar o meu mundo imaginário com as minhas cores. Com cores que, enquanto via, enquanto tive a bênção e o dom da visão, nem sequer sonhava existirem.
O teu problema é que nunca foste cego. Nunca soubeste o que é abrir as pálpebras e não haver luz para lá dos teus olhos. Não haver dia, não haver cor. E não haver nem céu nem mar. Não haver mais o rosto de alguém para quem um dia amaste olhar.
Nunca soubeste o que é esta escuridão de quem divaga livre mas preso na prisão infinita da mente. A prisão de quem não vê, mas tudo sente.
E porque nunca foste cego, nunca foste capaz de ver para além dos olhos ou de sentir para além do tacto. Para além dos instintos básicos e primários que florescem em ti através do que vês e do que tocas. E para ti, para quem é essa a realidade do mundo e a cor da vida, isso é tudo o que conheces e tudo quanto baste. É essa a tua paleta de cores. E por isso eu aceito que não compreendas a obra de arte que desenhei para mim no meu mundo às escuras, sem luz nem cor.
A verdade é que aprendi nestes cinco anos a apreciar a minha escuridão, esta cortina de sombra que me separou do que antes via. E não querendo parecer presunçoso, hoje sinto que, sem ver, vejo perfeitamente. Hoje sei que a tua visão imaculada é na verdade um daltonismo grave, acromático, oscilando num espectro pobre e neutro de pretos e brancos. E a culpa não é tua, porque foi assim que te ensinaram a ver. É assim que o mundo vê.
E então era isso que hoje queria partilhar contigo. As verdadeiras cores da vida - e, sobretudo, das pessoas - estão muito para lá daquilo que vês e daquilo que tocas. Atreve-te a ver mais do que apenas caras e corpos. Atreve-te a tocar mais do que apenas pele. Atreve-te e vê por exemplo a forma como ela olha para ti. Vê como lhe gela a respiração quando tem medo e procura segurança em ti. Vê como a consome a saudade da tua presença. Vê como são salgadas as lágrimas que chora quando está magoada. Vê como treme quando tem frio e como se lhe acalma a pulsação quando se comprime contra o calor do teu peito. Vê como lhe fervilha o sangue de emoção quando estás por perto. Vê como soa o riso tímido dela quando está feliz. Vê a graciosidade do sorriso dela quando te aperta nos seus braços e a musicalidade da sua voz quando te fala ao ouvido. Vê como canta a melodia do seu coração. Vê. Atreve-te e vê.
Atreve-te e vê com todos os teus sentidos como lhe dança a alma.
E nesse dia saberás o que é ser cego como eu.
terça-feira, maio 30, 2017
Tu em Mim
Não sei entender-te em mim.
É estranho não falarmos há tanto e tu visitares-me uma vez por outra nos meus sonhos. Tu ali, bem presente, bem quente, sensual no teu jeito miúdo e inocente, a fitar-me com esse teu sorriso audaz e tímido ao mesmo tempo. E é uma porra que seja só nos meus sonhos. Que seja só nos meus sonhos que te vejo, que te toco e que te beijo. É uma porra, porque de bom grado eu passava o resto dos meus dias amando-te, uma e outra vez, e outra vez ainda, de todas as vezes.
Mais estranho que tudo isso, que não sei de que fumo vem entre os meus sonhos, é acordar depois de ti e sentir ainda no ar o teu perfume. O teu nome e a doce imagem de ti rodopiando-me na cabeça; o teu perfume não menos doce rodopiando no ar, dançando à minha volta e entrelaçando-se em mim. Senti-o de manhã quando o dia me arrancou de ti e sinto-o ainda agora, aqui bem perto, arrancando-me também de mim.
Não sei se me estás na cabeça, se me estás na roupa que visto, nos lençóis onde me deito ou no ar que respiro, mas estás aqui sem estar e isso enlouquece-me como eu não te sei explicar. Mas é de loucos e na minha loucura eu tomo consciência de quão louco sou por ti. E é loucura mesmo, por mais que auto-diagnosticada, porque sinto hoje a tua falta sem nunca te ter tido.
E no entanto, loucuras à parte, estou louco por me deitar de novo, por adormecer de novo, na esperança do reencontro; na ânsia de que regresses do fumo à minha vida, só para ter mais um vislumbre do teu rosto (e, não querendo falar de novo dele, do teu sorriso que não tenho como esquecer), só para viver intensamente mais cinco minutos da nossa relação imaginária e do nosso amor proibido. Só para amanhã te sentir de novo no ar e em mim, na pele, nos pulmões e no coração, ardendo. Só para reviver e padecer só por mais um dia da loucura agridoce que é querer-te e que é ter-te sem te ter.
É estranho não falarmos há tanto e tu visitares-me uma vez por outra nos meus sonhos. Tu ali, bem presente, bem quente, sensual no teu jeito miúdo e inocente, a fitar-me com esse teu sorriso audaz e tímido ao mesmo tempo. E é uma porra que seja só nos meus sonhos. Que seja só nos meus sonhos que te vejo, que te toco e que te beijo. É uma porra, porque de bom grado eu passava o resto dos meus dias amando-te, uma e outra vez, e outra vez ainda, de todas as vezes.
Mais estranho que tudo isso, que não sei de que fumo vem entre os meus sonhos, é acordar depois de ti e sentir ainda no ar o teu perfume. O teu nome e a doce imagem de ti rodopiando-me na cabeça; o teu perfume não menos doce rodopiando no ar, dançando à minha volta e entrelaçando-se em mim. Senti-o de manhã quando o dia me arrancou de ti e sinto-o ainda agora, aqui bem perto, arrancando-me também de mim.
Não sei se me estás na cabeça, se me estás na roupa que visto, nos lençóis onde me deito ou no ar que respiro, mas estás aqui sem estar e isso enlouquece-me como eu não te sei explicar. Mas é de loucos e na minha loucura eu tomo consciência de quão louco sou por ti. E é loucura mesmo, por mais que auto-diagnosticada, porque sinto hoje a tua falta sem nunca te ter tido.
E no entanto, loucuras à parte, estou louco por me deitar de novo, por adormecer de novo, na esperança do reencontro; na ânsia de que regresses do fumo à minha vida, só para ter mais um vislumbre do teu rosto (e, não querendo falar de novo dele, do teu sorriso que não tenho como esquecer), só para viver intensamente mais cinco minutos da nossa relação imaginária e do nosso amor proibido. Só para amanhã te sentir de novo no ar e em mim, na pele, nos pulmões e no coração, ardendo. Só para reviver e padecer só por mais um dia da loucura agridoce que é querer-te e que é ter-te sem te ter.
sexta-feira, março 17, 2017
Folhas de Papel
Expliquei-te há três dias ao almoço, entre duas fatias gordas de sashimi, que acredito nas energias do Universo. Tu, claro, riste-te.
A coisa é que fazia nesse dia um ano que te falei da minha avó. A minha avó falecida, a minha avó professora de desenho, a minha avó que, como um desenho, via a Vida sem contornos. Um ano. E, nem a propósito, nesse dia tornei a sonhar com ela.
Estávamos de volta ao alpendre dela. Não sei se foi de facto aí que aconteceu ou se é já a mente pregando em mim partidas, mas ali estávamos os dois. Desta vez, era eu quem ocupava a cadeira de baloiço dela. Ela, por seu turno, bebericava o seu chá na mesinha de madeira, com um pôr-do-sol alaranjado recostando-se lá ao longe.
Via-me a mim próprio girar entre os dedos das mãos mais um desenho; para mim mais uma tentativa falhada da perfeição que procurava atingir, à minha pequena medida. Então vi-me a amachucar bruscamente o desenho numa bola desajeitada, num súbito acesso de fúria e frustração, e a pô-lo de parte na minha colecção de fracassos.
"Tomás...", murmurou-me naquele tom sempre impávido e sereno, detendo-se para soprar o seu chá quente. Pensei para comigo que se avizinhava um raspanete sobre o gasto de papel e as árvores mortas; em vez disso, a minha avó soprou-me uma daquelas coisas sem sentido que eu não tinha como entender. "... cada desenho que atiras para o chão é uma parte de ti que deitas fora."
Senti um silêncio esquisito em mim, como se aquela frase tivesse interrompido as sinapses no meu cérebro. E ela deve ter-se apercebido disso mesmo pela minha expressão, sentindo-se então na obrigação de rematar aquilo com um "Nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel."
