terça-feira, dezembro 27, 2016

Feliz Natal

As palavras "feliz natal" soaram-me vazias na cabeça, como um eco quase mudo repercutindo-se à distância. Leve como uma pena deixada ao vento, ao acaso. 

Podíamos ter o frio no ar, as luzes na rua, a lareira em casa, o presépio na entrada, o peru e o bacalhau no forno, a árvore na sala e os presentes debaixo dela. Mas há muito que o natal deixou de significar presentes para significar família.

Tinha para mim o natal como um interregno nos nossos calendários preenchidos e ocupados, nos nossos empregos, nas nossas vidas aceleradas e espalhadas pelos cantos do mundo, para nos revermos uns aos outros. Um momento de introspecção para nos focarmos em nós enquanto família e, nesse exercício, esquecermos por dois dias tudo o resto e gozarmos um pouco de paz em conjunto. Especialmente quando, à medida que os anos passam, nunca sabemos quando será o último natal para alguém.

Mas este ano isso escapou-nos por entre os dedos. Montámos o cenário com toda a pompa e circunstância, mas esquecemo-nos de fechar os olhos e olhar para dentro, para aquilo que verdadeiramente importa. Agarrámo-nos ao orgulho próprio, egoísta, e à intolerância. Esquecemo-nos de amar. Esquecemo-nos de perdoar. E apodrecemos por dentro, vítimas do nosso próprio veneno.

Éramos seis, mas éramos um. Um corpo bem constituído, felizmente bem alimentado e saudável. O pai era o cérebro, a razão; a mãe o coração, a emoção; e nós irmãos, que somos quatro, as pernas e os braços com que corríamos o mundo e nos agarrávamos aos nossos sonhos. E no entanto, algures no tempo, cedemos a uma febre qualquer e adoecemos gravemente. Ignorámos que são as nossas diferenças que nos fazem melhores e mais completos e levantámos o nosso próprio faroeste debaixo do nosso telhado, debaixo da nossa pele. Trocámos tiros em todas as direcções. Um tiro no pé. Um na cabeça, um no coração e outros quatro nas pernas e braços, numa amputação lenta. E começámos a sangrar. 

Este ano não me sentei para ver um filme em família, muito menos um serão inteiro deles como sempre fazíamos, muitas vezes após a ceia de natal e a troca de presentes, já a altas horas da madrugada. Não consegui desfrutar de cada segundo da incrível boa disposição do meu avô, que tanto admiro e que vem à tona já a grande custo. Nem consegui estar em casa mais tempo do que o necessário. Saí à primeira oportunidade, porque casa não é casa quando o teu coração quer estar em todo o lado menos ali.

Por isso, sim, as palavras "feliz natal" soaram-me vazias na cabeça, como um eco quase mudo repercutindo-se à distância. Leve como uma pena deixada ao vento, ao acaso.

Fiz o meu papel de feliz, mas toda a gente sabe que um papel amachucado jamais volta ao sítio. Eu nem queria um feliz natal; só queria a minha família de volta.

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Estrelas no Céu

O dia nasceu sem cor, como todos os outros para mim desde aquela noite.

O telefone tocou de mansinho e eu estremeci da cabeça aos pés. Estremeço sempre que o sinto vibrar, só de recordar aquela chamada da Mãe que me arrancou do sono para me dar a notícia. Aquele murro no estômago que adorava nunca ter sentido.

Puxei o telemóvel do bolso e tive um breve vislumbre do teu sorriso, eterno no meu fundo de ecrã, antes de surgir a imagem da Mãe a chamar do outro lado da linha. Sabia que dia era hoje e portanto hesitei por uns segundos.

Atendi.

Senti-lhe na voz a dor e as lágrimas, bem como o esforço que fazia para as esconder entre soluços leves. Num murmúrio, deu-me os parabéns que não pôde dar-te a ti. Fazes dezassete anos hoje. Farias, aliás... Mas faz um ano que partiste. Faz um ano que a merda do SMS urgente te levou de nós a ferros. A pneus e a pára-choques. Assim, sem mais.

Este mundo é um lugar cruel e tu, de todas as pessoas, não merecias isto.

Desligo a chamada e a tua fotografia volta a ocupar o ecrã, no teu vestido azul, a sorrir para mim. Estás aqui há um ano. Que saudades que eu tenho desse teu sorriso que iluminava tudo e todos. Da tua gargalhada que me aquecia o coração. Desses teus olhões que viam o mundo de outra forma.

