Aprendes aos poucos que a idade não passa de um número, mais curto, mais longo, mais esguio, mais redondo. Aprendes que nada mais é do que um marcador de livros no teu caminho na vida, para que não esqueças a quantidade de páginas que escreveste, a quantidade de dias que respiraste.
Aprendes aos poucos o conceito de idade mental, idade intelectual. Aprendes, arrisco-me, o conceito de idade emocional. E aprendes que essas, essa em particular, não se mede em blocos de dias que vais saltando; que a idade emocional não existe em ti como o marcador de livros que regista o volume de páginas da tua vida, mas sim como o luxímetro que regista a intensidade de luz dessas tuas páginas.
Pára agora um pouco. Se olhares atentamente em teu redor - e em especial para o teu interior, para onde é mais importante olhar - depressa aprenderás essa lição. Não tardarás também a perceber que este mesmo luxímetro, que conta os teus anos emocionais, mede a luz dos teus dias, mas também a ausência dela. A sua escuridão. E que é a escuridão dos dias que vives que mais pesa na tua idade emocional.
Poderei segredar-te agora que hoje fiz mais um ano emocional.
Há uma série de coisas que mudam a tua perspectiva sobre a vida. Uma delas é acordares um dia e o teu pai ter cancro.
É acordares um dia sabendo que a pessoa que desde que nasceste te serviu de exemplo, de pilar de valores, de primeiro professor, de escudo, de teu modelo, tua imagem e teu reflexo, tem os dias (ainda curtos) contados. É acordares um dia sabendo que passaram 25 anos em que ele foi tudo isso para ti - e quanto mais...! -, sem te pedir nada em troca. E é acordares apercebendo-te de que provavelmente nunca antes, até hoje, lho reconheceste e nunca antes soubeste dar-lhe a devida palavra de apreço. O devido Obrigado. Ou quiçá o devido silêncio de um abraço sentido. E é ainda pensares que, para além de já com isso em falta, provavelmente foste injusto com ele tantas vezes, e quantas delas sem razão sequer.
É nesta sombra que se estende sobre o teu dia e se alastra sobre ti que tiras involuntariamente uns minutos para reflectir sobre a ordem das coisas. Sobre a lógica e a justiça dos acontecimentos, a filosofia da vida e a emoção de se Ser e de se Sentir. E aí, debruçado sobre ti mesmo, em harmonia com a pouca luz do teu dia, encontras um novo pedaço de ti e cresces um bocadinho.
O dia não ganha mais luz por isso. Claro que não. Mas tu aprendeste, aprendeste-te e melhoraste-te. Cresceste emocionalmente e passaste a saber lidar de uma melhor forma com a parca luz dos teus dias. Eu cresci. E comprometi-me por isso, nos dias que lhe são contados, a fazê-lo saber tudo o que não o fiz saber nos últimos 25 anos. Comprometi-me a sair daqui agora e, nos dias que lhe são contados, a fazê-los valer a pena.
Amo-te, já com saudade.
quarta-feira, julho 12, 2017
quinta-feira, junho 22, 2017
Cor da Cegueira
Deixei de ver com 20 anos.
Hoje, com 25, aprendi a pintar o meu mundo imaginário com as minhas cores. Com cores que, enquanto via, enquanto tive a bênção e o dom da visão, nem sequer sonhava existirem.
O teu problema é que nunca foste cego. Nunca soubeste o que é abrir as pálpebras e não haver luz para lá dos teus olhos. Não haver dia, não haver cor. E não haver nem céu nem mar. Não haver mais o rosto de alguém para quem um dia amaste olhar.
Nunca soubeste o que é esta escuridão de quem divaga livre mas preso na prisão infinita da mente. A prisão de quem não vê, mas tudo sente.
E porque nunca foste cego, nunca foste capaz de ver para além dos olhos ou de sentir para além do tacto. Para além dos instintos básicos e primários que florescem em ti através do que vês e do que tocas. E para ti, para quem é essa a realidade do mundo e a cor da vida, isso é tudo o que conheces e tudo quanto baste. É essa a tua paleta de cores. E por isso eu aceito que não compreendas a obra de arte que desenhei para mim no meu mundo às escuras, sem luz nem cor.
A verdade é que aprendi nestes cinco anos a apreciar a minha escuridão, esta cortina de sombra que me separou do que antes via. E não querendo parecer presunçoso, hoje sinto que, sem ver, vejo perfeitamente. Hoje sei que a tua visão imaculada é na verdade um daltonismo grave, acromático, oscilando num espectro pobre e neutro de pretos e brancos. E a culpa não é tua, porque foi assim que te ensinaram a ver. É assim que o mundo vê.
E então era isso que hoje queria partilhar contigo. As verdadeiras cores da vida - e, sobretudo, das pessoas - estão muito para lá daquilo que vês e daquilo que tocas. Atreve-te a ver mais do que apenas caras e corpos. Atreve-te a tocar mais do que apenas pele. Atreve-te e vê por exemplo a forma como ela olha para ti. Vê como lhe gela a respiração quando tem medo e procura segurança em ti. Vê como a consome a saudade da tua presença. Vê como são salgadas as lágrimas que chora quando está magoada. Vê como treme quando tem frio e como se lhe acalma a pulsação quando se comprime contra o calor do teu peito. Vê como lhe fervilha o sangue de emoção quando estás por perto. Vê como soa o riso tímido dela quando está feliz. Vê a graciosidade do sorriso dela quando te aperta nos seus braços e a musicalidade da sua voz quando te fala ao ouvido. Vê como canta a melodia do seu coração. Vê. Atreve-te e vê.
Atreve-te e vê com todos os teus sentidos como lhe dança a alma.
E nesse dia saberás o que é ser cego como eu.
Hoje, com 25, aprendi a pintar o meu mundo imaginário com as minhas cores. Com cores que, enquanto via, enquanto tive a bênção e o dom da visão, nem sequer sonhava existirem.
O teu problema é que nunca foste cego. Nunca soubeste o que é abrir as pálpebras e não haver luz para lá dos teus olhos. Não haver dia, não haver cor. E não haver nem céu nem mar. Não haver mais o rosto de alguém para quem um dia amaste olhar.
Nunca soubeste o que é esta escuridão de quem divaga livre mas preso na prisão infinita da mente. A prisão de quem não vê, mas tudo sente.
E porque nunca foste cego, nunca foste capaz de ver para além dos olhos ou de sentir para além do tacto. Para além dos instintos básicos e primários que florescem em ti através do que vês e do que tocas. E para ti, para quem é essa a realidade do mundo e a cor da vida, isso é tudo o que conheces e tudo quanto baste. É essa a tua paleta de cores. E por isso eu aceito que não compreendas a obra de arte que desenhei para mim no meu mundo às escuras, sem luz nem cor.
A verdade é que aprendi nestes cinco anos a apreciar a minha escuridão, esta cortina de sombra que me separou do que antes via. E não querendo parecer presunçoso, hoje sinto que, sem ver, vejo perfeitamente. Hoje sei que a tua visão imaculada é na verdade um daltonismo grave, acromático, oscilando num espectro pobre e neutro de pretos e brancos. E a culpa não é tua, porque foi assim que te ensinaram a ver. É assim que o mundo vê.
E então era isso que hoje queria partilhar contigo. As verdadeiras cores da vida - e, sobretudo, das pessoas - estão muito para lá daquilo que vês e daquilo que tocas. Atreve-te a ver mais do que apenas caras e corpos. Atreve-te a tocar mais do que apenas pele. Atreve-te e vê por exemplo a forma como ela olha para ti. Vê como lhe gela a respiração quando tem medo e procura segurança em ti. Vê como a consome a saudade da tua presença. Vê como são salgadas as lágrimas que chora quando está magoada. Vê como treme quando tem frio e como se lhe acalma a pulsação quando se comprime contra o calor do teu peito. Vê como lhe fervilha o sangue de emoção quando estás por perto. Vê como soa o riso tímido dela quando está feliz. Vê a graciosidade do sorriso dela quando te aperta nos seus braços e a musicalidade da sua voz quando te fala ao ouvido. Vê como canta a melodia do seu coração. Vê. Atreve-te e vê.
Atreve-te e vê com todos os teus sentidos como lhe dança a alma.
E nesse dia saberás o que é ser cego como eu.
terça-feira, maio 30, 2017
Tu em Mim
Não sei entender-te em mim.
É estranho não falarmos há tanto e tu visitares-me uma vez por outra nos meus sonhos. Tu ali, bem presente, bem quente, sensual no teu jeito miúdo e inocente, a fitar-me com esse teu sorriso audaz e tímido ao mesmo tempo. E é uma porra que seja só nos meus sonhos. Que seja só nos meus sonhos que te vejo, que te toco e que te beijo. É uma porra, porque de bom grado eu passava o resto dos meus dias amando-te, uma e outra vez, e outra vez ainda, de todas as vezes.
Mais estranho que tudo isso, que não sei de que fumo vem entre os meus sonhos, é acordar depois de ti e sentir ainda no ar o teu perfume. O teu nome e a doce imagem de ti rodopiando-me na cabeça; o teu perfume não menos doce rodopiando no ar, dançando à minha volta e entrelaçando-se em mim. Senti-o de manhã quando o dia me arrancou de ti e sinto-o ainda agora, aqui bem perto, arrancando-me também de mim.
Não sei se me estás na cabeça, se me estás na roupa que visto, nos lençóis onde me deito ou no ar que respiro, mas estás aqui sem estar e isso enlouquece-me como eu não te sei explicar. Mas é de loucos e na minha loucura eu tomo consciência de quão louco sou por ti. E é loucura mesmo, por mais que auto-diagnosticada, porque sinto hoje a tua falta sem nunca te ter tido.
E no entanto, loucuras à parte, estou louco por me deitar de novo, por adormecer de novo, na esperança do reencontro; na ânsia de que regresses do fumo à minha vida, só para ter mais um vislumbre do teu rosto (e, não querendo falar de novo dele, do teu sorriso que não tenho como esquecer), só para viver intensamente mais cinco minutos da nossa relação imaginária e do nosso amor proibido. Só para amanhã te sentir de novo no ar e em mim, na pele, nos pulmões e no coração, ardendo. Só para reviver e padecer só por mais um dia da loucura agridoce que é querer-te e que é ter-te sem te ter.
É estranho não falarmos há tanto e tu visitares-me uma vez por outra nos meus sonhos. Tu ali, bem presente, bem quente, sensual no teu jeito miúdo e inocente, a fitar-me com esse teu sorriso audaz e tímido ao mesmo tempo. E é uma porra que seja só nos meus sonhos. Que seja só nos meus sonhos que te vejo, que te toco e que te beijo. É uma porra, porque de bom grado eu passava o resto dos meus dias amando-te, uma e outra vez, e outra vez ainda, de todas as vezes.
Mais estranho que tudo isso, que não sei de que fumo vem entre os meus sonhos, é acordar depois de ti e sentir ainda no ar o teu perfume. O teu nome e a doce imagem de ti rodopiando-me na cabeça; o teu perfume não menos doce rodopiando no ar, dançando à minha volta e entrelaçando-se em mim. Senti-o de manhã quando o dia me arrancou de ti e sinto-o ainda agora, aqui bem perto, arrancando-me também de mim.
Não sei se me estás na cabeça, se me estás na roupa que visto, nos lençóis onde me deito ou no ar que respiro, mas estás aqui sem estar e isso enlouquece-me como eu não te sei explicar. Mas é de loucos e na minha loucura eu tomo consciência de quão louco sou por ti. E é loucura mesmo, por mais que auto-diagnosticada, porque sinto hoje a tua falta sem nunca te ter tido.
E no entanto, loucuras à parte, estou louco por me deitar de novo, por adormecer de novo, na esperança do reencontro; na ânsia de que regresses do fumo à minha vida, só para ter mais um vislumbre do teu rosto (e, não querendo falar de novo dele, do teu sorriso que não tenho como esquecer), só para viver intensamente mais cinco minutos da nossa relação imaginária e do nosso amor proibido. Só para amanhã te sentir de novo no ar e em mim, na pele, nos pulmões e no coração, ardendo. Só para reviver e padecer só por mais um dia da loucura agridoce que é querer-te e que é ter-te sem te ter.
sexta-feira, março 17, 2017
Folhas de Papel
Expliquei-te há três dias ao almoço, entre duas fatias gordas de sashimi, que acredito nas energias do Universo. Tu, claro, riste-te.
A coisa é que fazia nesse dia um ano que te falei da minha avó. A minha avó falecida, a minha avó professora de desenho, a minha avó que, como um desenho, via a Vida sem contornos. Um ano. E, nem a propósito, nesse dia tornei a sonhar com ela.
Estávamos de volta ao alpendre dela. Não sei se foi de facto aí que aconteceu ou se é já a mente pregando em mim partidas, mas ali estávamos os dois. Desta vez, era eu quem ocupava a cadeira de baloiço dela. Ela, por seu turno, bebericava o seu chá na mesinha de madeira, com um pôr-do-sol alaranjado recostando-se lá ao longe.