Não ajudou em muito a minha causa.
"Porque amachucas e deitas fora os teus desenhos?", insistiu ela, depois de um trago de chá. Ora, que pergunta... Encolhi os ombros, achando óbvia a resposta: "Porque não estavam bem." Aí ela questionou-me o que significava para mim os desenhos não estarem bem. Desta vez o meu cérebro não parou, mas revolveu-se; eram duas perguntas fáceis de seguida e a minha avó nunca fazia isso. Então eu percebi que ela não precisava de mim para descobrir a resposta, mas sim que queria que eu pensasse nela. Mais ainda, queria que eu entendesse isto mesmo antes de lhe dar a resposta final, para que repensasse e remoesse o assunto para além do óbvio.
Conferenciei com os meus botões, o meu olhar alternando entre o meu vazio, o pôr-do-sol lá atrás e as mil folhas amachucadas no chão, e inspirei toda a sabedoria que pairava no ar para, no lugar de um "Significa que estão feios" ou de um "Significa que estão tortos", lhe responder que não estava a conseguir reproduzir aquilo que idealizava. Soube pelo sorriso sorrateiro dela que era aquela a resposta que ela procurava.
"É quando fazes um traço torto e te apercebes de que ele está torto que te corriges e passas a fazê-lo direito. Cada traço errado ensina-te um traço certo. Cada borrão com a mão sobre o carvão do lápis ensina-te a levantar a mão e a cuidar do teu desenho. Como degraus, cada erro teu ensina-te a chegar mais perto do que idealizas aqui", disse-me, tamborilando com o dedo na sua cabeça. "Então, em tudo na tua vida, não podes ter um sem ter o outro. O certo sem o errado. O sucesso sem o fracasso. E tens, por isso, de guardá-los para ti ao mesmo nível, lado a lado, com o mesmo carinho."
Dei por mim a recolher do chão todas as bolas de papel que havia espalhado pelo alpendre durante aquela tarde. Coloquei-as a todas no meu colo, voltando a baloiçar-me na cadeira. A minha avó acenou em aprovação.
"Esses são os teus erros e os teus defeitos. E são erros e defeitos bonitos; não os amachuques. Agarra-os, abraça-os e trata-os bem, pois são eles que fazem de ti quem és. Ah!, e mais..." A minha avó esperou que eu olhasse de novo para ela. "... Trata bem também os erros e os defeitos dos teus amigos, porque nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel...
Comigo de olhos nela, a minha avó desembrulhou uma das minhas bolas de papel, que ela própria tinha apanhado do chão sem que eu desse conta.
"E quando amachucamos uma folha de papel, ela nunca mais volta ao sítio."
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.pt/2016/03/contornos.html?m=1 ]
A coisa é que fazia nesse dia um ano que te falei da minha avó. A minha avó falecida, a minha avó professora de desenho, a minha avó que, como um desenho, via a Vida sem contornos. Um ano. E, nem a propósito, nesse dia tornei a sonhar com ela.
Estávamos de volta ao alpendre dela. Não sei se foi de facto aí que aconteceu ou se é já a mente pregando em mim partidas, mas ali estávamos os dois. Desta vez, era eu quem ocupava a cadeira de baloiço dela. Ela, por seu turno, bebericava o seu chá na mesinha de madeira, com um pôr-do-sol alaranjado recostando-se lá ao longe.
Via-me a mim próprio girar entre os dedos das mãos mais um desenho; para mim mais uma tentativa falhada da perfeição que procurava atingir, à minha pequena medida. Então vi-me a amachucar bruscamente o desenho numa bola desajeitada, num súbito acesso de fúria e frustração, e a pô-lo de parte na minha colecção de fracassos.
"Tomás...", murmurou-me naquele tom sempre impávido e sereno, detendo-se para soprar o seu chá quente. Pensei para comigo que se avizinhava um raspanete sobre o gasto de papel e as árvores mortas; em vez disso, a minha avó soprou-me uma daquelas coisas sem sentido que eu não tinha como entender. "... cada desenho que atiras para o chão é uma parte de ti que deitas fora."
Senti um silêncio esquisito em mim, como se aquela frase tivesse interrompido as sinapses no meu cérebro. E ela deve ter-se apercebido disso mesmo pela minha expressão, sentindo-se então na obrigação de rematar aquilo com um "Nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel."
Não ajudou em muito a minha causa.
"Porque amachucas e deitas fora os teus desenhos?", insistiu ela, depois de um trago de chá. Ora, que pergunta... Encolhi os ombros, achando óbvia a resposta: "Porque não estavam bem." Aí ela questionou-me o que significava para mim os desenhos não estarem bem. Desta vez o meu cérebro não parou, mas revolveu-se; eram duas perguntas fáceis de seguida e a minha avó nunca fazia isso. Então eu percebi que ela não precisava de mim para descobrir a resposta, mas sim que queria que eu pensasse nela. Mais ainda, queria que eu entendesse isto mesmo antes de lhe dar a resposta final, para que repensasse e remoesse o assunto para além do óbvio.
Conferenciei com os meus botões, o meu olhar alternando entre o meu vazio, o pôr-do-sol lá atrás e as mil folhas amachucadas no chão, e inspirei toda a sabedoria que pairava no ar para, no lugar de um "Significa que estão feios" ou de um "Significa que estão tortos", lhe responder que não estava a conseguir reproduzir aquilo que idealizava. Soube pelo sorriso sorrateiro dela que era aquela a resposta que ela procurava.
"É quando fazes um traço torto e te apercebes de que ele está torto que te corriges e passas a fazê-lo direito. Cada traço errado ensina-te um traço certo. Cada borrão com a mão sobre o carvão do lápis ensina-te a levantar a mão e a cuidar do teu desenho. Como degraus, cada erro teu ensina-te a chegar mais perto do que idealizas aqui", disse-me, tamborilando com o dedo na sua cabeça. "Então, em tudo na tua vida, não podes ter um sem ter o outro. O certo sem o errado. O sucesso sem o fracasso. E tens, por isso, de guardá-los para ti ao mesmo nível, lado a lado, com o mesmo carinho."
Dei por mim a recolher do chão todas as bolas de papel que havia espalhado pelo alpendre durante aquela tarde. Coloquei-as a todas no meu colo, voltando a baloiçar-me na cadeira. A minha avó acenou em aprovação.
"Esses são os teus erros e os teus defeitos. E são erros e defeitos bonitos; não os amachuques. Agarra-os, abraça-os e trata-os bem, pois são eles que fazem de ti quem és. Ah!, e mais..." A minha avó esperou que eu olhasse de novo para ela. "... Trata bem também os erros e os defeitos dos teus amigos, porque nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel...
Comigo de olhos nela, a minha avó desembrulhou uma das minhas bolas de papel, que ela própria tinha apanhado do chão sem que eu desse conta.
"E quando amachucamos uma folha de papel, ela nunca mais volta ao sítio."
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.pt/2016/03/contornos.html?m=1 ]
terça-feira, fevereiro 14, 2017
Super-Heróis
É quase engraçada a noção que não temos acerca do mundo que nos rodeia. Do mundo das pessoas que nos rodeiam.
Sentas-te todos os dias ao lado dela, trocam todas as manhãs um "bom dia" ainda em sono, comem à mesma mesa, discutem problemas e soluções no trabalho, riem juntos. E no entanto tu não tens nem noção do que é ser ela e de quem é realmente essa pessoa ao lado de quem te sentas diariamente, com quem trocas cumprimentos pela manhã, com quem almoças, com quem trabalhas e com quem ao fim do dia bebes um fino no café ali ao virar da esquina.
Ela não mostra; ela não deixa que transpareça uma nesga que seja. Por debaixo daquela energia e felicidade genuína, de ferro, ela não verga. Antes, opta por focar-se no trabalho dela e por focar-se muito em ti, no teu bem-estar a cada instante, ainda que subtilmente para que tu não te apercebas. Mas deixa-me que te conte:
Perdeu recentemente a Mãe, Mãe com M grande, do tamanho da falta que uma mãe faz. Muito antes de tempo, foi o pilar de uma casa de 4 que desabou, assim de súbito. E no ar ficou só o eco do estrondo. Depois, o silêncio da ausência.