Lembro-me repentinamente dos nossos serões à lareira, tu a ler o teu livro de cabeça apoiada no meu colo, toda intelectual, e eu a ver filmes sem som para não te incomodar. Dava tudo só por mais um dia. Só para poder voltar a sentir a tua cabeça quente contra a minha barriga. Para poder voltar a coçar-te a nuca e a afagar-te o cabelo até adormeceres no meu abraço. Para poder voltar a carregar-te nos braços escada acima, numa guerra para não deixar cair a manta com que te tapavas, e deitar-te na cama. Só para poder voltar a dar-te um último beijo de boa noite. Dava tudo... Tudo.

Demoro-me um bocado a olhar o céu.
Imagino que tenhas encontrado aí um lugar e que andes por aí aos pinotes, ligada à corrente, como boa pulga que sempre foste. A espalhar o teu riso aos ventos e a contagiar todas as outras estrelas com esse teu brilho. És o meu orgulho.

Onde quer que estejas, por favor sê feliz.
Com carinho, um beijo na testa do teu irmão que tanto te ama.

Parabéns, Miúda.

(P.s.: Por favor controla a chuva de perdigotos no bolo.)

[Primeira parte em: http://vidadepoetamilitar.blogspot.com/2016/01/bittersweet-sixteen.html?m=1 ]

domingo, novembro 27, 2016

Sem Rasto

É bom ser-se sozinha.
O que eu não me lembrava é que é ainda melhor ter alguém e ser de alguém.

Há dois anos que eu não tinha ninguém. Dava demasiado valor a ter-me a mim mesma e não estava disposta a abdicar de metade de mim para qualquer pessoa. Longe iam os tempos em que perderia fôlego por apenas uns beijos e uns dias de diversão. Já não tenho a idade, nem tão-pouco a paciência. Mas com ele era diferente.

Havia qualquer coisa nele que mexia comigo. Que me cativava. De alguma forma, as palavras e os silêncios dele agitavam levemente as próprias fundações do meu ser. São precisos dois para dançar o tango e ele sabia dançar comigo. Com as minhas manias, as minhas virtudes e os meus defeitos. Escutava-me quando eu queria que me escutasse, respondia quando devia responder e sabia não falar quando, sem o dizer, eu me queria para mim própria. Escutava-me para me ouvir e não para me responder. E ouvindo, respondia-me em desafio, em profundidade, contra a superficialidade trivial da maioria das conversas de hoje. E ríamos; ríamos muito.

Voltei a sentir o sabor de poder ter e ser de alguém. A respiração no pescoço e o bater de outro coração no meu ouvido. O sorriso nervoso e as borboletas no estômago. Nunca fui de pieguices, mas pensei até para mim que talvez tivesse chocado por acidente com uma metade perdida da minha alma. Éramos diferentes, claro que éramos, mas éramos também muito iguais. E viajávamos muito, mesmo que só conversando.

Fazíamos planos de ir ver o mundo, de avião, de carro, de canoa e a pé. De ver mil e um pores-do-sol. De dançar à chuva. De ir ver as primeiras neves do Inverno, pelo Natal, e de desenhar nela anjos com os nossos corpos, como nos filmes. De desligarmos de toda a gente durante uma semana no campo e de rebolarmos como crianças por toda a extensão de prados verdes. De, a seu tempo, trocarmos alianças e de nos afirmarmos ao mundo, aos nossos e a Deus no altar. De construirmos a nossa casa e depois a nossa família. De termos a nossa própria árvore de natal.

Podia continuar. Mas nós, que viajámos tanto, perdemo-nos algures no caminho. Não sei onde, nem porquê. Num segundo seguíamos juntos e estavas lá, no outro seguiste por uma rua diferente e desapareceste de mim.

Sem explicações, sem rasto e com muitos sonhos meus.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Maratonas

Eu prefiro maratonas.

Desde que aprendi a andar, desenvolvi depressa o gosto pela corrida. Primeiro por necessidade, para fugir ao caniche que teimava em perseguir-me pelos corredores de casa, e mais tarde para apanhar o autocarro no último minuto a caminho da escola, para aproveitar no limite o tempo que tinha para privar com a minha cama em pleno inverno. A velocidade era a chave, fosse para salvar a pele de uns dentes irritantemente afiados ou de um recado na caderneta da escola.