Via-me a mim próprio girar entre os dedos das mãos mais um desenho; para mim mais uma tentativa falhada da perfeição que procurava atingir, à minha pequena medida. Então vi-me a amachucar bruscamente o desenho numa bola desajeitada, num súbito acesso de fúria e frustração, e a pô-lo de parte na minha colecção de fracassos.
"Tomás...", murmurou-me naquele tom sempre impávido e sereno, detendo-se para soprar o seu chá quente. Pensei para comigo que se avizinhava um raspanete sobre o gasto de papel e as árvores mortas; em vez disso, a minha avó soprou-me uma daquelas coisas sem sentido que eu não tinha como entender. "... cada desenho que atiras para o chão é uma parte de ti que deitas fora."
Senti um silêncio esquisito em mim, como se aquela frase tivesse interrompido as sinapses no meu cérebro. E ela deve ter-se apercebido disso mesmo pela minha expressão, sentindo-se então na obrigação de rematar aquilo com um "Nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel."
Não ajudou em muito a minha causa.
"Porque amachucas e deitas fora os teus desenhos?", insistiu ela, depois de um trago de chá. Ora, que pergunta... Encolhi os ombros, achando óbvia a resposta: "Porque não estavam bem." Aí ela questionou-me o que significava para mim os desenhos não estarem bem. Desta vez o meu cérebro não parou, mas revolveu-se; eram duas perguntas fáceis de seguida e a minha avó nunca fazia isso. Então eu percebi que ela não precisava de mim para descobrir a resposta, mas sim que queria que eu pensasse nela. Mais ainda, queria que eu entendesse isto mesmo antes de lhe dar a resposta final, para que repensasse e remoesse o assunto para além do óbvio.
Conferenciei com os meus botões, o meu olhar alternando entre o meu vazio, o pôr-do-sol lá atrás e as mil folhas amachucadas no chão, e inspirei toda a sabedoria que pairava no ar para, no lugar de um "Significa que estão feios" ou de um "Significa que estão tortos", lhe responder que não estava a conseguir reproduzir aquilo que idealizava. Soube pelo sorriso sorrateiro dela que era aquela a resposta que ela procurava.
"É quando fazes um traço torto e te apercebes de que ele está torto que te corriges e passas a fazê-lo direito. Cada traço errado ensina-te um traço certo. Cada borrão com a mão sobre o carvão do lápis ensina-te a levantar a mão e a cuidar do teu desenho. Como degraus, cada erro teu ensina-te a chegar mais perto do que idealizas aqui", disse-me, tamborilando com o dedo na sua cabeça. "Então, em tudo na tua vida, não podes ter um sem ter o outro. O certo sem o errado. O sucesso sem o fracasso. E tens, por isso, de guardá-los para ti ao mesmo nível, lado a lado, com o mesmo carinho."
Dei por mim a recolher do chão todas as bolas de papel que havia espalhado pelo alpendre durante aquela tarde. Coloquei-as a todas no meu colo, voltando a baloiçar-me na cadeira. A minha avó acenou em aprovação.
"Esses são os teus erros e os teus defeitos. E são erros e defeitos bonitos; não os amachuques. Agarra-os, abraça-os e trata-os bem, pois são eles que fazem de ti quem és. Ah!, e mais..." A minha avó esperou que eu olhasse de novo para ela. "... Trata bem também os erros e os defeitos dos teus amigos, porque nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel...
Comigo de olhos nela, a minha avó desembrulhou uma das minhas bolas de papel, que ela própria tinha apanhado do chão sem que eu desse conta.
"E quando amachucamos uma folha de papel, ela nunca mais volta ao sítio."
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.pt/2016/03/contornos.html?m=1 ]
A coisa é que fazia nesse dia um ano que te falei da minha avó. A minha avó falecida, a minha avó professora de desenho, a minha avó que, como um desenho, via a Vida sem contornos. Um ano. E, nem a propósito, nesse dia tornei a sonhar com ela.
Estávamos de volta ao alpendre dela. Não sei se foi de facto aí que aconteceu ou se é já a mente pregando em mim partidas, mas ali estávamos os dois. Desta vez, era eu quem ocupava a cadeira de baloiço dela. Ela, por seu turno, bebericava o seu chá na mesinha de madeira, com um pôr-do-sol alaranjado recostando-se lá ao longe.
Via-me a mim próprio girar entre os dedos das mãos mais um desenho; para mim mais uma tentativa falhada da perfeição que procurava atingir, à minha pequena medida. Então vi-me a amachucar bruscamente o desenho numa bola desajeitada, num súbito acesso de fúria e frustração, e a pô-lo de parte na minha colecção de fracassos.
"Tomás...", murmurou-me naquele tom sempre impávido e sereno, detendo-se para soprar o seu chá quente. Pensei para comigo que se avizinhava um raspanete sobre o gasto de papel e as árvores mortas; em vez disso, a minha avó soprou-me uma daquelas coisas sem sentido que eu não tinha como entender. "... cada desenho que atiras para o chão é uma parte de ti que deitas fora."
Senti um silêncio esquisito em mim, como se aquela frase tivesse interrompido as sinapses no meu cérebro. E ela deve ter-se apercebido disso mesmo pela minha expressão, sentindo-se então na obrigação de rematar aquilo com um "Nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel."
Não ajudou em muito a minha causa.
"Porque amachucas e deitas fora os teus desenhos?", insistiu ela, depois de um trago de chá. Ora, que pergunta... Encolhi os ombros, achando óbvia a resposta: "Porque não estavam bem." Aí ela questionou-me o que significava para mim os desenhos não estarem bem. Desta vez o meu cérebro não parou, mas revolveu-se; eram duas perguntas fáceis de seguida e a minha avó nunca fazia isso. Então eu percebi que ela não precisava de mim para descobrir a resposta, mas sim que queria que eu pensasse nela. Mais ainda, queria que eu entendesse isto mesmo antes de lhe dar a resposta final, para que repensasse e remoesse o assunto para além do óbvio.
Conferenciei com os meus botões, o meu olhar alternando entre o meu vazio, o pôr-do-sol lá atrás e as mil folhas amachucadas no chão, e inspirei toda a sabedoria que pairava no ar para, no lugar de um "Significa que estão feios" ou de um "Significa que estão tortos", lhe responder que não estava a conseguir reproduzir aquilo que idealizava. Soube pelo sorriso sorrateiro dela que era aquela a resposta que ela procurava.
"É quando fazes um traço torto e te apercebes de que ele está torto que te corriges e passas a fazê-lo direito. Cada traço errado ensina-te um traço certo. Cada borrão com a mão sobre o carvão do lápis ensina-te a levantar a mão e a cuidar do teu desenho. Como degraus, cada erro teu ensina-te a chegar mais perto do que idealizas aqui", disse-me, tamborilando com o dedo na sua cabeça. "Então, em tudo na tua vida, não podes ter um sem ter o outro. O certo sem o errado. O sucesso sem o fracasso. E tens, por isso, de guardá-los para ti ao mesmo nível, lado a lado, com o mesmo carinho."
Dei por mim a recolher do chão todas as bolas de papel que havia espalhado pelo alpendre durante aquela tarde. Coloquei-as a todas no meu colo, voltando a baloiçar-me na cadeira. A minha avó acenou em aprovação.
"Esses são os teus erros e os teus defeitos. E são erros e defeitos bonitos; não os amachuques. Agarra-os, abraça-os e trata-os bem, pois são eles que fazem de ti quem és. Ah!, e mais..." A minha avó esperou que eu olhasse de novo para ela. "... Trata bem também os erros e os defeitos dos teus amigos, porque nós somos muito como os desenhos e as folhas de papel...
Comigo de olhos nela, a minha avó desembrulhou uma das minhas bolas de papel, que ela própria tinha apanhado do chão sem que eu desse conta.
"E quando amachucamos uma folha de papel, ela nunca mais volta ao sítio."
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.pt/2016/03/contornos.html?m=1 ]
terça-feira, fevereiro 14, 2017
Super-Heróis
É quase engraçada a noção que não temos acerca do mundo que nos rodeia. Do mundo das pessoas que nos rodeiam.
Sentas-te todos os dias ao lado dela, trocam todas as manhãs um "bom dia" ainda em sono, comem à mesma mesa, discutem problemas e soluções no trabalho, riem juntos. E no entanto tu não tens nem noção do que é ser ela e de quem é realmente essa pessoa ao lado de quem te sentas diariamente, com quem trocas cumprimentos pela manhã, com quem almoças, com quem trabalhas e com quem ao fim do dia bebes um fino no café ali ao virar da esquina.
Ela não mostra; ela não deixa que transpareça uma nesga que seja. Por debaixo daquela energia e felicidade genuína, de ferro, ela não verga. Antes, opta por focar-se no trabalho dela e por focar-se muito em ti, no teu bem-estar a cada instante, ainda que subtilmente para que tu não te apercebas. Mas deixa-me que te conte:
Perdeu recentemente a Mãe, Mãe com M grande, do tamanho da falta que uma mãe faz. Muito antes de tempo, foi o pilar de uma casa de 4 que desabou, assim de súbito. E no ar ficou só o eco do estrondo. Depois, o silêncio da ausência.
No aperto, sem dar tempo ao tempo e tempo à ferida para sarar, o único irmão dela escolheu um caminho de vida que em muito se afastou do dela e do pai, deixando-os aos dois segurando a custo o telhado trémulo e instável daquela casa que dias antes fora um lar.
Como uma desgraça nunca vem só, pouco tardou para que o pai dela visse o seu emprego escapar-lhe por entre os dedos. O fruto do esforço de uma vida ser-lhe arrancado à força das mãos e do corpo; o sustento de uma casa e de uma família ser-lhe tirado sem mais dos bolsos, esfumando-se da noite para o dia.
E assim sobrou ela. Ela sem Mãe, ela sem irmão, ela sem um ordenado que pague uma casa e ainda sustente três. Ela que acabou de sair da faculdade e que ao final do mês não ganha mais que tu. Ela que de repente passou de filha com tudo para segunda mãe sem nada.
Então provou-se à prova de bala e agarrou-se como pôde às rédeas da loucura em que se tornou a vida dela. Aos 23 anos, a seu custo e sacrifício, pôs a mochila às costas e a responsabilidade aos ombros e saiu porta fora para sozinha ir atrás da solução dos problemas de todos.
E é aí que ela se encontra de momento. Sentada ao teu lado, dizendo-te bom dia todas as manhãs de sorriso bem rasgado, almoçando à tua frente, dissecando todos os detalhes do vosso trabalho e bebendo estoicamente um fino ao final do dia, para te dar a oportunidade de seres ouvido, de partilhares os teus "problemas" e de te sentires reconfortado.
Mas tu não tens nem noção.
Sentas-te todos os dias ao lado dela, trocam todas as manhãs um "bom dia" ainda em sono, comem à mesma mesa, discutem problemas e soluções no trabalho, riem juntos. E no entanto tu não tens nem noção do que é ser ela e de quem é realmente essa pessoa ao lado de quem te sentas diariamente, com quem trocas cumprimentos pela manhã, com quem almoças, com quem trabalhas e com quem ao fim do dia bebes um fino no café ali ao virar da esquina.
Ela não mostra; ela não deixa que transpareça uma nesga que seja. Por debaixo daquela energia e felicidade genuína, de ferro, ela não verga. Antes, opta por focar-se no trabalho dela e por focar-se muito em ti, no teu bem-estar a cada instante, ainda que subtilmente para que tu não te apercebas. Mas deixa-me que te conte:
Perdeu recentemente a Mãe, Mãe com M grande, do tamanho da falta que uma mãe faz. Muito antes de tempo, foi o pilar de uma casa de 4 que desabou, assim de súbito. E no ar ficou só o eco do estrondo. Depois, o silêncio da ausência.
No aperto, sem dar tempo ao tempo e tempo à ferida para sarar, o único irmão dela escolheu um caminho de vida que em muito se afastou do dela e do pai, deixando-os aos dois segurando a custo o telhado trémulo e instável daquela casa que dias antes fora um lar.
Como uma desgraça nunca vem só, pouco tardou para que o pai dela visse o seu emprego escapar-lhe por entre os dedos. O fruto do esforço de uma vida ser-lhe arrancado à força das mãos e do corpo; o sustento de uma casa e de uma família ser-lhe tirado sem mais dos bolsos, esfumando-se da noite para o dia.
E assim sobrou ela. Ela sem Mãe, ela sem irmão, ela sem um ordenado que pague uma casa e ainda sustente três. Ela que acabou de sair da faculdade e que ao final do mês não ganha mais que tu. Ela que de repente passou de filha com tudo para segunda mãe sem nada.
Então provou-se à prova de bala e agarrou-se como pôde às rédeas da loucura em que se tornou a vida dela. Aos 23 anos, a seu custo e sacrifício, pôs a mochila às costas e a responsabilidade aos ombros e saiu porta fora para sozinha ir atrás da solução dos problemas de todos.
E é aí que ela se encontra de momento. Sentada ao teu lado, dizendo-te bom dia todas as manhãs de sorriso bem rasgado, almoçando à tua frente, dissecando todos os detalhes do vosso trabalho e bebendo estoicamente um fino ao final do dia, para te dar a oportunidade de seres ouvido, de partilhares os teus "problemas" e de te sentires reconfortado.