No aperto, sem dar tempo ao tempo e tempo à ferida para sarar, o único irmão dela escolheu um caminho de vida que em muito se afastou do dela e do pai, deixando-os aos dois segurando a custo o telhado trémulo e instável daquela casa que dias antes fora um lar.
Como uma desgraça nunca vem só, pouco tardou para que o pai dela visse o seu emprego escapar-lhe por entre os dedos. O fruto do esforço de uma vida ser-lhe arrancado à força das mãos e do corpo; o sustento de uma casa e de uma família ser-lhe tirado sem mais dos bolsos, esfumando-se da noite para o dia.
E assim sobrou ela. Ela sem Mãe, ela sem irmão, ela sem um ordenado que pague uma casa e ainda sustente três. Ela que acabou de sair da faculdade e que ao final do mês não ganha mais que tu. Ela que de repente passou de filha com tudo para segunda mãe sem nada.
Então provou-se à prova de bala e agarrou-se como pôde às rédeas da loucura em que se tornou a vida dela. Aos 23 anos, a seu custo e sacrifício, pôs a mochila às costas e a responsabilidade aos ombros e saiu porta fora para sozinha ir atrás da solução dos problemas de todos.
E é aí que ela se encontra de momento. Sentada ao teu lado, dizendo-te bom dia todas as manhãs de sorriso bem rasgado, almoçando à tua frente, dissecando todos os detalhes do vosso trabalho e bebendo estoicamente um fino ao final do dia, para te dar a oportunidade de seres ouvido, de partilhares os teus "problemas" e de te sentires reconfortado.
Mas tu não tens nem noção.
Sentas-te todos os dias ao lado dela, trocam todas as manhãs um "bom dia" ainda em sono, comem à mesma mesa, discutem problemas e soluções no trabalho, riem juntos. E no entanto tu não tens nem noção do que é ser ela e de quem é realmente essa pessoa ao lado de quem te sentas diariamente, com quem trocas cumprimentos pela manhã, com quem almoças, com quem trabalhas e com quem ao fim do dia bebes um fino no café ali ao virar da esquina.
Ela não mostra; ela não deixa que transpareça uma nesga que seja. Por debaixo daquela energia e felicidade genuína, de ferro, ela não verga. Antes, opta por focar-se no trabalho dela e por focar-se muito em ti, no teu bem-estar a cada instante, ainda que subtilmente para que tu não te apercebas. Mas deixa-me que te conte:
Perdeu recentemente a Mãe, Mãe com M grande, do tamanho da falta que uma mãe faz. Muito antes de tempo, foi o pilar de uma casa de 4 que desabou, assim de súbito. E no ar ficou só o eco do estrondo. Depois, o silêncio da ausência.
No aperto, sem dar tempo ao tempo e tempo à ferida para sarar, o único irmão dela escolheu um caminho de vida que em muito se afastou do dela e do pai, deixando-os aos dois segurando a custo o telhado trémulo e instável daquela casa que dias antes fora um lar.
Como uma desgraça nunca vem só, pouco tardou para que o pai dela visse o seu emprego escapar-lhe por entre os dedos. O fruto do esforço de uma vida ser-lhe arrancado à força das mãos e do corpo; o sustento de uma casa e de uma família ser-lhe tirado sem mais dos bolsos, esfumando-se da noite para o dia.
E assim sobrou ela. Ela sem Mãe, ela sem irmão, ela sem um ordenado que pague uma casa e ainda sustente três. Ela que acabou de sair da faculdade e que ao final do mês não ganha mais que tu. Ela que de repente passou de filha com tudo para segunda mãe sem nada.
Então provou-se à prova de bala e agarrou-se como pôde às rédeas da loucura em que se tornou a vida dela. Aos 23 anos, a seu custo e sacrifício, pôs a mochila às costas e a responsabilidade aos ombros e saiu porta fora para sozinha ir atrás da solução dos problemas de todos.
E é aí que ela se encontra de momento. Sentada ao teu lado, dizendo-te bom dia todas as manhãs de sorriso bem rasgado, almoçando à tua frente, dissecando todos os detalhes do vosso trabalho e bebendo estoicamente um fino ao final do dia, para te dar a oportunidade de seres ouvido, de partilhares os teus "problemas" e de te sentires reconfortado.
Mas tu não tens nem noção.
terça-feira, janeiro 17, 2017
Viagem ao Centro de Mim
Tenho a sina de não desligar.
A sina de viajar em mim dez mil léguas sem sair do mesmo lugar.
Quando a chuva me bate à porta e contra as janelas, então, saio de mim sem aviso, ainda de olhos abertos, e sou sugado para um qualquer recanto do mundo, atirado para dentro de um comboio a vapor sem rumo certo. E no entanto, embora sem destino traçado, todas as paragens são paragens de ti, no teu tempo, nos teus tempos, numa linha cronológica difusa.
A certeza dos dias é nevoeiro na minha mente, relegada sem intenção para um canto longínquo de mim. Mas conheço bem as paisagens. Sei-as de cor, como se as respirasse hoje mesmo. Sei de cor os montes e os prados sem fim, as sombras das árvores solitárias, a frágil fragrância das flores e as cores do céu no horizonte: amarelo fresco quando nasce o sol, laranja quente quando se põe; azul estrelado quando a lua espreita, mais ainda quando se esquece de espreitar.
Avisto-te ao longe, pelas janelas de mim, baloiçando na tua cama de rede no alpendre da casa no monte, lendo como de costume. Avisto-te mais perto, correndo pelos prados e rebolando quando te cansas de correr, a tua gargalhada de criança soando-me em eco mudo ao ouvido.
Avisto-te na sombra da primeira árvore e depois da segunda, aninhando-te para a primeira sesta de verão, depois de um almoço tardio em jeito de picnic, sobre o pano xadrez estendido, ao sabor de um vinho tinto. Avisto-te junto ao vidro do meu comboio, recolhendo as flores carmesim que aí nascem e colocando no cabelo, por detrás da orelha, uma delas, como fazias sempre - tão perto que podia sentir-lhes o cheiro, sentir-te o perfume.
Avisto-nos aos dois sentados no ramo mais forte da nossa árvore a ver o sol pôr-se antes de irmos jantar. Avisto-nos deitados nas telhas ainda quentes, a identificar entre risos as constelações nesse mar de estrelas. Avisto-te através dos meus e dos teus vidros enterrada em dois cobertores grossos nas noites frias, diante da lareira, de chocolate quente em punho, e o fumo da chaminé serpenteando em silêncio por entre o canto dos grilos lá fora.
Revejo em todas as visões de ti - quando lês, quando corres e rebolas, quando comes, quando dormes, quando fitas o horizonte, quando contas as estrelas, quando tremes com o frio - o sorriso que me desarma e abala todos os dias, como se todos os dias o visse pela primeira vez; a ternura de um mundo inteiro contida nos teus lábios.
Revejo então os teus lábios, muito perto, até que deixo de os ver e passo a senti-los, como se os tivesse aqui e agora pressionados contra os meus. Sinto o teu corpo encostado ao meu. Sinto metro e meio de abraço apertado, metro e meio de amor. Sinto o bater do teu coração com ritmo indefinido, umas vezes compassado e outras disparando. Sinto a tua paz no meu peito e o teu calor na minha pele. Sinto as tuas mãos nas minhas, os teus dedos nos meus. Sinto-nos a nós; a mim em ti nas noites só nossas. Leio-te feliz nos teus olhos e torno a deixar-me perder-me neles, como se tivesse escolha, vezes e vezes sem conta.
Abraço-te uma vez mais para não deixar fugir o momento, para não te deixar desaparecer. Este momento é tudo. Ter-te é ter tudo e eu só queria parar o tempo, congelar tudo, para te ter aqui até ao fim dos meus dias. Aperto-te nos meus braços de novo, a tua cintura contra a minha.
Deixa-me por um minuto não te largar. Deixa-me beijar-te uma vez mais, só mais uma. Deixa-me, que não tarda o meu comboio esfuma-se e eu volto a mim. Não tarda ele esfuma-se e eu torno a perder-te de vez.
A sina de viajar em mim dez mil léguas sem sair do mesmo lugar.