Com o tempo, a corrida ganhou outra consistência e outro peso na minha vida. Tornei-me num velocista nato: o prazer de ser o primeiro a cruzar a meta, fosse ela qual fosse, enchia-me as medidas. Os 100 metros, os 200 metros, os 400 e as barreiras. O sabor não vivia no trajecto, nos obstáculos ou nas condicionantes à volta; os meus olhos apontavam apenas para a linha final, para o objectivo, e o resto era fumo e nevoeiro que eu escolhia não ver por entre as passadas rápidas. Lançava-me de cabeça, com o sangue fervilhando a todo o vapor, e esticava-me no ar numa questão de segundos para agarrar o que houvesse para lá da meta. E era esse o meu amor pela corrida.

A coisa engraçada da idade é que muda a nossa perspectiva do mundo e das coisas. Começas a valorizar os pequenos detalhes. O bater do coração a cada metro, o comprimento da passada, o controlo da respiração e a gestão do cansaço, procurando a harmonia perfeita entre velocidade e resistência. Quando tomas o gosto pela corrida, queres é correr o máximo de tempo que puderes. Trocas a velocidade pelo fundo. O sprint pela maratona.

A linha final perde expressão e ser o primeiro deixa de ser objectivo. O teu objectivo passa a ser conseguir chegar até ela, até à meta, àquela mais longínqua e mais distante a que a maioria não chega. Triunfar quando os restantes ficam pelo caminho. Trabalhas a resistência em vez da velocidade. A paciência em vez da fúria. E de todas as vezes estabeleces para ti uma meta mais além, pelo desafio para contigo mesmo.

Eu prefiro maratonas.

De que outra forma teria fôlego para correr meio mundo até ti?

sexta-feira, novembro 11, 2016

Não Cai Só Chuva do Céu

O chão e as paredes tremeram pela primeira vez.

Estava frio na cave; a electricidade já tinha ido abaixo e o inverno ríspido instalava-se-nos nos ossos. Sem luz nem radiador, a escuridão era interrompida apenas pela tímida nesga de luz que descia pela brecha de janela junto ao tecto. Apertava contra mim a minha mulher e os meus dois filhos, que tremiam como o chão e as paredes, enquanto nos envolvia no único cobertor que consegui encontrar.
Ninguém falava.

O meu pai costumava dizer-me em miúdo que o medo tem cheiro e que sempre que um Homem tem medo é possível senti-lo no ar. Ouvia-lhe agora a voz sussurrar-mo ao ouvido e prolongando-se na minha cabeça, tão claramente quanto há 30 anos atrás. Se na altura, em tenra idade, lhe tomei o conselho como incentivo a não demonstrar o medo, hoje reconhecia-lhe a razão. Cheirava-se efectivamente no ar. No nosso ar, na cave - na minha mulher, nos meus filhos e, Deus, até em mim -, e no ar lá fora, nas ruas desertas, nos pelotões de homens armados do Führer e nos carros blindados que patrulhavam a cidade a cada meia hora, nos latidos dos cães ao longe, nas caves atulhadas de famílias como a nossa e agora no chão e nas paredes que tremiam.

Além de nos cheirar o medo, eu era capaz de nos ouvir bater os corações, sem ritmo certo e cada vez mais fortes, como se quisessem saltar-nos do peito e esgueirar-se pela janela junto ao tecto para fugirem dali. Mas, embora não pudesse dizer-lhes nada quanto a isso, em especial aos dois miúdos que o negrume da cave já não me permitia ver, eu sabia que para nós era tarde demais.

O chão e as paredes tremeram segunda vez.
As bombas começaram a cair.

terça-feira, novembro 08, 2016

Preto no Branco

Tiveste sorte.

Tiveste sorte de nascer num hospital. Tiveste sorte de ser criado num berço, debaixo de um tecto e rodeado de brinquedos. Tiveste sorte de ter roupa lavada. Tiveste sorte de ter roupa. Tiveste sorte de ter sapatos. Tiveste sorte de não saber o que é o frio. Tiveste sorte de não saber o que é ter os pés massacrados pelo chão que pisas.

Tiveste sorte de ter comida no prato três vezes por dia. Tiveste sorte de ter comida no prato. Tiveste sorte de ter prato. Tiveste a sorte de saber o que é comida. Tiveste sorte de não saber o que é a fome. Tiveste sorte de saber o que é a água e de não saber o que é a sede quando o sol te come a pele aos poucos.