Mas tu não tens nem noção.
terça-feira, janeiro 17, 2017
Viagem ao Centro de Mim
Tenho a sina de não desligar.
A sina de viajar em mim dez mil léguas sem sair do mesmo lugar.
Quando a chuva me bate à porta e contra as janelas, então, saio de mim sem aviso, ainda de olhos abertos, e sou sugado para um qualquer recanto do mundo, atirado para dentro de um comboio a vapor sem rumo certo. E no entanto, embora sem destino traçado, todas as paragens são paragens de ti, no teu tempo, nos teus tempos, numa linha cronológica difusa.
A certeza dos dias é nevoeiro na minha mente, relegada sem intenção para um canto longínquo de mim. Mas conheço bem as paisagens. Sei-as de cor, como se as respirasse hoje mesmo. Sei de cor os montes e os prados sem fim, as sombras das árvores solitárias, a frágil fragrância das flores e as cores do céu no horizonte: amarelo fresco quando nasce o sol, laranja quente quando se põe; azul estrelado quando a lua espreita, mais ainda quando se esquece de espreitar.
Avisto-te ao longe, pelas janelas de mim, baloiçando na tua cama de rede no alpendre da casa no monte, lendo como de costume. Avisto-te mais perto, correndo pelos prados e rebolando quando te cansas de correr, a tua gargalhada de criança soando-me em eco mudo ao ouvido.
Avisto-te na sombra da primeira árvore e depois da segunda, aninhando-te para a primeira sesta de verão, depois de um almoço tardio em jeito de picnic, sobre o pano xadrez estendido, ao sabor de um vinho tinto. Avisto-te junto ao vidro do meu comboio, recolhendo as flores carmesim que aí nascem e colocando no cabelo, por detrás da orelha, uma delas, como fazias sempre - tão perto que podia sentir-lhes o cheiro, sentir-te o perfume.
Avisto-nos aos dois sentados no ramo mais forte da nossa árvore a ver o sol pôr-se antes de irmos jantar. Avisto-nos deitados nas telhas ainda quentes, a identificar entre risos as constelações nesse mar de estrelas. Avisto-te através dos meus e dos teus vidros enterrada em dois cobertores grossos nas noites frias, diante da lareira, de chocolate quente em punho, e o fumo da chaminé serpenteando em silêncio por entre o canto dos grilos lá fora.
Revejo em todas as visões de ti - quando lês, quando corres e rebolas, quando comes, quando dormes, quando fitas o horizonte, quando contas as estrelas, quando tremes com o frio - o sorriso que me desarma e abala todos os dias, como se todos os dias o visse pela primeira vez; a ternura de um mundo inteiro contida nos teus lábios.
Revejo então os teus lábios, muito perto, até que deixo de os ver e passo a senti-los, como se os tivesse aqui e agora pressionados contra os meus. Sinto o teu corpo encostado ao meu. Sinto metro e meio de abraço apertado, metro e meio de amor. Sinto o bater do teu coração com ritmo indefinido, umas vezes compassado e outras disparando. Sinto a tua paz no meu peito e o teu calor na minha pele. Sinto as tuas mãos nas minhas, os teus dedos nos meus. Sinto-nos a nós; a mim em ti nas noites só nossas. Leio-te feliz nos teus olhos e torno a deixar-me perder-me neles, como se tivesse escolha, vezes e vezes sem conta.
Abraço-te uma vez mais para não deixar fugir o momento, para não te deixar desaparecer. Este momento é tudo. Ter-te é ter tudo e eu só queria parar o tempo, congelar tudo, para te ter aqui até ao fim dos meus dias. Aperto-te nos meus braços de novo, a tua cintura contra a minha.
Deixa-me por um minuto não te largar. Deixa-me beijar-te uma vez mais, só mais uma. Deixa-me, que não tarda o meu comboio esfuma-se e eu volto a mim. Não tarda ele esfuma-se e eu torno a perder-te de vez.
A sina de viajar em mim dez mil léguas sem sair do mesmo lugar.
Quando a chuva me bate à porta e contra as janelas, então, saio de mim sem aviso, ainda de olhos abertos, e sou sugado para um qualquer recanto do mundo, atirado para dentro de um comboio a vapor sem rumo certo. E no entanto, embora sem destino traçado, todas as paragens são paragens de ti, no teu tempo, nos teus tempos, numa linha cronológica difusa.
A certeza dos dias é nevoeiro na minha mente, relegada sem intenção para um canto longínquo de mim. Mas conheço bem as paisagens. Sei-as de cor, como se as respirasse hoje mesmo. Sei de cor os montes e os prados sem fim, as sombras das árvores solitárias, a frágil fragrância das flores e as cores do céu no horizonte: amarelo fresco quando nasce o sol, laranja quente quando se põe; azul estrelado quando a lua espreita, mais ainda quando se esquece de espreitar.
Avisto-te ao longe, pelas janelas de mim, baloiçando na tua cama de rede no alpendre da casa no monte, lendo como de costume. Avisto-te mais perto, correndo pelos prados e rebolando quando te cansas de correr, a tua gargalhada de criança soando-me em eco mudo ao ouvido.
Avisto-te na sombra da primeira árvore e depois da segunda, aninhando-te para a primeira sesta de verão, depois de um almoço tardio em jeito de picnic, sobre o pano xadrez estendido, ao sabor de um vinho tinto. Avisto-te junto ao vidro do meu comboio, recolhendo as flores carmesim que aí nascem e colocando no cabelo, por detrás da orelha, uma delas, como fazias sempre - tão perto que podia sentir-lhes o cheiro, sentir-te o perfume.
Avisto-nos aos dois sentados no ramo mais forte da nossa árvore a ver o sol pôr-se antes de irmos jantar. Avisto-nos deitados nas telhas ainda quentes, a identificar entre risos as constelações nesse mar de estrelas. Avisto-te através dos meus e dos teus vidros enterrada em dois cobertores grossos nas noites frias, diante da lareira, de chocolate quente em punho, e o fumo da chaminé serpenteando em silêncio por entre o canto dos grilos lá fora.
Revejo em todas as visões de ti - quando lês, quando corres e rebolas, quando comes, quando dormes, quando fitas o horizonte, quando contas as estrelas, quando tremes com o frio - o sorriso que me desarma e abala todos os dias, como se todos os dias o visse pela primeira vez; a ternura de um mundo inteiro contida nos teus lábios.
Revejo então os teus lábios, muito perto, até que deixo de os ver e passo a senti-los, como se os tivesse aqui e agora pressionados contra os meus. Sinto o teu corpo encostado ao meu. Sinto metro e meio de abraço apertado, metro e meio de amor. Sinto o bater do teu coração com ritmo indefinido, umas vezes compassado e outras disparando. Sinto a tua paz no meu peito e o teu calor na minha pele. Sinto as tuas mãos nas minhas, os teus dedos nos meus. Sinto-nos a nós; a mim em ti nas noites só nossas. Leio-te feliz nos teus olhos e torno a deixar-me perder-me neles, como se tivesse escolha, vezes e vezes sem conta.
Abraço-te uma vez mais para não deixar fugir o momento, para não te deixar desaparecer. Este momento é tudo. Ter-te é ter tudo e eu só queria parar o tempo, congelar tudo, para te ter aqui até ao fim dos meus dias. Aperto-te nos meus braços de novo, a tua cintura contra a minha.
Deixa-me por um minuto não te largar. Deixa-me beijar-te uma vez mais, só mais uma. Deixa-me, que não tarda o meu comboio esfuma-se e eu volto a mim. Não tarda ele esfuma-se e eu torno a perder-te de vez.
quarta-feira, janeiro 04, 2017
Resoluções de Ano Novo
Ano novo, finalmente.
Desconfio que passo os meus dias à espera deste virar da página. É só mais um dia, só mais um amanhã como todos os outros, eu sei, mas o ano novo renova-se e renova-me. Renova-me as energias, as esperanças e os sonhos. Renova-me a motivação. Entrega-me de novo à Fé.
Sim, à Fé. Eu sou uma pessoa de fé. Só não acredito nas coisas em que as pessoas normais acreditam. Em Deus e tudo isso. Mas se há coisa que eu sou é Fé. Fé na Natureza. Na vida da Terra na pulsação do vento e do mar. Fé nas pessoas. Fé no respeito. Na silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas. Fé na bondade. Em bons pequenos gestos, em bons corações, em boa gente. Fé no amor. No campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas. Fé no destino. Nas energias invisíveis do universo.
Sim, já sei, dar e receber, o velho e eterno karma... Sempre o karma. Oiço há anos falar dele; só ainda não tive o prazer de o conhecer. E é um bocado por aí que voltamos ao meu início: ano novo, finalmente. Talvez não te dês conta, ou não te dês o tempo e a hipótese de te dares conta, mas nós somos muito como um copo de água, que vai enchendo com os acasos da vida. E no limite, no fim dos fins, transbordamos. Para fora ou para dentro, pouco importa; depende de cada um, mas algures nesse limbo perdemos a nossa forma, a nossa estabilidade, e precisamos de nos reestruturar. E eu, pessoalmente, de tempos a tempos preciso de atirar mais lenha para o fogo da minha Fé, que vai esmorecendo e fumegando.
Nós precisamos destes ciclos. Das horas do dia, dos dias da semana, das semanas do mês, dos meses do ano e dos anos da vida. Já todos encontrámos abrigo à sombra de um "daqui por duas horas já estou em casa" ou de um "amanhã é um novo dia". De um "o fim-de-semana está mesmo aí" ou até de um "no próximo mês já vou de férias". São portos seguros que criámos sem nos apercebermos, para atracar quando a corrente fica demasiado turbulenta. O ano novo é só mais um exemplo. Com a diferença de que nos promete guardar novas 365 oportunidades de ser bem-sucedido, de ser feliz, de ser amado, de ser completo. É o ponto de viragem e recomeço mais forte deles todos.
Não te procuro, porque a Fé - a vida da Terra na pulsação do vento e do mar, a silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas, os bons pequenos gestos de bons corações e boa gente, o campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas, as energias invisíveis do universo - me diz que te vou encontrar num futuro incerto, nem mais tarde, nem mais cedo. Mas a cada virar de página faço muita força para que este seja o ano do futuro incerto, do nem mais tarde, nem mais cedo. Porque eu quero-te, quero-te loucamente, e porque sem te ter ainda tenho já saudades tuas. Quero dar-te a mão, entrelaçar os dedos nos teus e correr mundo fora, para conhecer contigo as maravilhas dos nossos recantos. E conhecer melhor ainda as maravilhas dos teus recantos, os encantos dos teus jardins e as dores dos teus desertos, que sei que guardas para além dos teus olhos e do teu sorriso. Quero beijar-te o pescoço; quero viver-te, quero amar-te. E quero acordar todos os dias, sem mais, à luz do teu sorriso e do teu olhar, ao sabor quente do teu beijo húmido, ao calor do teu toque frio.
Sem saber onde nem quando, sinto e sei que estás aí. E eu, de Fé renovada, só quero (ardo de desejo) que este ano seja de vez.
Desconfio que passo os meus dias à espera deste virar da página. É só mais um dia, só mais um amanhã como todos os outros, eu sei, mas o ano novo renova-se e renova-me. Renova-me as energias, as esperanças e os sonhos. Renova-me a motivação. Entrega-me de novo à Fé.
Sim, à Fé. Eu sou uma pessoa de fé. Só não acredito nas coisas em que as pessoas normais acreditam. Em Deus e tudo isso. Mas se há coisa que eu sou é Fé. Fé na Natureza. Na vida da Terra na pulsação do vento e do mar. Fé nas pessoas. Fé no respeito. Na silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas. Fé na bondade. Em bons pequenos gestos, em bons corações, em boa gente. Fé no amor. No campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas. Fé no destino. Nas energias invisíveis do universo.
Sim, já sei, dar e receber, o velho e eterno karma... Sempre o karma. Oiço há anos falar dele; só ainda não tive o prazer de o conhecer. E é um bocado por aí que voltamos ao meu início: ano novo, finalmente. Talvez não te dês conta, ou não te dês o tempo e a hipótese de te dares conta, mas nós somos muito como um copo de água, que vai enchendo com os acasos da vida. E no limite, no fim dos fins, transbordamos. Para fora ou para dentro, pouco importa; depende de cada um, mas algures nesse limbo perdemos a nossa forma, a nossa estabilidade, e precisamos de nos reestruturar. E eu, pessoalmente, de tempos a tempos preciso de atirar mais lenha para o fogo da minha Fé, que vai esmorecendo e fumegando.
Nós precisamos destes ciclos. Das horas do dia, dos dias da semana, das semanas do mês, dos meses do ano e dos anos da vida. Já todos encontrámos abrigo à sombra de um "daqui por duas horas já estou em casa" ou de um "amanhã é um novo dia". De um "o fim-de-semana está mesmo aí" ou até de um "no próximo mês já vou de férias". São portos seguros que criámos sem nos apercebermos, para atracar quando a corrente fica demasiado turbulenta. O ano novo é só mais um exemplo. Com a diferença de que nos promete guardar novas 365 oportunidades de ser bem-sucedido, de ser feliz, de ser amado, de ser completo. É o ponto de viragem e recomeço mais forte deles todos.