Quando a chuva me bate à porta e contra as janelas, então, saio de mim sem aviso, ainda de olhos abertos, e sou sugado para um qualquer recanto do mundo, atirado para dentro de um comboio a vapor sem rumo certo. E no entanto, embora sem destino traçado, todas as paragens são paragens de ti, no teu tempo, nos teus tempos, numa linha cronológica difusa.
A certeza dos dias é nevoeiro na minha mente, relegada sem intenção para um canto longínquo de mim. Mas conheço bem as paisagens. Sei-as de cor, como se as respirasse hoje mesmo. Sei de cor os montes e os prados sem fim, as sombras das árvores solitárias, a frágil fragrância das flores e as cores do céu no horizonte: amarelo fresco quando nasce o sol, laranja quente quando se põe; azul estrelado quando a lua espreita, mais ainda quando se esquece de espreitar.
Avisto-te ao longe, pelas janelas de mim, baloiçando na tua cama de rede no alpendre da casa no monte, lendo como de costume. Avisto-te mais perto, correndo pelos prados e rebolando quando te cansas de correr, a tua gargalhada de criança soando-me em eco mudo ao ouvido.
Avisto-te na sombra da primeira árvore e depois da segunda, aninhando-te para a primeira sesta de verão, depois de um almoço tardio em jeito de picnic, sobre o pano xadrez estendido, ao sabor de um vinho tinto. Avisto-te junto ao vidro do meu comboio, recolhendo as flores carmesim que aí nascem e colocando no cabelo, por detrás da orelha, uma delas, como fazias sempre - tão perto que podia sentir-lhes o cheiro, sentir-te o perfume.
Avisto-nos aos dois sentados no ramo mais forte da nossa árvore a ver o sol pôr-se antes de irmos jantar. Avisto-nos deitados nas telhas ainda quentes, a identificar entre risos as constelações nesse mar de estrelas. Avisto-te através dos meus e dos teus vidros enterrada em dois cobertores grossos nas noites frias, diante da lareira, de chocolate quente em punho, e o fumo da chaminé serpenteando em silêncio por entre o canto dos grilos lá fora.
Revejo em todas as visões de ti - quando lês, quando corres e rebolas, quando comes, quando dormes, quando fitas o horizonte, quando contas as estrelas, quando tremes com o frio - o sorriso que me desarma e abala todos os dias, como se todos os dias o visse pela primeira vez; a ternura de um mundo inteiro contida nos teus lábios.
Revejo então os teus lábios, muito perto, até que deixo de os ver e passo a senti-los, como se os tivesse aqui e agora pressionados contra os meus. Sinto o teu corpo encostado ao meu. Sinto metro e meio de abraço apertado, metro e meio de amor. Sinto o bater do teu coração com ritmo indefinido, umas vezes compassado e outras disparando. Sinto a tua paz no meu peito e o teu calor na minha pele. Sinto as tuas mãos nas minhas, os teus dedos nos meus. Sinto-nos a nós; a mim em ti nas noites só nossas. Leio-te feliz nos teus olhos e torno a deixar-me perder-me neles, como se tivesse escolha, vezes e vezes sem conta.
Abraço-te uma vez mais para não deixar fugir o momento, para não te deixar desaparecer. Este momento é tudo. Ter-te é ter tudo e eu só queria parar o tempo, congelar tudo, para te ter aqui até ao fim dos meus dias. Aperto-te nos meus braços de novo, a tua cintura contra a minha.
Deixa-me por um minuto não te largar. Deixa-me beijar-te uma vez mais, só mais uma. Deixa-me, que não tarda o meu comboio esfuma-se e eu volto a mim. Não tarda ele esfuma-se e eu torno a perder-te de vez.
quarta-feira, janeiro 04, 2017
Resoluções de Ano Novo
Ano novo, finalmente.
Desconfio que passo os meus dias à espera deste virar da página. É só mais um dia, só mais um amanhã como todos os outros, eu sei, mas o ano novo renova-se e renova-me. Renova-me as energias, as esperanças e os sonhos. Renova-me a motivação. Entrega-me de novo à Fé.
Sim, à Fé. Eu sou uma pessoa de fé. Só não acredito nas coisas em que as pessoas normais acreditam. Em Deus e tudo isso. Mas se há coisa que eu sou é Fé. Fé na Natureza. Na vida da Terra na pulsação do vento e do mar. Fé nas pessoas. Fé no respeito. Na silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas. Fé na bondade. Em bons pequenos gestos, em bons corações, em boa gente. Fé no amor. No campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas. Fé no destino. Nas energias invisíveis do universo.
Sim, já sei, dar e receber, o velho e eterno karma... Sempre o karma. Oiço há anos falar dele; só ainda não tive o prazer de o conhecer. E é um bocado por aí que voltamos ao meu início: ano novo, finalmente. Talvez não te dês conta, ou não te dês o tempo e a hipótese de te dares conta, mas nós somos muito como um copo de água, que vai enchendo com os acasos da vida. E no limite, no fim dos fins, transbordamos. Para fora ou para dentro, pouco importa; depende de cada um, mas algures nesse limbo perdemos a nossa forma, a nossa estabilidade, e precisamos de nos reestruturar. E eu, pessoalmente, de tempos a tempos preciso de atirar mais lenha para o fogo da minha Fé, que vai esmorecendo e fumegando.
Nós precisamos destes ciclos. Das horas do dia, dos dias da semana, das semanas do mês, dos meses do ano e dos anos da vida. Já todos encontrámos abrigo à sombra de um "daqui por duas horas já estou em casa" ou de um "amanhã é um novo dia". De um "o fim-de-semana está mesmo aí" ou até de um "no próximo mês já vou de férias". São portos seguros que criámos sem nos apercebermos, para atracar quando a corrente fica demasiado turbulenta. O ano novo é só mais um exemplo. Com a diferença de que nos promete guardar novas 365 oportunidades de ser bem-sucedido, de ser feliz, de ser amado, de ser completo. É o ponto de viragem e recomeço mais forte deles todos.
Não te procuro, porque a Fé - a vida da Terra na pulsação do vento e do mar, a silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas, os bons pequenos gestos de bons corações e boa gente, o campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas, as energias invisíveis do universo - me diz que te vou encontrar num futuro incerto, nem mais tarde, nem mais cedo. Mas a cada virar de página faço muita força para que este seja o ano do futuro incerto, do nem mais tarde, nem mais cedo. Porque eu quero-te, quero-te loucamente, e porque sem te ter ainda tenho já saudades tuas. Quero dar-te a mão, entrelaçar os dedos nos teus e correr mundo fora, para conhecer contigo as maravilhas dos nossos recantos. E conhecer melhor ainda as maravilhas dos teus recantos, os encantos dos teus jardins e as dores dos teus desertos, que sei que guardas para além dos teus olhos e do teu sorriso. Quero beijar-te o pescoço; quero viver-te, quero amar-te. E quero acordar todos os dias, sem mais, à luz do teu sorriso e do teu olhar, ao sabor quente do teu beijo húmido, ao calor do teu toque frio.
Sem saber onde nem quando, sinto e sei que estás aí. E eu, de Fé renovada, só quero (ardo de desejo) que este ano seja de vez.
Desconfio que passo os meus dias à espera deste virar da página. É só mais um dia, só mais um amanhã como todos os outros, eu sei, mas o ano novo renova-se e renova-me. Renova-me as energias, as esperanças e os sonhos. Renova-me a motivação. Entrega-me de novo à Fé.
Sim, à Fé. Eu sou uma pessoa de fé. Só não acredito nas coisas em que as pessoas normais acreditam. Em Deus e tudo isso. Mas se há coisa que eu sou é Fé. Fé na Natureza. Na vida da Terra na pulsação do vento e do mar. Fé nas pessoas. Fé no respeito. Na silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas. Fé na bondade. Em bons pequenos gestos, em bons corações, em boa gente. Fé no amor. No campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas. Fé no destino. Nas energias invisíveis do universo.
Sim, já sei, dar e receber, o velho e eterno karma... Sempre o karma. Oiço há anos falar dele; só ainda não tive o prazer de o conhecer. E é um bocado por aí que voltamos ao meu início: ano novo, finalmente. Talvez não te dês conta, ou não te dês o tempo e a hipótese de te dares conta, mas nós somos muito como um copo de água, que vai enchendo com os acasos da vida. E no limite, no fim dos fins, transbordamos. Para fora ou para dentro, pouco importa; depende de cada um, mas algures nesse limbo perdemos a nossa forma, a nossa estabilidade, e precisamos de nos reestruturar. E eu, pessoalmente, de tempos a tempos preciso de atirar mais lenha para o fogo da minha Fé, que vai esmorecendo e fumegando.