Tiveste sorte de ser visto. Tiveste sorte de ter voz e ser ouvido. Tiveste sorte de ter direito a uma opinião. Tiveste sorte de pertencer, de ser parte. Tiveste sorte de ter um emprego. Tiveste sorte de ter um serviço de saúde. Tiveste sorte de ver crescer saudáveis os teus filhos. Tiveste sorte de ver crescer os teus filhos. Tiveste sorte de poder viver os teus sonhos. Tiveste sorte de poder ver o mundo com todas as cores.

Mas não és capaz de ver que o teu mundo de sorte só vê a duas cores: preto e branco.

Eu sou o preto.
E tu tiveste sorte.

sábado, outubro 29, 2016

Quando Todo o Tempo é Pouco

Recordo-me do vulto súbito no meio da estrada, da guinada no volante e do chiar agressivo dos pneus... Num segundo fazíamos um agradável passeio nocturno, no outro despistávamo-nos para fora da estrada, contra o tronco de uma árvore. Um ribombar nos meus ouvidos e em todos os ossos do meu corpo. E depois silêncio.

Aos poucos recuperei a lucidez. Mexi os dedos dos pés à cautela. As dores em todo o corpo - e em especial no pescoço, no sufoco de um colar cervical - acordavam-me numa tortura lenta, ao som de um apito compassado, agudo e robótico. Tentei abrir os olhos logo que retomei o controlo de mim, mas o ardor era tal que desisti da ideia em menos de meio segundo.

Demorei a perceber que estava num hospital. Depois estranhei o colar, as ligaduras, os fios em que estava envolto, o catéter enfiado no meu braço e por fim as próprias dores. Juntei as peças e então recordei o veado na estrada e o nosso acidente... E então pensei nela.

Foi nesse preciso instante que o meu ouvido registou a primeira coisa para além dos bips que me martelavam a cabeça, de um médico para outro: "as lesões na medula são irreversíveis". Não, não, não!, esperem lá... "Confirmaram os resultados?", continuaram eles. Sentia partidos todos os ossos das minhas mãos, dentro das talas metálicas, mas cerrei os maxilares e os olhos com toda a força e cruzei mentalmente os dedos para nos desejar sorte. Talvez estivessem enganados. "Confirmámos, Doutor. Ela não tornará a andar." Ouvi bem. Sim, ouvi bem... Ela, a minha Ela, não voltará a andar.

Recuei no tempo sem mais nem ontem, sentindo já uma lágrima, dez lágrimas, a deslizar-me pela cara. Conheci-a aos 24, aquela doçura de miúda. Iniciámos o namoro aos 25, de borboletas na barriga, casámos aos 27, ela absolutamente magnífica, e aos 28, enquanto falávamos de ter um primeiro filho, tivemos um acidente de carro.

O tempo pára à tua volta e a tua bússola genética perde o norte e gira mil vezes sobre ti mesmo, para no fim te dizer que não sabe que caminho deves seguir. O teu mundo desaba pedra sobre pedra ao teu lado e tu nem consegues ouvi-lo ruir. Mas tens, queira Deus que te salvou desta, pelo menos quarenta anos pela frente e a tua mulher nunca mais voltará a andar.

Consegui abrir os olhos finalmente, para na cama ao lado encontrar os dela, já em lágrimas, postos em mim. Li-lhe neles quase um pedido de desculpas, como se houvesse nela qualquer tipo de culpa ou ressentimento. Como se não tivesse sido eu a virar o volante e a atirar-nos para estas camas de hospital e ela para uma cadeira de rodas para o resto da vida dela.

Lembro o nosso casamento como se tivesse sido não ontem, mas hoje de manhã. Lembro as alianças que trocámos, a aliança que lhe pus no dedo no dia mais feliz da minha vida. Lembro os votos dela, lembro os meus votos. E lembro que, ao enlaçar nela o meu amor, me comprometi com ela na saúde e na doença, até que a morte nos separe.

Então estendi-lhe a mão, apertei a dela nas minhas talas e abafando um grunhido de dor abanei a cabeça. Daqui não saio. Daqui não saio e carregar-te-ei para onde quiseres ir, até que as minhas peles se me engelhem na cara e no corpo e me faltem as forças. Dar-te-ei banho, pequeno-almoço, almoço e jantar, dentro e fora, e todo o amor em excesso que tenho para te dar, até que também eu, já de velho, deixe de poder andar.