Não te procuro, porque a Fé - a vida da Terra na pulsação do vento e do mar, a silenciosa simbiose tácita entre duas pessoas, os bons pequenos gestos de bons corações e boa gente, o campo gravítico que atravessa as fronteiras do mundo para unir duas almas, as energias invisíveis do universo - me diz que te vou encontrar num futuro incerto, nem mais tarde, nem mais cedo. Mas a cada virar de página faço muita força para que este seja o ano do futuro incerto, do nem mais tarde, nem mais cedo. Porque eu quero-te, quero-te loucamente, e porque sem te ter ainda tenho já saudades tuas. Quero dar-te a mão, entrelaçar os dedos nos teus e correr mundo fora, para conhecer contigo as maravilhas dos nossos recantos. E conhecer melhor ainda as maravilhas dos teus recantos, os encantos dos teus jardins e as dores dos teus desertos, que sei que guardas para além dos teus olhos e do teu sorriso. Quero beijar-te o pescoço; quero viver-te, quero amar-te. E quero acordar todos os dias, sem mais, à luz do teu sorriso e do teu olhar, ao sabor quente do teu beijo húmido, ao calor do teu toque frio.
Sem saber onde nem quando, sinto e sei que estás aí. E eu, de Fé renovada, só quero (ardo de desejo) que este ano seja de vez.
terça-feira, dezembro 27, 2016
Feliz Natal
As palavras "feliz natal" soaram-me vazias na cabeça, como um eco quase mudo repercutindo-se à distância. Leve como uma pena deixada ao vento, ao acaso.
Podíamos ter o frio no ar, as luzes na rua, a lareira em casa, o presépio na entrada, o peru e o bacalhau no forno, a árvore na sala e os presentes debaixo dela. Mas há muito que o natal deixou de significar presentes para significar família.
Tinha para mim o natal como um interregno nos nossos calendários preenchidos e ocupados, nos nossos empregos, nas nossas vidas aceleradas e espalhadas pelos cantos do mundo, para nos revermos uns aos outros. Um momento de introspecção para nos focarmos em nós enquanto família e, nesse exercício, esquecermos por dois dias tudo o resto e gozarmos um pouco de paz em conjunto. Especialmente quando, à medida que os anos passam, nunca sabemos quando será o último natal para alguém.
Mas este ano isso escapou-nos por entre os dedos. Montámos o cenário com toda a pompa e circunstância, mas esquecemo-nos de fechar os olhos e olhar para dentro, para aquilo que verdadeiramente importa. Agarrámo-nos ao orgulho próprio, egoísta, e à intolerância. Esquecemo-nos de amar. Esquecemo-nos de perdoar. E apodrecemos por dentro, vítimas do nosso próprio veneno.
Éramos seis, mas éramos um. Um corpo bem constituído, felizmente bem alimentado e saudável. O pai era o cérebro, a razão; a mãe o coração, a emoção; e nós irmãos, que somos quatro, as pernas e os braços com que corríamos o mundo e nos agarrávamos aos nossos sonhos. E no entanto, algures no tempo, cedemos a uma febre qualquer e adoecemos gravemente. Ignorámos que são as nossas diferenças que nos fazem melhores e mais completos e levantámos o nosso próprio faroeste debaixo do nosso telhado, debaixo da nossa pele. Trocámos tiros em todas as direcções. Um tiro no pé. Um na cabeça, um no coração e outros quatro nas pernas e braços, numa amputação lenta. E começámos a sangrar.
Este ano não me sentei para ver um filme em família, muito menos um serão inteiro deles como sempre fazíamos, muitas vezes após a ceia de natal e a troca de presentes, já a altas horas da madrugada. Não consegui desfrutar de cada segundo da incrível boa disposição do meu avô, que tanto admiro e que vem à tona já a grande custo. Nem consegui estar em casa mais tempo do que o necessário. Saí à primeira oportunidade, porque casa não é casa quando o teu coração quer estar em todo o lado menos ali.
Por isso, sim, as palavras "feliz natal" soaram-me vazias na cabeça, como um eco quase mudo repercutindo-se à distância. Leve como uma pena deixada ao vento, ao acaso.
Fiz o meu papel de feliz, mas toda a gente sabe que um papel amachucado jamais volta ao sítio. Eu nem queria um feliz natal; só queria a minha família de volta.
segunda-feira, dezembro 05, 2016
Estrelas no Céu
O dia nasceu sem cor, como todos os outros para mim desde aquela noite.
O telefone tocou de mansinho e eu estremeci da cabeça aos pés. Estremeço sempre que o sinto vibrar, só de recordar aquela chamada da Mãe que me arrancou do sono para me dar a notícia. Aquele murro no estômago que adorava nunca ter sentido.
Puxei o telemóvel do bolso e tive um breve vislumbre do teu sorriso, eterno no meu fundo de ecrã, antes de surgir a imagem da Mãe a chamar do outro lado da linha. Sabia que dia era hoje e portanto hesitei por uns segundos.
Atendi.
Senti-lhe na voz a dor e as lágrimas, bem como o esforço que fazia para as esconder entre soluços leves. Num murmúrio, deu-me os parabéns que não pôde dar-te a ti. Fazes dezassete anos hoje. Farias, aliás... Mas faz um ano que partiste. Faz um ano que a merda do SMS urgente te levou de nós a ferros. A pneus e a pára-choques. Assim, sem mais.
Este mundo é um lugar cruel e tu, de todas as pessoas, não merecias isto.
Desligo a chamada e a tua fotografia volta a ocupar o ecrã, no teu vestido azul, a sorrir para mim. Estás aqui há um ano. Que saudades que eu tenho desse teu sorriso que iluminava tudo e todos. Da tua gargalhada que me aquecia o coração. Desses teus olhões que viam o mundo de outra forma.
Lembro-me repentinamente dos nossos serões à lareira, tu a ler o teu livro de cabeça apoiada no meu colo, toda intelectual, e eu a ver filmes sem som para não te incomodar. Dava tudo só por mais um dia. Só para poder voltar a sentir a tua cabeça quente contra a minha barriga. Para poder voltar a coçar-te a nuca e a afagar-te o cabelo até adormeceres no meu abraço. Para poder voltar a carregar-te nos braços escada acima, numa guerra para não deixar cair a manta com que te tapavas, e deitar-te na cama. Só para poder voltar a dar-te um último beijo de boa noite. Dava tudo... Tudo.
Demoro-me um bocado a olhar o céu.
Imagino que tenhas encontrado aí um lugar e que andes por aí aos pinotes, ligada à corrente, como boa pulga que sempre foste. A espalhar o teu riso aos ventos e a contagiar todas as outras estrelas com esse teu brilho. És o meu orgulho.
Onde quer que estejas, por favor sê feliz.
Com carinho, um beijo na testa do teu irmão que tanto te ama.
Parabéns, Miúda.
(P.s.: Por favor controla a chuva de perdigotos no bolo.)
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.com/2016/01/bittersweet-sixteen.html?m=1 ]
O telefone tocou de mansinho e eu estremeci da cabeça aos pés. Estremeço sempre que o sinto vibrar, só de recordar aquela chamada da Mãe que me arrancou do sono para me dar a notícia. Aquele murro no estômago que adorava nunca ter sentido.
Puxei o telemóvel do bolso e tive um breve vislumbre do teu sorriso, eterno no meu fundo de ecrã, antes de surgir a imagem da Mãe a chamar do outro lado da linha. Sabia que dia era hoje e portanto hesitei por uns segundos.
Atendi.
Senti-lhe na voz a dor e as lágrimas, bem como o esforço que fazia para as esconder entre soluços leves. Num murmúrio, deu-me os parabéns que não pôde dar-te a ti. Fazes dezassete anos hoje. Farias, aliás... Mas faz um ano que partiste. Faz um ano que a merda do SMS urgente te levou de nós a ferros. A pneus e a pára-choques. Assim, sem mais.
Este mundo é um lugar cruel e tu, de todas as pessoas, não merecias isto.
Desligo a chamada e a tua fotografia volta a ocupar o ecrã, no teu vestido azul, a sorrir para mim. Estás aqui há um ano. Que saudades que eu tenho desse teu sorriso que iluminava tudo e todos. Da tua gargalhada que me aquecia o coração. Desses teus olhões que viam o mundo de outra forma.
Lembro-me repentinamente dos nossos serões à lareira, tu a ler o teu livro de cabeça apoiada no meu colo, toda intelectual, e eu a ver filmes sem som para não te incomodar. Dava tudo só por mais um dia. Só para poder voltar a sentir a tua cabeça quente contra a minha barriga. Para poder voltar a coçar-te a nuca e a afagar-te o cabelo até adormeceres no meu abraço. Para poder voltar a carregar-te nos braços escada acima, numa guerra para não deixar cair a manta com que te tapavas, e deitar-te na cama. Só para poder voltar a dar-te um último beijo de boa noite. Dava tudo... Tudo.
Demoro-me um bocado a olhar o céu.
Imagino que tenhas encontrado aí um lugar e que andes por aí aos pinotes, ligada à corrente, como boa pulga que sempre foste. A espalhar o teu riso aos ventos e a contagiar todas as outras estrelas com esse teu brilho. És o meu orgulho.
Onde quer que estejas, por favor sê feliz.
Com carinho, um beijo na testa do teu irmão que tanto te ama.
Parabéns, Miúda.
(P.s.: Por favor controla a chuva de perdigotos no bolo.)
[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.com/2016/01/bittersweet-sixteen.html?m=1 ]
domingo, novembro 27, 2016
Sem Rasto
É bom ser-se sozinha.
O que eu não me lembrava é que é ainda melhor ter alguém e ser de alguém.
Há dois anos que eu não tinha ninguém. Dava demasiado valor a ter-me a mim mesma e não estava disposta a abdicar de metade de mim para qualquer pessoa. Longe iam os tempos em que perderia fôlego por apenas uns beijos e uns dias de diversão. Já não tenho a idade, nem tão-pouco a paciência. Mas com ele era diferente.
Havia qualquer coisa nele que mexia comigo. Que me cativava. De alguma forma, as palavras e os silêncios dele agitavam levemente as próprias fundações do meu ser. São precisos dois para dançar o tango e ele sabia dançar comigo. Com as minhas manias, as minhas virtudes e os meus defeitos. Escutava-me quando eu queria que me escutasse, respondia quando devia responder e sabia não falar quando, sem o dizer, eu me queria para mim própria. Escutava-me para me ouvir e não para me responder. E ouvindo, respondia-me em desafio, em profundidade, contra a superficialidade trivial da maioria das conversas de hoje. E ríamos; ríamos muito.
Voltei a sentir o sabor de poder ter e ser de alguém. A respiração no pescoço e o bater de outro coração no meu ouvido. O sorriso nervoso e as borboletas no estômago. Nunca fui de pieguices, mas pensei até para mim que talvez tivesse chocado por acidente com uma metade perdida da minha alma. Éramos diferentes, claro que éramos, mas éramos também muito iguais. E viajávamos muito, mesmo que só conversando.
Fazíamos planos de ir ver o mundo, de avião, de carro, de canoa e a pé. De ver mil e um pores-do-sol. De dançar à chuva. De ir ver as primeiras neves do Inverno, pelo Natal, e de desenhar nela anjos com os nossos corpos, como nos filmes. De desligarmos de toda a gente durante uma semana no campo e de rebolarmos como crianças por toda a extensão de prados verdes. De, a seu tempo, trocarmos alianças e de nos afirmarmos ao mundo, aos nossos e a Deus no altar. De construirmos a nossa casa e depois a nossa família. De termos a nossa própria árvore de natal.
Podia continuar. Mas nós, que viajámos tanto, perdemo-nos algures no caminho. Não sei onde, nem porquê. Num segundo seguíamos juntos e estavas lá, no outro seguiste por uma rua diferente e desapareceste de mim.
Sem explicações, sem rasto e com muitos sonhos meus.
O que eu não me lembrava é que é ainda melhor ter alguém e ser de alguém.
Há dois anos que eu não tinha ninguém. Dava demasiado valor a ter-me a mim mesma e não estava disposta a abdicar de metade de mim para qualquer pessoa. Longe iam os tempos em que perderia fôlego por apenas uns beijos e uns dias de diversão. Já não tenho a idade, nem tão-pouco a paciência. Mas com ele era diferente.
Havia qualquer coisa nele que mexia comigo. Que me cativava. De alguma forma, as palavras e os silêncios dele agitavam levemente as próprias fundações do meu ser. São precisos dois para dançar o tango e ele sabia dançar comigo. Com as minhas manias, as minhas virtudes e os meus defeitos. Escutava-me quando eu queria que me escutasse, respondia quando devia responder e sabia não falar quando, sem o dizer, eu me queria para mim própria. Escutava-me para me ouvir e não para me responder. E ouvindo, respondia-me em desafio, em profundidade, contra a superficialidade trivial da maioria das conversas de hoje. E ríamos; ríamos muito.