Nós precisamos destes ciclos. Das horas do dia, dos dias da semana, das semanas do mês, dos meses do ano e dos anos da vida. Já todos encontrámos abrigo à sombra de um "daqui por duas horas já estou em casa" ou de um "amanhã é um novo dia". De um "o fim-de-semana está mesmo aí" ou até de um "no próximo mês já vou de férias". São portos seguros que criámos sem nos apercebermos, para atracar quando a corrente fica demasiado turbulenta. O ano novo é só mais um exemplo. Com a diferença de que nos promete guardar novas 365 oportunidades de ser bem-sucedido, de ser feliz, de ser amado, de ser completo. É o ponto de viragem e recomeço mais forte deles todos.
Não te procuro, porque a Fé - a vida da Terra na pulsação do vento e do mar, a silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas, os bons pequenos gestos de bons corações e boa gente, o campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas, as energias invisíveis do universo - me diz que te vou encontrar num futuro incerto, nem mais tarde, nem mais cedo. Mas a cada virar de página faço muita força para que este seja o ano do futuro incerto, do nem mais tarde, nem mais cedo. Porque eu quero-te, quero-te loucamente, e porque sem te ter ainda tenho já saudades tuas. Quero dar-te a mão, entrelaçar os dedos nos teus e correr mundo fora, para conhecer contigo as maravilhas dos nossos recantos. E conhecer melhor ainda as maravilhas dos teus recantos, os encantos dos teus jardins e as dores dos teus desertos, que sei que guardas para além dos teus olhos e do teu sorriso. Quero beijar-te o pescoço; quero viver-te, quero amar-te. E quero acordar todos os dias, sem mais, à luz do teu sorriso e do teu olhar, ao sabor quente do teu beijo húmido, ao calor do teu toque frio.
Sem saber onde nem quando, sinto e sei que estás aí. E eu, de Fé renovada, só quero (ardo de desejo) que este ano seja de vez.
terça-feira, dezembro 27, 2016
Feliz Natal
As palavras "feliz natal" soaram-me vazias na cabeça, como um eco quase mudo repercutindo-se à distância. Leve como uma pena deixada ao vento, ao acaso.
Podíamos ter o frio no ar, as luzes na rua, a lareira em casa, o presépio na entrada, o peru e o bacalhau no forno, a árvore na sala e os presentes debaixo dela. Mas há muito que o natal deixou de significar presentes para significar família.
Tinha para mim o natal como um interregno nos nossos calendários preenchidos e ocupados, nos nossos empregos, nas nossas vidas aceleradas e espalhadas pelos cantos do mundo, para nos revermos uns aos outros. Um momento de introspecção para nos focarmos em nós enquanto família e, nesse exercício, esquecermos por dois dias tudo o resto e gozarmos um pouco de paz em conjunto. Especialmente quando, à medida que os anos passam, nunca sabemos quando será o último natal para alguém.
Mas este ano isso escapou-nos por entre os dedos. Montámos o cenário com toda a pompa e circunstância, mas esquecemo-nos de fechar os olhos e olhar para dentro, para aquilo que verdadeiramente importa. Agarrámo-nos ao orgulho próprio, egoísta, e à intolerância. Esquecemo-nos de amar. Esquecemo-nos de perdoar. E apodrecemos por dentro, vítimas do nosso próprio veneno.
Éramos seis, mas éramos um. Um corpo bem constituído, felizmente bem alimentado e saudável. O pai era o cérebro, a razão; a mãe o coração, a emoção; e nós irmãos, que somos quatro, as pernas e os braços com que corríamos o mundo e nos agarrávamos aos nossos sonhos. E no entanto, algures no tempo, cedemos a uma febre qualquer e adoecemos gravemente. Ignorámos que são as nossas diferenças que nos fazem melhores e mais completos e levantámos o nosso próprio faroeste debaixo do nosso telhado, debaixo da nossa pele. Trocámos tiros em todas as direcções. Um tiro no pé. Um na cabeça, um no coração e outros quatro nas pernas e braços, numa amputação lenta. E começámos a sangrar.
Este ano não me sentei para ver um filme em família, muito menos um serão inteiro deles como sempre fazíamos, muitas vezes após a ceia de natal e a troca de presentes, já a altas horas da madrugada. Não consegui desfrutar de cada segundo da incrível boa disposição do meu avô, que tanto admiro e que vem à tona já a grande custo. Nem consegui estar em casa mais tempo do que o necessário. Saí à primeira oportunidade, porque casa não é casa quando o teu coração quer estar em todo o lado menos ali.
Por isso, sim, as palavras "feliz natal" soaram-me vazias na cabeça, como um eco quase mudo repercutindo-se à distância. Leve como uma pena deixada ao vento, ao acaso.
Fiz o meu papel de feliz, mas toda a gente sabe que um papel amachucado jamais volta ao sítio. Eu nem queria um feliz natal; só queria a minha família de volta.
segunda-feira, dezembro 05, 2016
Estrelas no Céu
O dia nasceu sem cor, como todos os outros para mim desde aquela noite.
O telefone tocou de mansinho e eu estremeci da cabeça aos pés. Estremeço sempre que o sinto vibrar, só de recordar aquela chamada da Mãe que me arrancou do sono para me dar a notícia. Aquele murro no estômago que adorava nunca ter sentido.
Puxei o telemóvel do bolso e tive um breve vislumbre do teu sorriso, eterno no meu fundo de ecrã, antes de surgir a imagem da Mãe a chamar do outro lado da linha. Sabia que dia era hoje e portanto hesitei por uns segundos.
Atendi.
Senti-lhe na voz a dor e as lágrimas, bem como o esforço que fazia para as esconder entre soluços leves. Num murmúrio, deu-me os parabéns que não pôde dar-te a ti. Fazes dezassete anos hoje. Farias, aliás... Mas faz um ano que partiste. Faz um ano que a merda do SMS urgente te levou de nós a ferros. A pneus e a pára-choques. Assim, sem mais.
Este mundo é um lugar cruel e tu, de todas as pessoas, não merecias isto.
Desligo a chamada e a tua fotografia volta a ocupar o ecrã, no teu vestido azul, a sorrir para mim. Estás aqui há um ano. Que saudades que eu tenho desse teu sorriso que iluminava tudo e todos. Da tua gargalhada que me aquecia o coração. Desses teus olhões que viam o mundo de outra forma.
Lembro-me repentinamente dos nossos serões à lareira, tu a ler o teu livro de cabeça apoiada no meu colo, toda intelectual, e eu a ver filmes sem som para não te incomodar. Dava tudo só por mais um dia. Só para poder voltar a sentir a tua cabeça quente contra a minha barriga. Para poder voltar a coçar-te a nuca e a afagar-te o cabelo até adormeceres no meu abraço. Para poder voltar a carregar-te nos braços escada acima, numa guerra para não deixar cair a manta com que te tapavas, e deitar-te na cama. Só para poder voltar a dar-te um último beijo de boa noite. Dava tudo... Tudo.
Demoro-me um bocado a olhar o céu.
Imagino que tenhas encontrado aí um lugar e que andes por aí aos pinotes, ligada à corrente, como boa pulga que sempre foste. A espalhar o teu riso aos ventos e a contagiar todas as outras estrelas com esse teu brilho. És o meu orgulho.
Onde quer que estejas, por favor sê feliz.
Com carinho, um beijo na testa do teu irmão que tanto te ama.
Parabéns, Miúda.
(P.s.: Por favor controla a chuva de perdigotos no bolo.)
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.com/2016/01/bittersweet-sixteen.html?m=1 ]
O telefone tocou de mansinho e eu estremeci da cabeça aos pés. Estremeço sempre que o sinto vibrar, só de recordar aquela chamada da Mãe que me arrancou do sono para me dar a notícia. Aquele murro no estômago que adorava nunca ter sentido.
Puxei o telemóvel do bolso e tive um breve vislumbre do teu sorriso, eterno no meu fundo de ecrã, antes de surgir a imagem da Mãe a chamar do outro lado da linha. Sabia que dia era hoje e portanto hesitei por uns segundos.