E aí teremos todo o tempo do mundo.

domingo, outubro 09, 2016

Carta de Amor

Gostava genuinamente de ter nascido há cinquenta anos atrás.

O amor dos tempos modernos é uma cozedura rápida em lume brando. Serve-se em copo meio cheio, que é como quem diz meio vazio, e é posto de parte e substituído à primeira comichão. Mas tu e eu sabemos que o amor não é para ser vivido nem rápida, nem brandamente. E é para fazer comichão, que amor que é amor é intenso!

Gostava de ter nascido há cinquenta anos atrás só para te escrever uma carta de amor. Só pela aventura de investigar desenfreadamente a tua morada, pelo desafio de escolher as palavras certas, à tua medida, e pelo sabor de a deixar finalmente no correio. Pela ânsia da espera e pela imaginação do teu sorriso quando a lesses. Sim, isso valer-me-ia todo o trabalho, todo o tempo.

Mas hoje... Hoje não há tempo. Não há tempo para dedicar à nossa dita cara-metade, que hoje é uma e amanhã é outra; que as marés e os ventos vêm e voltam, sopram e levam umas coisas e trazem outras. Hoje é, com sorte, uma fotografia no Facebook, pirosa, foleira, enquanto se vê a bola com os amigos ou enquanto se vai às compras com as amigas; uma enxurrada de palavras melosas retiradas do Google e coladas a cuspo açucarado na publicação, ou numa mensagem pelo WhatsApp, com um relatório de entrega e por fim um Snap da cara-metade do momento a agradecer.

Perdeu-se a alma, perdeu-se a magia, e eu por mim, que sou pelo amor, não consigo sequer pensar em não te dedicar uma parte do meu dia. Todas as partes do meu dia, até, porque eu inteiro sem ti sou vazio. Podia passar horas a escrever-te, horas a escrever sobre ti, porque não passo sem esse sorriso que me ilumina e me incendeia e não vivo sem esse espírito indomável que te habita.

Por isso, sim. Gostava genuinamente de ter nascido há cinquenta anos atrás. Escrevia-te à mão uma carta de amor onde quer que parasses neste mundo, nem que tivesse eu próprio de o atravessar de uma ponta à outra.

Um beijo na testa

terça-feira, setembro 27, 2016

Time's up.

Ela tinha uma tara por relógios.

Na noite em que a conheci, entrava à pressa pelo pub para fugir à tempestade que fustigava as ruas lá fora. Abrigava-se desajeitadamente debaixo de uma capa, ensopada dos pés à cabeça, de cabelos molhados colados ao rosto. Naquela noite o pub enchera; o espaço era acolhedor, quente e seco, e a música celta de fundo quase fazia esquecer o alvoroço da chuva e da trovoada.

Sentou-se ao balcão, no lugar vazio ao lado do meu, e pediu um chá quente. Depois, enquanto esperava, fixou-se no relógio que trazia no pulso, também ele encharcado pelo dilúvio. Apressou-se a enxugá-lo e demorou o olhar no mostrador, como que confirmando que os ponteiros não tinham atrasado um segundo que fosse. Mas não fiz caso; o perfume dela estava já demasiado entranhado em mim, sussurrando-me perigosamente.

Um chá e uns shots mais tarde, entrávamos pelo apartamento dela enrolados, selvagens, e no caminho até à bancada da cozinha atirávamos para o lado as botas, os sapatos e as roupas que nos separavam do sexo. Tudo saiu fora, excepto o relógio dela. Mas ela era fogo e eu não quis saber.

Depois do sexo, já na cama, ela acendeu um cigarro e dirigiu-se lentamente à janela, nua e de relógio no pulso. A chuva tinha parado. O luar entrava pela janela e descia-lhe pelos seios firmes, pela barriga e depois pelas coxas, num sensual jogo de luz e sombra. Do alto daquele décimo andar, observou o horizonte nocturno, olhou para o relógio e então respirou fundo, com uma satisfação que não compreendi. Depois, com um sorriso renovado nos lábios, serpenteou até à cama para uma nova dose.