Voltei a sentir o sabor de poder ter e ser de alguém. A respiração no pescoço e o bater de outro coração no meu ouvido. O sorriso nervoso e as borboletas no estômago. Nunca fui de pieguices, mas pensei até para mim que talvez tivesse chocado por acidente com uma metade perdida da minha alma. Éramos diferentes, claro que éramos, mas éramos também muito iguais. E viajávamos muito, mesmo que só conversando.
Fazíamos planos de ir ver o mundo, de avião, de carro, de canoa e a pé. De ver mil e um pores-do-sol. De dançar à chuva. De ir ver as primeiras neves do Inverno, pelo Natal, e de desenhar nela anjos com os nossos corpos, como nos filmes. De desligarmos de toda a gente durante uma semana no campo e de rebolarmos como crianças por toda a extensão de prados verdes. De, a seu tempo, trocarmos alianças e de nos afirmarmos ao mundo, aos nossos e a Deus no altar. De construirmos a nossa casa e depois a nossa família. De termos a nossa própria árvore de natal.
Podia continuar. Mas nós, que viajámos tanto, perdemo-nos algures no caminho. Não sei onde, nem porquê. Num segundo seguíamos juntos e estavas lá, no outro seguiste por uma rua diferente e desapareceste de mim.
Sem explicações, sem rasto e com muitos sonhos meus.
segunda-feira, novembro 21, 2016
Maratonas
Eu prefiro maratonas.
Desde que aprendi a andar, desenvolvi depressa o gosto pela corrida. Primeiro por necessidade, para fugir ao caniche que teimava em perseguir-me pelos corredores de casa, e mais tarde para apanhar o autocarro no último minuto a caminho da escola, para aproveitar no limite o tempo que tinha para privar com a minha cama em pleno inverno. A velocidade era a chave, fosse para salvar a pele de uns dentes irritantemente afiados ou de um recado na caderneta da escola.
Com o tempo, a corrida ganhou outra consistência e outro peso na minha vida. Tornei-me num velocista nato: o prazer de ser o primeiro a cruzar a meta, fosse ela qual fosse, enchia-me as medidas. Os 100 metros, os 200 metros, os 400 e as barreiras. O sabor não vivia no trajecto, nos obstáculos ou nas condicionantes à volta; os meus olhos apontavam apenas para a linha final, para o objectivo, e o resto era fumo e nevoeiro que eu escolhia não ver por entre as passadas rápidas. Lançava-me de cabeça, com o sangue fervilhando a todo o vapor, e esticava-me no ar numa questão de segundos para agarrar o que houvesse para lá da meta. E era esse o meu amor pela corrida.
A coisa engraçada da idade é que muda a nossa perspectiva do mundo e das coisas. Começas a valorizar os pequenos detalhes. O bater do coração a cada metro, o comprimento da passada, o controlo da respiração e a gestão do cansaço, procurando a harmonia perfeita entre velocidade e resistência. Quando tomas o gosto pela corrida, queres é correr o máximo de tempo que puderes. Trocas a velocidade pelo fundo. O sprint pela maratona.
A linha final perde expressão e ser o primeiro deixa de ser objectivo. O teu objectivo passa a ser conseguir chegar até ela, até à meta, àquela mais longínqua e mais distante a que a maioria não chega. Triunfar quando os restantes ficam pelo caminho. Trabalhas a resistência em vez da velocidade. A paciência em vez da fúria. E de todas as vezes estabeleces para ti uma meta mais além, pelo desafio para contigo mesmo.
Eu prefiro maratonas.
De que outra forma teria fôlego para correr meio mundo até ti?
Desde que aprendi a andar, desenvolvi depressa o gosto pela corrida. Primeiro por necessidade, para fugir ao caniche que teimava em perseguir-me pelos corredores de casa, e mais tarde para apanhar o autocarro no último minuto a caminho da escola, para aproveitar no limite o tempo que tinha para privar com a minha cama em pleno inverno. A velocidade era a chave, fosse para salvar a pele de uns dentes irritantemente afiados ou de um recado na caderneta da escola.
Com o tempo, a corrida ganhou outra consistência e outro peso na minha vida. Tornei-me num velocista nato: o prazer de ser o primeiro a cruzar a meta, fosse ela qual fosse, enchia-me as medidas. Os 100 metros, os 200 metros, os 400 e as barreiras. O sabor não vivia no trajecto, nos obstáculos ou nas condicionantes à volta; os meus olhos apontavam apenas para a linha final, para o objectivo, e o resto era fumo e nevoeiro que eu escolhia não ver por entre as passadas rápidas. Lançava-me de cabeça, com o sangue fervilhando a todo o vapor, e esticava-me no ar numa questão de segundos para agarrar o que houvesse para lá da meta. E era esse o meu amor pela corrida.
A coisa engraçada da idade é que muda a nossa perspectiva do mundo e das coisas. Começas a valorizar os pequenos detalhes. O bater do coração a cada metro, o comprimento da passada, o controlo da respiração e a gestão do cansaço, procurando a harmonia perfeita entre velocidade e resistência. Quando tomas o gosto pela corrida, queres é correr o máximo de tempo que puderes. Trocas a velocidade pelo fundo. O sprint pela maratona.
A linha final perde expressão e ser o primeiro deixa de ser objectivo. O teu objectivo passa a ser conseguir chegar até ela, até à meta, àquela mais longínqua e mais distante a que a maioria não chega. Triunfar quando os restantes ficam pelo caminho. Trabalhas a resistência em vez da velocidade. A paciência em vez da fúria. E de todas as vezes estabeleces para ti uma meta mais além, pelo desafio para contigo mesmo.
Eu prefiro maratonas.
De que outra forma teria fôlego para correr meio mundo até ti?
sexta-feira, novembro 11, 2016
Não Cai Só Chuva do Céu
O chão e as paredes tremeram pela primeira vez.
Estava frio na cave; a electricidade já tinha ido abaixo e o inverno ríspido instalava-se-nos nos ossos. Sem luz nem radiador, a escuridão era interrompida apenas pela tímida nesga de luz que descia pela brecha de janela junto ao tecto. Apertava contra mim a minha mulher e os meus dois filhos, que tremiam como o chão e as paredes, enquanto nos envolvia no único cobertor que consegui encontrar.
Ninguém falava.
O meu pai costumava dizer-me em miúdo que o medo tem cheiro e que sempre que um Homem tem medo é possível senti-lo no ar. Ouvia-lhe agora a voz sussurrar-mo ao ouvido e prolongando-se na minha cabeça, tão claramente quanto há 30 anos atrás. Se na altura, em tenra idade, lhe tomei o conselho como incentivo a não demonstrar o medo, hoje reconhecia-lhe a razão. Cheirava-se efectivamente no ar. No nosso ar, na cave - na minha mulher, nos meus filhos e, Deus, até em mim -, e no ar lá fora, nas ruas desertas, nos pelotões de homens armados do Führer e nos carros blindados que patrulhavam a cidade a cada meia hora, nos latidos dos cães ao longe, nas caves atulhadas de famílias como a nossa e agora no chão e nas paredes que tremiam.
Além de nos cheirar o medo, eu era capaz de nos ouvir bater os corações, sem ritmo certo e cada vez mais fortes, como se quisessem saltar-nos do peito e esgueirar-se pela janela junto ao tecto para fugirem dali. Mas, embora não pudesse dizer-lhes nada quanto a isso, em especial aos dois miúdos que o negrume da cave já não me permitia ver, eu sabia que para nós era tarde demais.
O chão e as paredes tremeram segunda vez.
As bombas começaram a cair.
Estava frio na cave; a electricidade já tinha ido abaixo e o inverno ríspido instalava-se-nos nos ossos. Sem luz nem radiador, a escuridão era interrompida apenas pela tímida nesga de luz que descia pela brecha de janela junto ao tecto. Apertava contra mim a minha mulher e os meus dois filhos, que tremiam como o chão e as paredes, enquanto nos envolvia no único cobertor que consegui encontrar.
Ninguém falava.
O meu pai costumava dizer-me em miúdo que o medo tem cheiro e que sempre que um Homem tem medo é possível senti-lo no ar. Ouvia-lhe agora a voz sussurrar-mo ao ouvido e prolongando-se na minha cabeça, tão claramente quanto há 30 anos atrás. Se na altura, em tenra idade, lhe tomei o conselho como incentivo a não demonstrar o medo, hoje reconhecia-lhe a razão. Cheirava-se efectivamente no ar. No nosso ar, na cave - na minha mulher, nos meus filhos e, Deus, até em mim -, e no ar lá fora, nas ruas desertas, nos pelotões de homens armados do Führer e nos carros blindados que patrulhavam a cidade a cada meia hora, nos latidos dos cães ao longe, nas caves atulhadas de famílias como a nossa e agora no chão e nas paredes que tremiam.
Além de nos cheirar o medo, eu era capaz de nos ouvir bater os corações, sem ritmo certo e cada vez mais fortes, como se quisessem saltar-nos do peito e esgueirar-se pela janela junto ao tecto para fugirem dali. Mas, embora não pudesse dizer-lhes nada quanto a isso, em especial aos dois miúdos que o negrume da cave já não me permitia ver, eu sabia que para nós era tarde demais.
O chão e as paredes tremeram segunda vez.
As bombas começaram a cair.
terça-feira, novembro 08, 2016
Preto no Branco
Tiveste sorte.
Tiveste sorte de nascer num hospital. Tiveste sorte de ser criado num berço, debaixo de um tecto e rodeado de brinquedos. Tiveste sorte de ter roupa lavada. Tiveste sorte de ter roupa. Tiveste sorte de ter sapatos. Tiveste sorte de não saber o que é o frio. Tiveste sorte de não saber o que é ter os pés massacrados pelo chão que pisas.
Tiveste sorte de ter comida no prato três vezes por dia. Tiveste sorte de ter comida no prato. Tiveste sorte de ter prato. Tiveste a sorte de saber o que é comida. Tiveste sorte de não saber o que é a fome. Tiveste sorte de saber o que é a água e de não saber o que é a sede quando o sol te come a pele aos poucos.
Tiveste sorte de ser visto. Tiveste sorte de ter voz e ser ouvido. Tiveste sorte de ter direito a uma opinião. Tiveste sorte de pertencer, de ser parte. Tiveste sorte de ter um emprego. Tiveste sorte de ter um serviço de saúde. Tiveste sorte de ver crescer saudáveis os teus filhos. Tiveste sorte de ver crescer os teus filhos. Tiveste sorte de poder viver os teus sonhos. Tiveste sorte de poder ver o mundo com todas as cores.
Mas não és capaz de ver que o teu mundo de sorte só vê a duas cores: preto e branco.
Eu sou o preto.
E tu tiveste sorte.
Tiveste sorte de nascer num hospital. Tiveste sorte de ser criado num berço, debaixo de um tecto e rodeado de brinquedos. Tiveste sorte de ter roupa lavada. Tiveste sorte de ter roupa. Tiveste sorte de ter sapatos. Tiveste sorte de não saber o que é o frio. Tiveste sorte de não saber o que é ter os pés massacrados pelo chão que pisas.
Tiveste sorte de ter comida no prato três vezes por dia. Tiveste sorte de ter comida no prato. Tiveste sorte de ter prato. Tiveste a sorte de saber o que é comida. Tiveste sorte de não saber o que é a fome. Tiveste sorte de saber o que é a água e de não saber o que é a sede quando o sol te come a pele aos poucos.
Tiveste sorte de ser visto. Tiveste sorte de ter voz e ser ouvido. Tiveste sorte de ter direito a uma opinião. Tiveste sorte de pertencer, de ser parte. Tiveste sorte de ter um emprego. Tiveste sorte de ter um serviço de saúde. Tiveste sorte de ver crescer saudáveis os teus filhos. Tiveste sorte de ver crescer os teus filhos. Tiveste sorte de poder viver os teus sonhos. Tiveste sorte de poder ver o mundo com todas as cores.
Mas não és capaz de ver que o teu mundo de sorte só vê a duas cores: preto e branco.
Eu sou o preto.
E tu tiveste sorte.
sábado, outubro 29, 2016
Quando Todo o Tempo é Pouco
Recordo-me do vulto súbito no meio da estrada, da guinada no volante e do chiar agressivo dos pneus... Num segundo fazíamos um agradável passeio nocturno, no outro despistávamo-nos para fora da estrada, contra o tronco de uma árvore. Um ribombar nos meus ouvidos e em todos os ossos do meu corpo. E depois silêncio.
Aos poucos recuperei a lucidez. Mexi os dedos dos pés à cautela. As dores em todo o corpo - e em especial no pescoço, no sufoco de um colar cervical - acordavam-me numa tortura lenta, ao som de um apito compassado, agudo e robótico. Tentei abrir os olhos logo que retomei o controlo de mim, mas o ardor era tal que desisti da ideia em menos de meio segundo.
Demorei a perceber que estava num hospital. Depois estranhei o colar, as ligaduras, os fios em que estava envolto, o catéter enfiado no meu braço e por fim as próprias dores. Juntei as peças e então recordei o veado na estrada e o nosso acidente... E então pensei nela.