Atendi.
Senti-lhe na voz a dor e as lágrimas, bem como o esforço que fazia para as esconder entre soluços leves. Num murmúrio, deu-me os parabéns que não pôde dar-te a ti. Fazes dezassete anos hoje. Farias, aliás... Mas faz um ano que partiste. Faz um ano que a merda do SMS urgente te levou de nós a ferros. A pneus e a pára-choques. Assim, sem mais.
Este mundo é um lugar cruel e tu, de todas as pessoas, não merecias isto.
Desligo a chamada e a tua fotografia volta a ocupar o ecrã, no teu vestido azul, a sorrir para mim. Estás aqui há um ano. Que saudades que eu tenho desse teu sorriso que iluminava tudo e todos. Da tua gargalhada que me aquecia o coração. Desses teus olhões que viam o mundo de outra forma.
Lembro-me repentinamente dos nossos serões à lareira, tu a ler o teu livro de cabeça apoiada no meu colo, toda intelectual, e eu a ver filmes sem som para não te incomodar. Dava tudo só por mais um dia. Só para poder voltar a sentir a tua cabeça quente contra a minha barriga. Para poder voltar a coçar-te a nuca e a afagar-te o cabelo até adormeceres no meu abraço. Para poder voltar a carregar-te nos braços escada acima, numa guerra para não deixar cair a manta com que te tapavas, e deitar-te na cama. Só para poder voltar a dar-te um último beijo de boa noite. Dava tudo... Tudo.
Demoro-me um bocado a olhar o céu.
Imagino que tenhas encontrado aí um lugar e que andes por aí aos pinotes, ligada à corrente, como boa pulga que sempre foste. A espalhar o teu riso aos ventos e a contagiar todas as outras estrelas com esse teu brilho. És o meu orgulho.
Onde quer que estejas, por favor sê feliz.
Com carinho, um beijo na testa do teu irmão que tanto te ama.
Parabéns, Miúda.
(P.s.: Por favor controla a chuva de perdigotos no bolo.)
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.com/2016/01/bittersweet-sixteen.html?m=1 ]
domingo, novembro 27, 2016
Sem Rasto
É bom ser-se sozinha.
O que eu não me lembrava é que é ainda melhor ter alguém e ser de alguém.
Há dois anos que eu não tinha ninguém. Dava demasiado valor a ter-me a mim mesma e não estava disposta a abdicar de metade de mim para qualquer pessoa. Longe iam os tempos em que perderia fôlego por apenas uns beijos e uns dias de diversão. Já não tenho a idade, nem tão-pouco a paciência. Mas com ele era diferente.
Havia qualquer coisa nele que mexia comigo. Que me cativava. De alguma forma, as palavras e os silêncios dele agitavam levemente as próprias fundações do meu ser. São precisos dois para dançar o tango e ele sabia dançar comigo. Com as minhas manias, as minhas virtudes e os meus defeitos. Escutava-me quando eu queria que me escutasse, respondia quando devia responder e sabia não falar quando, sem o dizer, eu me queria para mim própria. Escutava-me para me ouvir e não para me responder. E ouvindo, respondia-me em desafio, em profundidade, contra a superficialidade trivial da maioria das conversas de hoje. E ríamos; ríamos muito.
Voltei a sentir o sabor de poder ter e ser de alguém. A respiração no pescoço e o bater de outro coração no meu ouvido. O sorriso nervoso e as borboletas no estômago. Nunca fui de pieguices, mas pensei até para mim que talvez tivesse chocado por acidente com uma metade perdida da minha alma. Éramos diferentes, claro que éramos, mas éramos também muito iguais. E viajávamos muito, mesmo que só conversando.
Fazíamos planos de ir ver o mundo, de avião, de carro, de canoa e a pé. De ver mil e um pores-do-sol. De dançar à chuva. De ir ver as primeiras neves do Inverno, pelo Natal, e de desenhar nela anjos com os nossos corpos, como nos filmes. De desligarmos de toda a gente durante uma semana no campo e de rebolarmos como crianças por toda a extensão de prados verdes. De, a seu tempo, trocarmos alianças e de nos afirmarmos ao mundo, aos nossos e a Deus no altar. De construirmos a nossa casa e depois a nossa família. De termos a nossa própria árvore de natal.
Podia continuar. Mas nós, que viajámos tanto, perdemo-nos algures no caminho. Não sei onde, nem porquê. Num segundo seguíamos juntos e estavas lá, no outro seguiste por uma rua diferente e desapareceste de mim.
Sem explicações, sem rasto e com muitos sonhos meus.
O que eu não me lembrava é que é ainda melhor ter alguém e ser de alguém.
Há dois anos que eu não tinha ninguém. Dava demasiado valor a ter-me a mim mesma e não estava disposta a abdicar de metade de mim para qualquer pessoa. Longe iam os tempos em que perderia fôlego por apenas uns beijos e uns dias de diversão. Já não tenho a idade, nem tão-pouco a paciência. Mas com ele era diferente.
Havia qualquer coisa nele que mexia comigo. Que me cativava. De alguma forma, as palavras e os silêncios dele agitavam levemente as próprias fundações do meu ser. São precisos dois para dançar o tango e ele sabia dançar comigo. Com as minhas manias, as minhas virtudes e os meus defeitos. Escutava-me quando eu queria que me escutasse, respondia quando devia responder e sabia não falar quando, sem o dizer, eu me queria para mim própria. Escutava-me para me ouvir e não para me responder. E ouvindo, respondia-me em desafio, em profundidade, contra a superficialidade trivial da maioria das conversas de hoje. E ríamos; ríamos muito.
Voltei a sentir o sabor de poder ter e ser de alguém. A respiração no pescoço e o bater de outro coração no meu ouvido. O sorriso nervoso e as borboletas no estômago. Nunca fui de pieguices, mas pensei até para mim que talvez tivesse chocado por acidente com uma metade perdida da minha alma. Éramos diferentes, claro que éramos, mas éramos também muito iguais. E viajávamos muito, mesmo que só conversando.
Fazíamos planos de ir ver o mundo, de avião, de carro, de canoa e a pé. De ver mil e um pores-do-sol. De dançar à chuva. De ir ver as primeiras neves do Inverno, pelo Natal, e de desenhar nela anjos com os nossos corpos, como nos filmes. De desligarmos de toda a gente durante uma semana no campo e de rebolarmos como crianças por toda a extensão de prados verdes. De, a seu tempo, trocarmos alianças e de nos afirmarmos ao mundo, aos nossos e a Deus no altar. De construirmos a nossa casa e depois a nossa família. De termos a nossa própria árvore de natal.
Podia continuar. Mas nós, que viajámos tanto, perdemo-nos algures no caminho. Não sei onde, nem porquê. Num segundo seguíamos juntos e estavas lá, no outro seguiste por uma rua diferente e desapareceste de mim.
Sem explicações, sem rasto e com muitos sonhos meus.
segunda-feira, novembro 21, 2016
Maratonas
Eu prefiro maratonas.
Desde que aprendi a andar, desenvolvi depressa o gosto pela corrida. Primeiro por necessidade, para fugir ao caniche que teimava em perseguir-me pelos corredores de casa, e mais tarde para apanhar o autocarro no último minuto a caminho da escola, para aproveitar no limite o tempo que tinha para privar com a minha cama em pleno inverno. A velocidade era a chave, fosse para salvar a pele de uns dentes irritantemente afiados ou de um recado na caderneta da escola.
Com o tempo, a corrida ganhou outra consistência e outro peso na minha vida. Tornei-me num velocista nato: o prazer de ser o primeiro a cruzar a meta, fosse ela qual fosse, enchia-me as medidas. Os 100 metros, os 200 metros, os 400 e as barreiras. O sabor não vivia no trajecto, nos obstáculos ou nas condicionantes à volta; os meus olhos apontavam apenas para a linha final, para o objectivo, e o resto era fumo e nevoeiro que eu escolhia não ver por entre as passadas rápidas. Lançava-me de cabeça, com o sangue fervilhando a todo o vapor, e esticava-me no ar numa questão de segundos para agarrar o que houvesse para lá da meta. E era esse o meu amor pela corrida.