Durante o dia não nos víamos, nem nos falávamos; não sabia o que fazia da vida ou tão-pouco o seu nome. Sabia apenas que tínhamos encontro tacitamente marcado no pub e assim as noites com ela repetiram-se dia após dia. E de todas as vezes, repetia-se o ritual. Quando conseguia tirar-lhe o relógio juntamente com a roupa, o relógio era a primeira coisa que ela colocava quando terminávamos. Depois o cigarro nos lábios, o caminho até à janela, a verificação milimétrica da hora no relógio e o sorriso vitorioso no fim.

As coisas começaram a ficar esquisitas quando no telejornal surgiu a notícia de uma brutal vítima de homicídio, numa vila tão pacata quanto aquela. E depois outra e outra e outra. Todos os dias uma vítima nova e todos os dias uma autópsia de tortura e uma combinação de golpes graves, minuciosos, metódicos, estrategicamente desferidos para deixar a presa esvair-se em sangue, com o tempo contado.

Todas as noites uma mulher estranha, todas as noites a obsessão com o relógio, todas as noites um ritual cronometrado, todas as noites um sorriso indecifrável, todas as manhãs uma morte misteriosa. Era-me inevitável procurar uma ponte entre os eventos, impossível dissociar os acontecimentos... Mas uma vez mais deixei-me seduzir.

Nessa noite, após o sexo, ela acendeu o cigarro e deslocou-se para a janela. Todavia, desta vez não fitou o horizonte. Em vez disso, voltou-se, olhou cinco segundos para o seu relógio e depois fixamente para mim.

Então percebi que era a minha hora.

quarta-feira, agosto 24, 2016

Hoje Não Janto

Eu podia ter muitos defeitos, mas se havia coisa que eu era, quando não me dava para ser procrastinadora, era determinada. Quando era para ser, era para ser! E então lá enchi os pulmões de coragem, saltei da cama e enfrentei o mundo para lá da porta. Nem me dei tempo para me vestir apropriadamente para a ocasião.

É claro que o alvo invisível que tenho desenhado na testa fez efeito de imediato e de súbito tinha vinte pares de olhos, incluindo os da florista da esquina, a sondar cada quilo e centímetro a mais do meu corpo e cada poro da minha pele que há anos não via o sol. Escondi o embaraço por entre os meus cabelos oleosos e hesitei por meio segundo. Mas era a última vez que veria cada uma daquelas caras, cada um daqueles esgares afectados e enojados, portanto eles que olhassem. Pavoneei-me até um pouco, para sentir o sabor, para quebrar por segundos os hábitos já velhos.

A escolha do local ainda me proporcionou alguns debates acesos. Aparentemente temos todos uma ideia muito diferente do que é o sítio ou a forma ideal. Para uns é através de comprimidos, para outros a linha de comboio, para outros a forca caseira... Para mim era claro, não havia grande discussão. Era atirar-me de um ponto alto para o vazio, de coração aberto e olhos fechados, e esperar com todas as forças que Deus me apanhasse a meio caminho, ou depois dele, e me resolvesse todos os meus problemas.

Dentro da opção, pessoalmente, sempre achei a ideia da ponte absurda. Romântica e poética de mais, como se na água doesse menos. Dizem que antes do embate batemos a bota por asfixia, mas, amigos, àquela altura, água é cimento. Betão armado, de braços abertos à nossa espera. No entanto... cimento por cimento, foi precisamente pela ponte que optei. Pensei para mim que talvez me soubesse bem, intimamente bem, ter por cenário o pôr-do-sol sobre o rio Tejo, que é uma coisa que sempre quis ver e, obviamente, nunca vi. Além disso, da ponte é muito mais prático: não se empata o trânsito nas horas seguintes.

Avancei tranquilamente por Lisboa, na mota da minha irmã, despedindo-me em silêncio daquelas ruas que mal conhecia, e encostei calmamente a meio do tabuleiro da 25 de Abril, encenando uma paragem para manutenção de emergência.