Foi nesse preciso instante que o meu ouvido registou a primeira coisa para além dos bips que me martelavam a cabeça, de um médico para outro: "as lesões na medula são irreversíveis". Não, não, não!, esperem lá... "Confirmaram os resultados?", continuaram eles. Sentia partidos todos os ossos das minhas mãos, dentro das talas metálicas, mas cerrei os maxilares e os olhos com toda a força e cruzei mentalmente os dedos para nos desejar sorte. Talvez estivessem enganados. "Confirmámos, Doutor. Ela não tornará a andar." Ouvi bem. Sim, ouvi bem... Ela, a minha Ela, não voltará a andar.
Recuei no tempo sem mais nem ontem, sentindo já uma lágrima, dez lágrimas, a deslizar-me pela cara. Conheci-a aos 24, aquela doçura de miúda. Iniciámos o namoro aos 25, de borboletas na barriga, casámos aos 27, ela absolutamente magnífica, e aos 28, enquanto falávamos de ter um primeiro filho, tivemos um acidente de carro.
O tempo pára à tua volta e a tua bússola genética perde o norte e gira mil vezes sobre ti mesmo, para no fim te dizer que não sabe que caminho deves seguir. O teu mundo desaba pedra sobre pedra ao teu lado e tu nem consegues ouvi-lo ruir. Mas tens, queira Deus que te salvou desta, pelo menos quarenta anos pela frente e a tua mulher nunca mais voltará a andar.
Consegui abrir os olhos finalmente, para na cama ao lado encontrar os dela, já em lágrimas, postos em mim. Li-lhe neles quase um pedido de desculpas, como se houvesse nela qualquer tipo de culpa ou ressentimento. Como se não tivesse sido eu a virar o volante e a atirar-nos para estas camas de hospital e ela para uma cadeira de rodas para o resto da vida dela.
Lembro o nosso casamento como se tivesse sido não ontem, mas hoje de manhã. Lembro as alianças que trocámos, a aliança que lhe pus no dedo no dia mais feliz da minha vida. Lembro os votos dela, lembro os meus votos. E lembro que, ao enlaçar nela o meu amor, me comprometi com ela na saúde e na doença, até que a morte nos separe.
Então estendi-lhe a mão, apertei a dela nas minhas talas e abafando um grunhido de dor abanei a cabeça. Daqui não saio. Daqui não saio e carregar-te-ei para onde quiseres ir, até que as minhas peles se me engelhem na cara e no corpo e me faltem as forças. Dar-te-ei banho, pequeno-almoço, almoço e jantar, dentro e fora, e todo o amor em excesso que tenho para te dar, até que também eu, já de velho, deixe de poder andar.
E aí teremos todo o tempo do mundo.
Aos poucos recuperei a lucidez. Mexi os dedos dos pés à cautela. As dores em todo o corpo - e em especial no pescoço, no sufoco de um colar cervical - acordavam-me numa tortura lenta, ao som de um apito compassado, agudo e robótico. Tentei abrir os olhos logo que retomei o controlo de mim, mas o ardor era tal que desisti da ideia em menos de meio segundo.
Demorei a perceber que estava num hospital. Depois estranhei o colar, as ligaduras, os fios em que estava envolto, o catéter enfiado no meu braço e por fim as próprias dores. Juntei as peças e então recordei o veado na estrada e o nosso acidente... E então pensei nela.
Foi nesse preciso instante que o meu ouvido registou a primeira coisa para além dos bips que me martelavam a cabeça, de um médico para outro: "as lesões na medula são irreversíveis". Não, não, não!, esperem lá... "Confirmaram os resultados?", continuaram eles. Sentia partidos todos os ossos das minhas mãos, dentro das talas metálicas, mas cerrei os maxilares e os olhos com toda a força e cruzei mentalmente os dedos para nos desejar sorte. Talvez estivessem enganados. "Confirmámos, Doutor. Ela não tornará a andar." Ouvi bem. Sim, ouvi bem... Ela, a minha Ela, não voltará a andar.
Recuei no tempo sem mais nem ontem, sentindo já uma lágrima, dez lágrimas, a deslizar-me pela cara. Conheci-a aos 24, aquela doçura de miúda. Iniciámos o namoro aos 25, de borboletas na barriga, casámos aos 27, ela absolutamente magnífica, e aos 28, enquanto falávamos de ter um primeiro filho, tivemos um acidente de carro.
O tempo pára à tua volta e a tua bússola genética perde o norte e gira mil vezes sobre ti mesmo, para no fim te dizer que não sabe que caminho deves seguir. O teu mundo desaba pedra sobre pedra ao teu lado e tu nem consegues ouvi-lo ruir. Mas tens, queira Deus que te salvou desta, pelo menos quarenta anos pela frente e a tua mulher nunca mais voltará a andar.
Consegui abrir os olhos finalmente, para na cama ao lado encontrar os dela, já em lágrimas, postos em mim. Li-lhe neles quase um pedido de desculpas, como se houvesse nela qualquer tipo de culpa ou ressentimento. Como se não tivesse sido eu a virar o volante e a atirar-nos para estas camas de hospital e ela para uma cadeira de rodas para o resto da vida dela.
Lembro o nosso casamento como se tivesse sido não ontem, mas hoje de manhã. Lembro as alianças que trocámos, a aliança que lhe pus no dedo no dia mais feliz da minha vida. Lembro os votos dela, lembro os meus votos. E lembro que, ao enlaçar nela o meu amor, me comprometi com ela na saúde e na doença, até que a morte nos separe.
Então estendi-lhe a mão, apertei a dela nas minhas talas e abafando um grunhido de dor abanei a cabeça. Daqui não saio. Daqui não saio e carregar-te-ei para onde quiseres ir, até que as minhas peles se me engelhem na cara e no corpo e me faltem as forças. Dar-te-ei banho, pequeno-almoço, almoço e jantar, dentro e fora, e todo o amor em excesso que tenho para te dar, até que também eu, já de velho, deixe de poder andar.
E aí teremos todo o tempo do mundo.
domingo, outubro 09, 2016
Carta de Amor
Gostava genuinamente de ter nascido há cinquenta anos atrás.
O amor dos tempos modernos é uma cozedura rápida em lume brando. Serve-se em copo meio cheio, que é como quem diz meio vazio, e é posto de parte e substituído à primeira comichão. Mas tu e eu sabemos que o amor não é para ser vivido nem rápida, nem brandamente. E é para fazer comichão, que amor que é amor é intenso!
Gostava de ter nascido há cinquenta anos atrás só para te escrever uma carta de amor. Só pela aventura de investigar desenfreadamente a tua morada, pelo desafio de escolher as palavras certas, à tua medida, e pelo sabor de a deixar finalmente no correio. Pela ânsia da espera e pela imaginação do teu sorriso quando a lesses. Sim, isso valer-me-ia todo o trabalho, todo o tempo.
Mas hoje... Hoje não há tempo. Não há tempo para dedicar à nossa dita cara-metade, que hoje é uma e amanhã é outra; que as marés e os ventos vêm e voltam, sopram e levam umas coisas e trazem outras. Hoje é, com sorte, uma fotografia no Facebook, pirosa, foleira, enquanto se vê a bola com os amigos ou enquanto se vai às compras com as amigas; uma enxurrada de palavras melosas retiradas do Google e coladas a cuspo açucarado na publicação, ou numa mensagem pelo WhatsApp, com um relatório de entrega e por fim um Snap da cara-metade do momento a agradecer.
Perdeu-se a alma, perdeu-se a magia, e eu por mim, que sou pelo amor, não consigo sequer pensar em não te dedicar uma parte do meu dia. Todas as partes do meu dia, até, porque eu inteiro sem ti sou vazio. Podia passar horas a escrever-te, horas a escrever sobre ti, porque não passo sem esse sorriso que me ilumina e me incendeia e não vivo sem esse espírito indomável que te habita.
Por isso, sim. Gostava genuinamente de ter nascido há cinquenta anos atrás. Escrevia-te à mão uma carta de amor onde quer que parasses neste mundo, nem que tivesse eu próprio de o atravessar de uma ponta à outra.
Um beijo na testa
O amor dos tempos modernos é uma cozedura rápida em lume brando. Serve-se em copo meio cheio, que é como quem diz meio vazio, e é posto de parte e substituído à primeira comichão. Mas tu e eu sabemos que o amor não é para ser vivido nem rápida, nem brandamente. E é para fazer comichão, que amor que é amor é intenso!
Gostava de ter nascido há cinquenta anos atrás só para te escrever uma carta de amor. Só pela aventura de investigar desenfreadamente a tua morada, pelo desafio de escolher as palavras certas, à tua medida, e pelo sabor de a deixar finalmente no correio. Pela ânsia da espera e pela imaginação do teu sorriso quando a lesses. Sim, isso valer-me-ia todo o trabalho, todo o tempo.
Mas hoje... Hoje não há tempo. Não há tempo para dedicar à nossa dita cara-metade, que hoje é uma e amanhã é outra; que as marés e os ventos vêm e voltam, sopram e levam umas coisas e trazem outras. Hoje é, com sorte, uma fotografia no Facebook, pirosa, foleira, enquanto se vê a bola com os amigos ou enquanto se vai às compras com as amigas; uma enxurrada de palavras melosas retiradas do Google e coladas a cuspo açucarado na publicação, ou numa mensagem pelo WhatsApp, com um relatório de entrega e por fim um Snap da cara-metade do momento a agradecer.
Perdeu-se a alma, perdeu-se a magia, e eu por mim, que sou pelo amor, não consigo sequer pensar em não te dedicar uma parte do meu dia. Todas as partes do meu dia, até, porque eu inteiro sem ti sou vazio. Podia passar horas a escrever-te, horas a escrever sobre ti, porque não passo sem esse sorriso que me ilumina e me incendeia e não vivo sem esse espírito indomável que te habita.
Por isso, sim. Gostava genuinamente de ter nascido há cinquenta anos atrás. Escrevia-te à mão uma carta de amor onde quer que parasses neste mundo, nem que tivesse eu próprio de o atravessar de uma ponta à outra.
Um beijo na testa
terça-feira, setembro 27, 2016
Time's up.
Ela tinha uma tara por relógios.
Na noite em que a conheci, entrava à pressa pelo pub para fugir à tempestade que fustigava as ruas lá fora. Abrigava-se desajeitadamente debaixo de uma capa, ensopada dos pés à cabeça, de cabelos molhados colados ao rosto. Naquela noite o pub enchera; o espaço era acolhedor, quente e seco, e a música celta de fundo quase fazia esquecer o alvoroço da chuva e da trovoada.
Sentou-se ao balcão, no lugar vazio ao lado do meu, e pediu um chá quente. Depois, enquanto esperava, fixou-se no relógio que trazia no pulso, também ele encharcado pelo dilúvio. Apressou-se a enxugá-lo e demorou o olhar no mostrador, como que confirmando que os ponteiros não tinham atrasado um segundo que fosse. Mas não fiz caso; o perfume dela estava já demasiado entranhado em mim, sussurrando-me perigosamente.
Um chá e uns shots mais tarde, entrávamos pelo apartamento dela enrolados, selvagens, e no caminho até à bancada da cozinha atirávamos para o lado as botas, os sapatos e as roupas que nos separavam do sexo. Tudo saiu fora, excepto o relógio dela. Mas ela era fogo e eu não quis saber.
Depois do sexo, já na cama, ela acendeu um cigarro e dirigiu-se lentamente à janela, nua e de relógio no pulso. A chuva tinha parado. O luar entrava pela janela e descia-lhe pelos seios firmes, pela barriga e depois pelas coxas, num sensual jogo de luz e sombra. Do alto daquele décimo andar, observou o horizonte nocturno, olhou para o relógio e então respirou fundo, com uma satisfação que não compreendi. Depois, com um sorriso renovado nos lábios, serpenteou até à cama para uma nova dose.
Durante o dia não nos víamos, nem nos falávamos; não sabia o que fazia da vida ou tão-pouco o seu nome. Sabia apenas que tínhamos encontro tacitamente marcado no pub e assim as noites com ela repetiram-se dia após dia. E de todas as vezes, repetia-se o ritual. Quando conseguia tirar-lhe o relógio juntamente com a roupa, o relógio era a primeira coisa que ela colocava quando terminávamos. Depois o cigarro nos lábios, o caminho até à janela, a verificação milimétrica da hora no relógio e o sorriso vitorioso no fim.
As coisas começaram a ficar esquisitas quando no telejornal surgiu a notícia de uma brutal vítima de homicídio, numa vila tão pacata quanto aquela. E depois outra e outra e outra. Todos os dias uma vítima nova e todos os dias uma autópsia de tortura e uma combinação de golpes graves, minuciosos, metódicos, estrategicamente desferidos para deixar a presa esvair-se em sangue, com o tempo contado.
Todas as noites uma mulher estranha, todas as noites a obsessão com o relógio, todas as noites um ritual cronometrado, todas as noites um sorriso indecifrável, todas as manhãs uma morte misteriosa. Era-me inevitável procurar uma ponte entre os eventos, impossível dissociar os acontecimentos... Mas uma vez mais deixei-me seduzir.