A coisa engraçada da idade é que muda a nossa perspectiva do mundo e das coisas. Começas a valorizar os pequenos detalhes. O bater do coração a cada metro, o comprimento da passada, o controlo da respiração e a gestão do cansaço, procurando a harmonia perfeita entre velocidade e resistência. Quando tomas o gosto pela corrida, queres é correr o máximo de tempo que puderes. Trocas a velocidade pelo fundo. O sprint pela maratona.
A linha final perde expressão e ser o primeiro deixa de ser objectivo. O teu objectivo passa a ser conseguir chegar até ela, até à meta, àquela mais longínqua e mais distante a que a maioria não chega. Triunfar quando os restantes ficam pelo caminho. Trabalhas a resistência em vez da velocidade. A paciência em vez da fúria. E de todas as vezes estabeleces para ti uma meta mais além, pelo desafio para contigo mesmo.
Eu prefiro maratonas.
De que outra forma teria fôlego para correr meio mundo até ti?
Desde que aprendi a andar, desenvolvi depressa o gosto pela corrida. Primeiro por necessidade, para fugir ao caniche que teimava em perseguir-me pelos corredores de casa, e mais tarde para apanhar o autocarro no último minuto a caminho da escola, para aproveitar no limite o tempo que tinha para privar com a minha cama em pleno inverno. A velocidade era a chave, fosse para salvar a pele de uns dentes irritantemente afiados ou de um recado na caderneta da escola.
Com o tempo, a corrida ganhou outra consistência e outro peso na minha vida. Tornei-me num velocista nato: o prazer de ser o primeiro a cruzar a meta, fosse ela qual fosse, enchia-me as medidas. Os 100 metros, os 200 metros, os 400 e as barreiras. O sabor não vivia no trajecto, nos obstáculos ou nas condicionantes à volta; os meus olhos apontavam apenas para a linha final, para o objectivo, e o resto era fumo e nevoeiro que eu escolhia não ver por entre as passadas rápidas. Lançava-me de cabeça, com o sangue fervilhando a todo o vapor, e esticava-me no ar numa questão de segundos para agarrar o que houvesse para lá da meta. E era esse o meu amor pela corrida.
A coisa engraçada da idade é que muda a nossa perspectiva do mundo e das coisas. Começas a valorizar os pequenos detalhes. O bater do coração a cada metro, o comprimento da passada, o controlo da respiração e a gestão do cansaço, procurando a harmonia perfeita entre velocidade e resistência. Quando tomas o gosto pela corrida, queres é correr o máximo de tempo que puderes. Trocas a velocidade pelo fundo. O sprint pela maratona.
A linha final perde expressão e ser o primeiro deixa de ser objectivo. O teu objectivo passa a ser conseguir chegar até ela, até à meta, àquela mais longínqua e mais distante a que a maioria não chega. Triunfar quando os restantes ficam pelo caminho. Trabalhas a resistência em vez da velocidade. A paciência em vez da fúria. E de todas as vezes estabeleces para ti uma meta mais além, pelo desafio para contigo mesmo.
Eu prefiro maratonas.
De que outra forma teria fôlego para correr meio mundo até ti?
sexta-feira, novembro 11, 2016
Não Cai Só Chuva do Céu
O chão e as paredes tremeram pela primeira vez.
Estava frio na cave; a electricidade já tinha ido abaixo e o inverno ríspido instalava-se-nos nos ossos. Sem luz nem radiador, a escuridão era interrompida apenas pela tímida nesga de luz que descia pela brecha de janela junto ao tecto. Apertava contra mim a minha mulher e os meus dois filhos, que tremiam como o chão e as paredes, enquanto nos envolvia no único cobertor que consegui encontrar.
Ninguém falava.
O meu pai costumava dizer-me em miúdo que o medo tem cheiro e que sempre que um Homem tem medo é possível senti-lo no ar. Ouvia-lhe agora a voz sussurrar-mo ao ouvido e prolongando-se na minha cabeça, tão claramente quanto há 30 anos atrás. Se na altura, em tenra idade, lhe tomei o conselho como incentivo a não demonstrar o medo, hoje reconhecia-lhe a razão. Cheirava-se efectivamente no ar. No nosso ar, na cave - na minha mulher, nos meus filhos e, Deus, até em mim -, e no ar lá fora, nas ruas desertas, nos pelotões de homens armados do Führer e nos carros blindados que patrulhavam a cidade a cada meia hora, nos latidos dos cães ao longe, nas caves atulhadas de famílias como a nossa e agora no chão e nas paredes que tremiam.
Além de nos cheirar o medo, eu era capaz de nos ouvir bater os corações, sem ritmo certo e cada vez mais fortes, como se quisessem saltar-nos do peito e esgueirar-se pela janela junto ao tecto para fugirem dali. Mas, embora não pudesse dizer-lhes nada quanto a isso, em especial aos dois miúdos que o negrume da cave já não me permitia ver, eu sabia que para nós era tarde demais.
O chão e as paredes tremeram segunda vez.
As bombas começaram a cair.
Estava frio na cave; a electricidade já tinha ido abaixo e o inverno ríspido instalava-se-nos nos ossos. Sem luz nem radiador, a escuridão era interrompida apenas pela tímida nesga de luz que descia pela brecha de janela junto ao tecto. Apertava contra mim a minha mulher e os meus dois filhos, que tremiam como o chão e as paredes, enquanto nos envolvia no único cobertor que consegui encontrar.
Ninguém falava.
O meu pai costumava dizer-me em miúdo que o medo tem cheiro e que sempre que um Homem tem medo é possível senti-lo no ar. Ouvia-lhe agora a voz sussurrar-mo ao ouvido e prolongando-se na minha cabeça, tão claramente quanto há 30 anos atrás. Se na altura, em tenra idade, lhe tomei o conselho como incentivo a não demonstrar o medo, hoje reconhecia-lhe a razão. Cheirava-se efectivamente no ar. No nosso ar, na cave - na minha mulher, nos meus filhos e, Deus, até em mim -, e no ar lá fora, nas ruas desertas, nos pelotões de homens armados do Führer e nos carros blindados que patrulhavam a cidade a cada meia hora, nos latidos dos cães ao longe, nas caves atulhadas de famílias como a nossa e agora no chão e nas paredes que tremiam.
Além de nos cheirar o medo, eu era capaz de nos ouvir bater os corações, sem ritmo certo e cada vez mais fortes, como se quisessem saltar-nos do peito e esgueirar-se pela janela junto ao tecto para fugirem dali. Mas, embora não pudesse dizer-lhes nada quanto a isso, em especial aos dois miúdos que o negrume da cave já não me permitia ver, eu sabia que para nós era tarde demais.
O chão e as paredes tremeram segunda vez.
As bombas começaram a cair.
terça-feira, novembro 08, 2016
Preto no Branco
Tiveste sorte.
Tiveste sorte de nascer num hospital. Tiveste sorte de ser criado num berço, debaixo de um tecto e rodeado de brinquedos. Tiveste sorte de ter roupa lavada. Tiveste sorte de ter roupa. Tiveste sorte de ter sapatos. Tiveste sorte de não saber o que é o frio. Tiveste sorte de não saber o que é ter os pés massacrados pelo chão que pisas.
Tiveste sorte de ter comida no prato três vezes por dia. Tiveste sorte de ter comida no prato. Tiveste sorte de ter prato. Tiveste a sorte de saber o que é comida. Tiveste sorte de não saber o que é a fome. Tiveste sorte de saber o que é a água e de não saber o que é a sede quando o sol te come a pele aos poucos.
Tiveste sorte de ser visto. Tiveste sorte de ter voz e ser ouvido. Tiveste sorte de ter direito a uma opinião. Tiveste sorte de pertencer, de ser parte. Tiveste sorte de ter um emprego. Tiveste sorte de ter um serviço de saúde. Tiveste sorte de ver crescer saudáveis os teus filhos. Tiveste sorte de ver crescer os teus filhos. Tiveste sorte de poder viver os teus sonhos. Tiveste sorte de poder ver o mundo com todas as cores.
Mas não és capaz de ver que o teu mundo de sorte só vê a duas cores: preto e branco.
Eu sou o preto.
E tu tiveste sorte.