O trânsito do fim de tarde prosseguiu normalmente atrás de mim e isso sossegou-me. Tinha aquele momento para mim. Então, inspirei fundo como nunca antes tinha inspirado. Ali, de cintura pressionada contra o corrimão da ponte, não havia medo. Não havia sufoco. Não havia ódio, nem nojo. Não havia obsessão. Não havia quilos a mais. Não havia a vontade de devorar tudo, nem a culpa de ter devorado. Não havia cortes nem cicatrizes na pele. Não havia o sabor a bílis e a sangue na boca. Não havia amígdalas inchadas. Não havia queda de cabelo nem tão-pouco queda de amor próprio. Havia, sim (para lá do trânsito e do odor nauseabundo da gasolina), o bater das ondas nas docas lá em baixo, o cheiro húmido da maresia no ar, as gaivotas cacarejando ao longe e o insubstituível pôr-do-sol lisboeta, com o sol espelhado em mil reflexos na água e o céu do mais bonito laranja que pode haver. Acho que esbocei um sorriso e, por uma vez, me senti viva e livre dentro deste corpo morto que teima em aprisionar-me. Hoje venço eu.

O relógio no meu pulso apita. São 20h30, é hora de ir. Às 21h darei à costa, já livre se Deus quiser, e os meus pais e a minha maninha terão a despedida que eu não fui capaz de lhes dar. Avisei-os só de que hoje não jantava.

Debruço-me para a frente e começo a escorregar pelo corrimão, de frente para o pôr-do-sol. Fecho os olhos. Respiro fundo e com toda a calma do mundo dou o impulso final. De olhos fechados, já solta, sinto-me em queda livre atrás do peso da minha cabeça... É agora. Finalmente.

Só espero que não doa.

sexta-feira, julho 29, 2016

Um Jantar Romântico

Sou refém na minha própria casa.
Refém dele, de uma ira que não sei de onde vem.

Perdemo-nos um do outro com o tempo. Perdemo-nos na rotina. Na obsessão com o trabalho e na gradual desvalorização de todas as outras coisas fundamentais na nossa vida, desenhada para ser vivida a dois. E somos dois, mas somos um e um, duas pessoas em mundos cada vez mais afastados, muito embora sob um só tecto. Duas marionetas dançando ao som do vento em pontas opostas do mesmo palco.

Fui perdendo espaço, fui perdendo brilho. Aos poucos perdi a voz. Mas ele, para quem a minha voz se tornou zumbido de mosca e dores de cabeça, para além de de mim, perdeu-se dele, como se alguém tivesse cortado as cordas da sua marioneta. Transformou-se numa máquina. Deixou de saber olhar-me, deixou de saber tocar-me e deixou de saber falar-me, salvo para me mandar trazer-lhe mais uma cerveja ou não sair de casa sem a sua autorização, sob ameaça - não, sob promessa - de agressão. E eu deixei de o conhecer, sem no entanto conseguir deixar de o amar, de amar a memória dele, e passei a temê-lo, da ponta dos meus pés à ponta dos meus cabelos. Mas em silêncio, sempre em silêncio, incapaz de fugir. A minha sentença é amá-lo tanto.

É hora de jantar e a raiva dele telefonou-me há pouco. Está a caminho de casa e vai usar-me outra vez para descarregar a doença que o corrói por dentro. Apressei-me a esconder-me num armário da cozinha, por debaixo do lava-loiças, para adiar o inevitável. E agora espero.

Oiço a porta de casa escancarar-se e oiço-o gritar o meu nome três vezes. Oiço-lhe os passos pesados, provavelmente bêbados, cambaleando pelo corredor fora. Oiço as portas serem abertas e fechadas com um estrondo à medida que passa. E reconhecendo os cantos à casa sei que já me procurou na sala, no quarto, no quarto de visitas, na casa-de-banho e na despensa. Oiço-o cada vez mais próximo e o meu corpo vai antecipando já a dor das pancadas que se avizinham. O meu coração bate a mil, tão forte que receio que consiga ouvir-me aqui dentro.

A porta da cozinha abre-se com aquilo que me parece ser um pontapé. Abre o primeiro armário e fecha-o com uma brutalidade tal que oiço qualquer coisa a partir-se. Pressinto que há qualquer coisa de errado. Parece-me mais violento do que o costume. Então reconheço o som da faca de cozinha a deslizar para fora do suporte e ele torna a berrar. "ONDE ESTÁS, MINHA CABRA?!"

Engulo em seco. Não sei o que vai acontecer e nunca senti tanto pânico na vida. Estou prestes a vomitar.