Nessa noite, após o sexo, ela acendeu o cigarro e deslocou-se para a janela. Todavia, desta vez não fitou o horizonte. Em vez disso, voltou-se, olhou cinco segundos para o seu relógio e depois fixamente para mim.
Então percebi que era a minha hora.
Na noite em que a conheci, entrava à pressa pelo pub para fugir à tempestade que fustigava as ruas lá fora. Abrigava-se desajeitadamente debaixo de uma capa, ensopada dos pés à cabeça, de cabelos molhados colados ao rosto. Naquela noite o pub enchera; o espaço era acolhedor, quente e seco, e a música celta de fundo quase fazia esquecer o alvoroço da chuva e da trovoada.
Sentou-se ao balcão, no lugar vazio ao lado do meu, e pediu um chá quente. Depois, enquanto esperava, fixou-se no relógio que trazia no pulso, também ele encharcado pelo dilúvio. Apressou-se a enxugá-lo e demorou o olhar no mostrador, como que confirmando que os ponteiros não tinham atrasado um segundo que fosse. Mas não fiz caso; o perfume dela estava já demasiado entranhado em mim, sussurrando-me perigosamente.
Um chá e uns shots mais tarde, entrávamos pelo apartamento dela enrolados, selvagens, e no caminho até à bancada da cozinha atirávamos para o lado as botas, os sapatos e as roupas que nos separavam do sexo. Tudo saiu fora, excepto o relógio dela. Mas ela era fogo e eu não quis saber.
Depois do sexo, já na cama, ela acendeu um cigarro e dirigiu-se lentamente à janela, nua e de relógio no pulso. A chuva tinha parado. O luar entrava pela janela e descia-lhe pelos seios firmes, pela barriga e depois pelas coxas, num sensual jogo de luz e sombra. Do alto daquele décimo andar, observou o horizonte nocturno, olhou para o relógio e então respirou fundo, com uma satisfação que não compreendi. Depois, com um sorriso renovado nos lábios, serpenteou até à cama para uma nova dose.
Durante o dia não nos víamos, nem nos falávamos; não sabia o que fazia da vida ou tão-pouco o seu nome. Sabia apenas que tínhamos encontro tacitamente marcado no pub e assim as noites com ela repetiram-se dia após dia. E de todas as vezes, repetia-se o ritual. Quando conseguia tirar-lhe o relógio juntamente com a roupa, o relógio era a primeira coisa que ela colocava quando terminávamos. Depois o cigarro nos lábios, o caminho até à janela, a verificação milimétrica da hora no relógio e o sorriso vitorioso no fim.
As coisas começaram a ficar esquisitas quando no telejornal surgiu a notícia de uma brutal vítima de homicídio, numa vila tão pacata quanto aquela. E depois outra e outra e outra. Todos os dias uma vítima nova e todos os dias uma autópsia de tortura e uma combinação de golpes graves, minuciosos, metódicos, estrategicamente desferidos para deixar a presa esvair-se em sangue, com o tempo contado.
Todas as noites uma mulher estranha, todas as noites a obsessão com o relógio, todas as noites um ritual cronometrado, todas as noites um sorriso indecifrável, todas as manhãs uma morte misteriosa. Era-me inevitável procurar uma ponte entre os eventos, impossível dissociar os acontecimentos... Mas uma vez mais deixei-me seduzir.
Nessa noite, após o sexo, ela acendeu o cigarro e deslocou-se para a janela. Todavia, desta vez não fitou o horizonte. Em vez disso, voltou-se, olhou cinco segundos para o seu relógio e depois fixamente para mim.
Então percebi que era a minha hora.
quarta-feira, agosto 24, 2016
Hoje Não Janto
Eu podia ter muitos defeitos, mas se havia coisa que eu era, quando não me dava para ser procrastinadora, era determinada. Quando era para ser, era para ser! E então lá enchi os pulmões de coragem, saltei da cama e enfrentei o mundo para lá da porta. Nem me dei tempo para me vestir apropriadamente para a ocasião.
É claro que o alvo invisível que tenho desenhado na testa fez efeito de imediato e de súbito tinha vinte pares de olhos, incluindo os da florista da esquina, a sondar cada quilo e centímetro a mais do meu corpo e cada poro da minha pele que há anos não via o sol. Escondi o embaraço por entre os meus cabelos oleosos e hesitei por meio segundo. Mas era a última vez que veria cada uma daquelas caras, cada um daqueles esgares afectados e enojados, portanto eles que olhassem. Pavoneei-me até um pouco, para sentir o sabor, para quebrar por segundos os hábitos já velhos.
A escolha do local ainda me proporcionou alguns debates acesos. Aparentemente temos todos uma ideia muito diferente do que é o sítio ou a forma ideal. Para uns é através de comprimidos, para outros a linha de comboio, para outros a forca caseira... Para mim era claro, não havia grande discussão. Era atirar-me de um ponto alto para o vazio, de coração aberto e olhos fechados, e esperar com todas as forças que Deus me apanhasse a meio caminho, ou depois dele, e me resolvesse todos os meus problemas.
Dentro da opção, pessoalmente, sempre achei a ideia da ponte absurda. Romântica e poética de mais, como se na água doesse menos. Dizem que antes do embate batemos a bota por asfixia, mas, amigos, àquela altura, água é cimento. Betão armado, de braços abertos à nossa espera. No entanto... cimento por cimento, foi precisamente pela ponte que optei. Pensei para mim que talvez me soubesse bem, intimamente bem, ter por cenário o pôr-do-sol sobre o rio Tejo, que é uma coisa que sempre quis ver e, obviamente, nunca vi. Além disso, da ponte é muito mais prático: não se empata o trânsito nas horas seguintes.
Avancei tranquilamente por Lisboa, na mota da minha irmã, despedindo-me em silêncio daquelas ruas que mal conhecia, e encostei calmamente a meio do tabuleiro da 25 de Abril, encenando uma paragem para manutenção de emergência.
O trânsito do fim de tarde prosseguiu normalmente atrás de mim e isso sossegou-me. Tinha aquele momento para mim. Então, inspirei fundo como nunca antes tinha inspirado. Ali, de cintura pressionada contra o corrimão da ponte, não havia medo. Não havia sufoco. Não havia ódio, nem nojo. Não havia obsessão. Não havia quilos a mais. Não havia a vontade de devorar tudo, nem a culpa de ter devorado. Não havia cortes nem cicatrizes na pele. Não havia o sabor a bílis e a sangue na boca. Não havia amígdalas inchadas. Não havia queda de cabelo nem tão-pouco queda de amor próprio. Havia, sim (para lá do trânsito e do odor nauseabundo da gasolina), o bater das ondas nas docas lá em baixo, o cheiro húmido da maresia no ar, as gaivotas cacarejando ao longe e o insubstituível pôr-do-sol lisboeta, com o sol espelhado em mil reflexos na água e o céu do mais bonito laranja que pode haver. Acho que esbocei um sorriso e, por uma vez, me senti viva e livre dentro deste corpo morto que teima em aprisionar-me. Hoje venço eu.
O relógio no meu pulso apita. São 20h30, é hora de ir. Às 21h darei à costa, já livre se Deus quiser, e os meus pais e a minha maninha terão a despedida que eu não fui capaz de lhes dar. Avisei-os só de que hoje não jantava.
Debruço-me para a frente e começo a escorregar pelo corrimão, de frente para o pôr-do-sol. Fecho os olhos. Respiro fundo e com toda a calma do mundo dou o impulso final. De olhos fechados, já solta, sinto-me em queda livre atrás do peso da minha cabeça... É agora. Finalmente.
Só espero que não doa.
É claro que o alvo invisível que tenho desenhado na testa fez efeito de imediato e de súbito tinha vinte pares de olhos, incluindo os da florista da esquina, a sondar cada quilo e centímetro a mais do meu corpo e cada poro da minha pele que há anos não via o sol. Escondi o embaraço por entre os meus cabelos oleosos e hesitei por meio segundo. Mas era a última vez que veria cada uma daquelas caras, cada um daqueles esgares afectados e enojados, portanto eles que olhassem. Pavoneei-me até um pouco, para sentir o sabor, para quebrar por segundos os hábitos já velhos.
A escolha do local ainda me proporcionou alguns debates acesos. Aparentemente temos todos uma ideia muito diferente do que é o sítio ou a forma ideal. Para uns é através de comprimidos, para outros a linha de comboio, para outros a forca caseira... Para mim era claro, não havia grande discussão. Era atirar-me de um ponto alto para o vazio, de coração aberto e olhos fechados, e esperar com todas as forças que Deus me apanhasse a meio caminho, ou depois dele, e me resolvesse todos os meus problemas.
Dentro da opção, pessoalmente, sempre achei a ideia da ponte absurda. Romântica e poética de mais, como se na água doesse menos. Dizem que antes do embate batemos a bota por asfixia, mas, amigos, àquela altura, água é cimento. Betão armado, de braços abertos à nossa espera. No entanto... cimento por cimento, foi precisamente pela ponte que optei. Pensei para mim que talvez me soubesse bem, intimamente bem, ter por cenário o pôr-do-sol sobre o rio Tejo, que é uma coisa que sempre quis ver e, obviamente, nunca vi. Além disso, da ponte é muito mais prático: não se empata o trânsito nas horas seguintes.
Avancei tranquilamente por Lisboa, na mota da minha irmã, despedindo-me em silêncio daquelas ruas que mal conhecia, e encostei calmamente a meio do tabuleiro da 25 de Abril, encenando uma paragem para manutenção de emergência.
O trânsito do fim de tarde prosseguiu normalmente atrás de mim e isso sossegou-me. Tinha aquele momento para mim. Então, inspirei fundo como nunca antes tinha inspirado. Ali, de cintura pressionada contra o corrimão da ponte, não havia medo. Não havia sufoco. Não havia ódio, nem nojo. Não havia obsessão. Não havia quilos a mais. Não havia a vontade de devorar tudo, nem a culpa de ter devorado. Não havia cortes nem cicatrizes na pele. Não havia o sabor a bílis e a sangue na boca. Não havia amígdalas inchadas. Não havia queda de cabelo nem tão-pouco queda de amor próprio. Havia, sim (para lá do trânsito e do odor nauseabundo da gasolina), o bater das ondas nas docas lá em baixo, o cheiro húmido da maresia no ar, as gaivotas cacarejando ao longe e o insubstituível pôr-do-sol lisboeta, com o sol espelhado em mil reflexos na água e o céu do mais bonito laranja que pode haver. Acho que esbocei um sorriso e, por uma vez, me senti viva e livre dentro deste corpo morto que teima em aprisionar-me. Hoje venço eu.
O relógio no meu pulso apita. São 20h30, é hora de ir. Às 21h darei à costa, já livre se Deus quiser, e os meus pais e a minha maninha terão a despedida que eu não fui capaz de lhes dar. Avisei-os só de que hoje não jantava.
Debruço-me para a frente e começo a escorregar pelo corrimão, de frente para o pôr-do-sol. Fecho os olhos. Respiro fundo e com toda a calma do mundo dou o impulso final. De olhos fechados, já solta, sinto-me em queda livre atrás do peso da minha cabeça... É agora. Finalmente.
Só espero que não doa.
sexta-feira, julho 29, 2016
Um Jantar Romântico
Sou refém na minha própria casa.
Refém dele, de uma ira que não sei de onde vem.
Perdemo-nos um do outro com o tempo. Perdemo-nos na rotina. Na obsessão com o trabalho e na gradual desvalorização de todas as outras coisas fundamentais na nossa vida, desenhada para ser vivida a dois. E somos dois, mas somos um e um, duas pessoas em mundos cada vez mais afastados, muito embora sob um só tecto. Duas marionetas dançando ao som do vento em pontas opostas do mesmo palco.
Fui perdendo espaço, fui perdendo brilho. Aos poucos perdi a voz. Mas ele, para quem a minha voz se tornou zumbido de mosca e dores de cabeça, para além de de mim, perdeu-se dele, como se alguém tivesse cortado as cordas da sua marioneta. Transformou-se numa máquina. Deixou de saber olhar-me, deixou de saber tocar-me e deixou de saber falar-me, salvo para me mandar trazer-lhe mais uma cerveja ou não sair de casa sem a sua autorização, sob ameaça - não, sob promessa - de agressão. E eu deixei de o conhecer, sem no entanto conseguir deixar de o amar, de amar a memória dele, e passei a temê-lo, da ponta dos meus pés à ponta dos meus cabelos. Mas em silêncio, sempre em silêncio, incapaz de fugir. A minha sentença é amá-lo tanto.
É hora de jantar e a raiva dele telefonou-me há pouco. Está a caminho de casa e vai usar-me outra vez para descarregar a doença que o corrói por dentro. Apressei-me a esconder-me num armário da cozinha, por debaixo do lava-loiças, para adiar o inevitável. E agora espero.
Oiço a porta de casa escancarar-se e oiço-o gritar o meu nome três vezes. Oiço-lhe os passos pesados, provavelmente bêbados, cambaleando pelo corredor fora. Oiço as portas serem abertas e fechadas com um estrondo à medida que passa. E reconhecendo os cantos à casa sei que já me procurou na sala, no quarto, no quarto de visitas, na casa-de-banho e na despensa. Oiço-o cada vez mais próximo e o meu corpo vai antecipando já a dor das pancadas que se avizinham. O meu coração bate a mil, tão forte que receio que consiga ouvir-me aqui dentro.