Tiveste sorte de nascer num hospital. Tiveste sorte de ser criado num berço, debaixo de um tecto e rodeado de brinquedos. Tiveste sorte de ter roupa lavada. Tiveste sorte de ter roupa. Tiveste sorte de ter sapatos. Tiveste sorte de não saber o que é o frio. Tiveste sorte de não saber o que é ter os pés massacrados pelo chão que pisas.
Tiveste sorte de ter comida no prato três vezes por dia. Tiveste sorte de ter comida no prato. Tiveste sorte de ter prato. Tiveste a sorte de saber o que é comida. Tiveste sorte de não saber o que é a fome. Tiveste sorte de saber o que é a água e de não saber o que é a sede quando o sol te come a pele aos poucos.
Tiveste sorte de ser visto. Tiveste sorte de ter voz e ser ouvido. Tiveste sorte de ter direito a uma opinião. Tiveste sorte de pertencer, de ser parte. Tiveste sorte de ter um emprego. Tiveste sorte de ter um serviço de saúde. Tiveste sorte de ver crescer saudáveis os teus filhos. Tiveste sorte de ver crescer os teus filhos. Tiveste sorte de poder viver os teus sonhos. Tiveste sorte de poder ver o mundo com todas as cores.
Mas não és capaz de ver que o teu mundo de sorte só vê a duas cores: preto e branco.
Eu sou o preto.
E tu tiveste sorte.
sábado, outubro 29, 2016
Quando Todo o Tempo é Pouco
Recordo-me do vulto súbito no meio da estrada, da guinada no volante e do chiar agressivo dos pneus... Num segundo fazíamos um agradável passeio nocturno, no outro despistávamo-nos para fora da estrada, contra o tronco de uma árvore. Um ribombar nos meus ouvidos e em todos os ossos do meu corpo. E depois silêncio.
Aos poucos recuperei a lucidez. Mexi os dedos dos pés à cautela. As dores em todo o corpo - e em especial no pescoço, no sufoco de um colar cervical - acordavam-me numa tortura lenta, ao som de um apito compassado, agudo e robótico. Tentei abrir os olhos logo que retomei o controlo de mim, mas o ardor era tal que desisti da ideia em menos de meio segundo.
Demorei a perceber que estava num hospital. Depois estranhei o colar, as ligaduras, os fios em que estava envolto, o catéter enfiado no meu braço e por fim as próprias dores. Juntei as peças e então recordei o veado na estrada e o nosso acidente... E então pensei nela.
Foi nesse preciso instante que o meu ouvido registou a primeira coisa para além dos bips que me martelavam a cabeça, de um médico para outro: "as lesões na medula são irreversíveis". Não, não, não!, esperem lá... "Confirmaram os resultados?", continuaram eles. Sentia partidos todos os ossos das minhas mãos, dentro das talas metálicas, mas cerrei os maxilares e os olhos com toda a força e cruzei mentalmente os dedos para nos desejar sorte. Talvez estivessem enganados. "Confirmámos, Doutor. Ela não tornará a andar." Ouvi bem. Sim, ouvi bem... Ela, a minha Ela, não voltará a andar.
Recuei no tempo sem mais nem ontem, sentindo já uma lágrima, dez lágrimas, a deslizar-me pela cara. Conheci-a aos 24, aquela doçura de miúda. Iniciámos o namoro aos 25, de borboletas na barriga, casámos aos 27, ela absolutamente magnífica, e aos 28, enquanto falávamos de ter um primeiro filho, tivemos um acidente de carro.
O tempo pára à tua volta e a tua bússola genética perde o norte e gira mil vezes sobre ti mesmo, para no fim te dizer que não sabe que caminho deves seguir. O teu mundo desaba pedra sobre pedra ao teu lado e tu nem consegues ouvi-lo ruir. Mas tens, queira Deus que te salvou desta, pelo menos quarenta anos pela frente e a tua mulher nunca mais voltará a andar.
Consegui abrir os olhos finalmente, para na cama ao lado encontrar os dela, já em lágrimas, postos em mim. Li-lhe neles quase um pedido de desculpas, como se houvesse nela qualquer tipo de culpa ou ressentimento. Como se não tivesse sido eu a virar o volante e a atirar-nos para estas camas de hospital e ela para uma cadeira de rodas para o resto da vida dela.
Lembro o nosso casamento como se tivesse sido não ontem, mas hoje de manhã. Lembro as alianças que trocámos, a aliança que lhe pus no dedo no dia mais feliz da minha vida. Lembro os votos dela, lembro os meus votos. E lembro que, ao enlaçar nela o meu amor, me comprometi com ela na saúde e na doença, até que a morte nos separe.
Então estendi-lhe a mão, apertei a dela nas minhas talas e abafando um grunhido de dor abanei a cabeça. Daqui não saio. Daqui não saio e carregar-te-ei para onde quiseres ir, até que as minhas peles se me engelhem na cara e no corpo e me faltem as forças. Dar-te-ei banho, pequeno-almoço, almoço e jantar, dentro e fora, e todo o amor em excesso que tenho para te dar, até que também eu, já de velho, deixe de poder andar.
E aí teremos todo o tempo do mundo.
Aos poucos recuperei a lucidez. Mexi os dedos dos pés à cautela. As dores em todo o corpo - e em especial no pescoço, no sufoco de um colar cervical - acordavam-me numa tortura lenta, ao som de um apito compassado, agudo e robótico. Tentei abrir os olhos logo que retomei o controlo de mim, mas o ardor era tal que desisti da ideia em menos de meio segundo.
Demorei a perceber que estava num hospital. Depois estranhei o colar, as ligaduras, os fios em que estava envolto, o catéter enfiado no meu braço e por fim as próprias dores. Juntei as peças e então recordei o veado na estrada e o nosso acidente... E então pensei nela.
Foi nesse preciso instante que o meu ouvido registou a primeira coisa para além dos bips que me martelavam a cabeça, de um médico para outro: "as lesões na medula são irreversíveis". Não, não, não!, esperem lá... "Confirmaram os resultados?", continuaram eles. Sentia partidos todos os ossos das minhas mãos, dentro das talas metálicas, mas cerrei os maxilares e os olhos com toda a força e cruzei mentalmente os dedos para nos desejar sorte. Talvez estivessem enganados. "Confirmámos, Doutor. Ela não tornará a andar." Ouvi bem. Sim, ouvi bem... Ela, a minha Ela, não voltará a andar.
Recuei no tempo sem mais nem ontem, sentindo já uma lágrima, dez lágrimas, a deslizar-me pela cara. Conheci-a aos 24, aquela doçura de miúda. Iniciámos o namoro aos 25, de borboletas na barriga, casámos aos 27, ela absolutamente magnífica, e aos 28, enquanto falávamos de ter um primeiro filho, tivemos um acidente de carro.
O tempo pára à tua volta e a tua bússola genética perde o norte e gira mil vezes sobre ti mesmo, para no fim te dizer que não sabe que caminho deves seguir. O teu mundo desaba pedra sobre pedra ao teu lado e tu nem consegues ouvi-lo ruir. Mas tens, queira Deus que te salvou desta, pelo menos quarenta anos pela frente e a tua mulher nunca mais voltará a andar.
Consegui abrir os olhos finalmente, para na cama ao lado encontrar os dela, já em lágrimas, postos em mim. Li-lhe neles quase um pedido de desculpas, como se houvesse nela qualquer tipo de culpa ou ressentimento. Como se não tivesse sido eu a virar o volante e a atirar-nos para estas camas de hospital e ela para uma cadeira de rodas para o resto da vida dela.
Lembro o nosso casamento como se tivesse sido não ontem, mas hoje de manhã. Lembro as alianças que trocámos, a aliança que lhe pus no dedo no dia mais feliz da minha vida. Lembro os votos dela, lembro os meus votos. E lembro que, ao enlaçar nela o meu amor, me comprometi com ela na saúde e na doença, até que a morte nos separe.
Então estendi-lhe a mão, apertei a dela nas minhas talas e abafando um grunhido de dor abanei a cabeça. Daqui não saio. Daqui não saio e carregar-te-ei para onde quiseres ir, até que as minhas peles se me engelhem na cara e no corpo e me faltem as forças. Dar-te-ei banho, pequeno-almoço, almoço e jantar, dentro e fora, e todo o amor em excesso que tenho para te dar, até que também eu, já de velho, deixe de poder andar.
E aí teremos todo o tempo do mundo.
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