A porta da cozinha abre-se com aquilo que me parece ser um pontapé. Abre o primeiro armário e fecha-o com uma brutalidade tal que oiço qualquer coisa a partir-se. Pressinto que há qualquer coisa de errado. Parece-me mais violento do que o costume. Então reconheço o som da faca de cozinha a deslizar para fora do suporte e ele torna a berrar. "ONDE ESTÁS, MINHA CABRA?!"
Engulo em seco. Não sei o que vai acontecer e nunca senti tanto pânico na vida. Estou prestes a vomitar.
Há cinco armários na cozinha onde podia ter-me escondido e ele já rebentou com quatro.
O meu é o próximo.
Refém dele, de uma ira que não sei de onde vem.
Perdemo-nos um do outro com o tempo. Perdemo-nos na rotina. Na obsessão com o trabalho e na gradual desvalorização de todas as outras coisas fundamentais na nossa vida, desenhada para ser vivida a dois. E somos dois, mas somos um e um, duas pessoas em mundos cada vez mais afastados, muito embora sob um só tecto. Duas marionetas dançando ao som do vento em pontas opostas do mesmo palco.
Fui perdendo espaço, fui perdendo brilho. Aos poucos perdi a voz. Mas ele, para quem a minha voz se tornou zumbido de mosca e dores de cabeça, para além de de mim, perdeu-se dele, como se alguém tivesse cortado as cordas da sua marioneta. Transformou-se numa máquina. Deixou de saber olhar-me, deixou de saber tocar-me e deixou de saber falar-me, salvo para me mandar trazer-lhe mais uma cerveja ou não sair de casa sem a sua autorização, sob ameaça - não, sob promessa - de agressão. E eu deixei de o conhecer, sem no entanto conseguir deixar de o amar, de amar a memória dele, e passei a temê-lo, da ponta dos meus pés à ponta dos meus cabelos. Mas em silêncio, sempre em silêncio, incapaz de fugir. A minha sentença é amá-lo tanto.
É hora de jantar e a raiva dele telefonou-me há pouco. Está a caminho de casa e vai usar-me outra vez para descarregar a doença que o corrói por dentro. Apressei-me a esconder-me num armário da cozinha, por debaixo do lava-loiças, para adiar o inevitável. E agora espero.
Oiço a porta de casa escancarar-se e oiço-o gritar o meu nome três vezes. Oiço-lhe os passos pesados, provavelmente bêbados, cambaleando pelo corredor fora. Oiço as portas serem abertas e fechadas com um estrondo à medida que passa. E reconhecendo os cantos à casa sei que já me procurou na sala, no quarto, no quarto de visitas, na casa-de-banho e na despensa. Oiço-o cada vez mais próximo e o meu corpo vai antecipando já a dor das pancadas que se avizinham. O meu coração bate a mil, tão forte que receio que consiga ouvir-me aqui dentro.
A porta da cozinha abre-se com aquilo que me parece ser um pontapé. Abre o primeiro armário e fecha-o com uma brutalidade tal que oiço qualquer coisa a partir-se. Pressinto que há qualquer coisa de errado. Parece-me mais violento do que o costume. Então reconheço o som da faca de cozinha a deslizar para fora do suporte e ele torna a berrar. "ONDE ESTÁS, MINHA CABRA?!"
Engulo em seco. Não sei o que vai acontecer e nunca senti tanto pânico na vida. Estou prestes a vomitar.
Há cinco armários na cozinha onde podia ter-me escondido e ele já rebentou com quatro.
O meu é o próximo.
quinta-feira, julho 14, 2016
O Homem no Escritório
Deixei por resignação que as circunstâncias da vida me encurralassem e se empilhassem à minha volta, como pedras erguendo um poço. E era no fundo desse poço que me encontrava nos últimos tempos. Cansada de lutar, encostei-me à parede rugosa e deixei-me deslizar até ficar sentada a um canto, sobre dois dedos de água fria, ao som do meu próprio eco.
O meu corpo navegava em piloto-automático. Da cama para a cozinha - para dar o pequeno-almoço aos miúdos -, de casa para a escola deles, da escola para o escritório, do escritório para a escola, da escola para o supermercado, do supermercado para casa, da garagem para a cozinha para lavar a roupa e preparar o jantar, da cozinha para a mesa e da mesa para a secretária para fazer contas às facturas, à saúde e à vida. As últimas quatro horas do dia passava-as algures entre o sofá, com a televisão a cantar para ninguém, e a cama, grande demais para uma pessoa só. Uma parte de mim assistia em primeira fila a toda essa rotina que tocava em repeat, a outra consumia as últimas forças de mim para se espremer contra o canto mais sombrio do meu poço imaginário.
Tanto assim que, naquele dia em que o céu cinzento resolveu desfazer-se numa chuvada torrencial e tornar-me o dia mais negro, não reconheci o rosto que, quando parti o salto e me espalhei ao comprido no open space do escritório, me estendeu um sorriso e uma mão amiga para me levantar. Sabia em mim que já o teria visto por lá, ou noutro lado qualquer, mas nunca fiz por saber o seu nome, de onde vinha ou o que fazia. E no entanto ali estava ele, quando tudo o resto se limitava a olhar, com escárnio estampado no rosto.
O meu piloto-automático entrou em curto-circuito. A ternura do seu sorriso sabia ao mesmo a que sabe um cobertor pesado numa noite de inverno, ou quiçá roupas quentes, secas, num dia de chuva. Por uns segundos, quando deixei que me tomasse a mão, as duas metades de mim - a do escritório e a do poço - uniram-se numa sinfonia silenciosa. Senti estremecer as pedras do meu poço e sobre a sua sombra vi cair um feixe de luz.
No momento seguinte, estava de pé e depois sentada, de volta aos meus papéis e dossiers, de volta ao meu piloto-automático, e ele de volta ao gabinete ao fundo do corredor. Procurando uma nesga de controlo sobre o meu corpo, desviei para ele o olhar. Via-o cirandar através da porta, de vidro, falando para o ar e escutando e acenando de seguida, como se conversasse com um amigo que em boa verdade não existia. E ria-se de novo. Tive a certeza de que era a única pessoa naquele open space a assistir àquela loucura.
E então, quando deixou de falar, como se pudesse sentir-me a observá-lo, levantou a cabeça e olhou-me fixamente. Sustive a respiração, invadida, e recolhi-me em mim. Sorriu-me uma última vez, o calor terno atravessando o corredor que nos separava, e então dirigiu-se à janela mais próxima, girou lentamente a maçaneta, trepou e pulou para o vazio.
Retesei-me subitamente, pregada à cadeira. Foi como se me passasse um comboio por cima. Incapaz de me mover, engoli em seco e senti-me a ser de novo arrastada para o fundo do meu poço, o desgosto a apoderar-se de mim e o alento a fugir-me algures entre duas respirações consecutivas. Resignei-me de novo: havia sempre carros e gente a passar na rua, lá em baixo; de ouvido atento, esperei no conforto do meu abismo pelo estrondo do seu corpo pesado sobre um carro, pelo estilhaço de vidros vaporizando-se e pelos gritos de pânico esganiçados que se seguiriam.
Esperei um segundo, depois outro. Depois outro e...
Nada. Apenas o silêncio do escritório e um leve travo a chuva e buzinas lá fora, que me chegava através daquela janela aberta.
Confusa, e ciente de que era a única a aperceber-se de todo aquele cenário caricato, atirei com a cadeira para trás, corri descalça até à janela e debrucei-me sobre o parapeito, a chuva e as luzes e as buzinas a beijarem-me docemente a cara.
Olhei a toda a volta.
Mas não havia sinal d'Ele.
O meu corpo navegava em piloto-automático. Da cama para a cozinha - para dar o pequeno-almoço aos miúdos -, de casa para a escola deles, da escola para o escritório, do escritório para a escola, da escola para o supermercado, do supermercado para casa, da garagem para a cozinha para lavar a roupa e preparar o jantar, da cozinha para a mesa e da mesa para a secretária para fazer contas às facturas, à saúde e à vida. As últimas quatro horas do dia passava-as algures entre o sofá, com a televisão a cantar para ninguém, e a cama, grande demais para uma pessoa só. Uma parte de mim assistia em primeira fila a toda essa rotina que tocava em repeat, a outra consumia as últimas forças de mim para se espremer contra o canto mais sombrio do meu poço imaginário.
Tanto assim que, naquele dia em que o céu cinzento resolveu desfazer-se numa chuvada torrencial e tornar-me o dia mais negro, não reconheci o rosto que, quando parti o salto e me espalhei ao comprido no open space do escritório, me estendeu um sorriso e uma mão amiga para me levantar. Sabia em mim que já o teria visto por lá, ou noutro lado qualquer, mas nunca fiz por saber o seu nome, de onde vinha ou o que fazia. E no entanto ali estava ele, quando tudo o resto se limitava a olhar, com escárnio estampado no rosto.
O meu piloto-automático entrou em curto-circuito. A ternura do seu sorriso sabia ao mesmo a que sabe um cobertor pesado numa noite de inverno, ou quiçá roupas quentes, secas, num dia de chuva. Por uns segundos, quando deixei que me tomasse a mão, as duas metades de mim - a do escritório e a do poço - uniram-se numa sinfonia silenciosa. Senti estremecer as pedras do meu poço e sobre a sua sombra vi cair um feixe de luz.
No momento seguinte, estava de pé e depois sentada, de volta aos meus papéis e dossiers, de volta ao meu piloto-automático, e ele de volta ao gabinete ao fundo do corredor. Procurando uma nesga de controlo sobre o meu corpo, desviei para ele o olhar. Via-o cirandar através da porta, de vidro, falando para o ar e escutando e acenando de seguida, como se conversasse com um amigo que em boa verdade não existia. E ria-se de novo. Tive a certeza de que era a única pessoa naquele open space a assistir àquela loucura.
E então, quando deixou de falar, como se pudesse sentir-me a observá-lo, levantou a cabeça e olhou-me fixamente. Sustive a respiração, invadida, e recolhi-me em mim. Sorriu-me uma última vez, o calor terno atravessando o corredor que nos separava, e então dirigiu-se à janela mais próxima, girou lentamente a maçaneta, trepou e pulou para o vazio.
Retesei-me subitamente, pregada à cadeira. Foi como se me passasse um comboio por cima. Incapaz de me mover, engoli em seco e senti-me a ser de novo arrastada para o fundo do meu poço, o desgosto a apoderar-se de mim e o alento a fugir-me algures entre duas respirações consecutivas. Resignei-me de novo: havia sempre carros e gente a passar na rua, lá em baixo; de ouvido atento, esperei no conforto do meu abismo pelo estrondo do seu corpo pesado sobre um carro, pelo estilhaço de vidros vaporizando-se e pelos gritos de pânico esganiçados que se seguiriam.
Esperei um segundo, depois outro. Depois outro e...
Nada. Apenas o silêncio do escritório e um leve travo a chuva e buzinas lá fora, que me chegava através daquela janela aberta.
Confusa, e ciente de que era a única a aperceber-se de todo aquele cenário caricato, atirei com a cadeira para trás, corri descalça até à janela e debrucei-me sobre o parapeito, a chuva e as luzes e as buzinas a beijarem-me docemente a cara.
Olhei a toda a volta.
Mas não havia sinal d'Ele.
quinta-feira, julho 07, 2016
Tango Mortal
Ele era apenas um miúdo.
Além de cheiro e memória, a morte tem cor. É vermelha e é negra. E no entanto não tem nada de colorida. Deixa-me as mãos em sangue, a alma em brasa e a mente em ferida. No cru jogo da guerra não há espaço para ser-se ético. Pode haver na morte cor, mas não há nada de poético.
Ele era apenas um miúdo. Mas vendo-me desarmado não hesitei em lançar as mãos ao seu pescoço e em apertá-lo entre os meus dedos com todas as energias que tinha em mim.
Dançávamos um tango a dois. Eu apertava-lhe o pescoço e a vida nele para que ele não pudesse apertar o gatilho que me tiraria a minha. O instinto de sobrevivência percorria-me de alto a baixo, demorava-se no meu coração durante três rápidas batidas e depois dispersava para os meus braços. Depois para os meus dedos. E por fim para o pescoço dele.
Mantivemo-nos nesse ritmo incansável, cedendo e conquistando espaço de dança em alternância, até que a música parou. Sob o peso do meu corpo e das minhas mãos feridas, o pescoço dele finalmente sucumbiu, quebrando com a mesma fragilidade com que se partem galhos secos. Ouvi-lhe um estalido surdo e o ar a fugir-lhe de vez dos pulmões. Larguei-lhe por fim a garganta, os meus dedos roxos e hirtos da força, e rebolei para longe do corpo dele, rolando sobre as costas.
Podia ser apenas um miúdo, mas se em vez de lhe apertar o pescoço eu o tivesse deixado premir aquele gatilho, hoje estaríamos não a caminho do meu casamento, mas do meu funeral.
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