Há cinco armários na cozinha onde podia ter-me escondido e ele já rebentou com quatro.
O meu é o próximo.

quinta-feira, julho 14, 2016

O Homem no Escritório

Deixei por resignação que as circunstâncias da vida me encurralassem e se empilhassem à minha volta, como pedras erguendo um poço. E era no fundo desse poço que me encontrava nos últimos tempos. Cansada de lutar, encostei-me à parede rugosa e deixei-me deslizar até ficar sentada a um canto, sobre dois dedos de água fria, ao som do meu próprio eco.

O meu corpo navegava em piloto-automático. Da cama para a cozinha - para dar o pequeno-almoço aos miúdos -, de casa para a escola deles, da escola para o escritório, do escritório para a escola, da escola para o supermercado, do supermercado para casa, da garagem para a cozinha para lavar a roupa e preparar o jantar, da cozinha para a mesa e da mesa para a secretária para fazer contas às facturas, à saúde e à vida. As últimas quatro horas do dia passava-as algures entre o sofá, com a televisão a cantar para ninguém, e a cama, grande demais para uma pessoa só. Uma parte de mim assistia em primeira fila a toda essa rotina que tocava em repeat, a outra consumia as últimas forças de mim para se espremer contra o canto mais sombrio do meu poço imaginário.

Tanto assim que, naquele dia em que o céu cinzento resolveu desfazer-se numa chuvada torrencial e tornar-me o dia mais negro, não reconheci o rosto que, quando parti o salto e me espalhei ao comprido no open space do escritório, me estendeu um sorriso e uma mão amiga para me levantar. Sabia em mim que já o teria visto por lá, ou noutro lado qualquer, mas nunca fiz por saber o seu nome, de onde vinha ou o que fazia. E no entanto ali estava ele, quando tudo o resto se limitava a olhar, com escárnio estampado no rosto.

O meu piloto-automático entrou em curto-circuito. A ternura do seu sorriso sabia ao mesmo a que sabe um cobertor pesado numa noite de inverno, ou quiçá roupas quentes, secas, num dia de chuva. Por uns segundos, quando deixei que me tomasse a mão, as duas metades de mim - a do escritório e a do poço - uniram-se numa sinfonia silenciosa. Senti estremecer as pedras do meu poço e sobre a sua sombra vi cair um feixe de luz.

No momento seguinte, estava de pé e depois sentada, de volta aos meus papéis e dossiers, de volta ao meu piloto-automático, e ele de volta ao gabinete ao fundo do corredor. Procurando uma nesga de controlo sobre o meu corpo, desviei para ele o olhar. Via-o cirandar através da porta, de vidro, falando para o ar e escutando e acenando de seguida, como se conversasse com um amigo que em boa verdade não existia. E ria-se de novo. Tive a certeza de que era a única pessoa naquele open space a assistir àquela loucura.

E então, quando deixou de falar, como se pudesse sentir-me a observá-lo, levantou a cabeça e olhou-me fixamente. Sustive a respiração, invadida, e recolhi-me em mim. Sorriu-me uma última vez, o calor terno atravessando o corredor que nos separava, e então dirigiu-se à janela mais próxima, girou lentamente a maçaneta, trepou e pulou para o vazio.

Retesei-me subitamente, pregada à cadeira. Foi como se me passasse um comboio por cima. Incapaz de me mover, engoli em seco e senti-me a ser de novo arrastada para o fundo do meu poço, o desgosto a apoderar-se de mim e o alento a fugir-me algures entre duas respirações consecutivas. Resignei-me de novo: havia sempre carros e gente a passar na rua, lá em baixo; de ouvido atento, esperei no conforto do meu abismo pelo estrondo do seu corpo pesado sobre um carro, pelo estilhaço de vidros vaporizando-se e pelos gritos de pânico esganiçados que se seguiriam.

Esperei um segundo, depois outro. Depois outro e...

Nada. Apenas o silêncio do escritório e um leve travo a chuva e buzinas lá fora, que me chegava através daquela janela aberta.

Confusa, e ciente de que era a única a aperceber-se de todo aquele cenário caricato, atirei com a cadeira para trás, corri descalça até à janela e debrucei-me sobre o parapeito, a chuva e as luzes e as buzinas a beijarem-me docemente a cara.

Olhei a toda a volta.

Mas não havia sinal d'Ele.

quinta-feira, julho 07, 2016

Tango Mortal

Ele era apenas um miúdo. 

Além de cheiro e memória, a morte tem cor. É vermelha e é negra. E no entanto não tem nada de colorida. Deixa-me as mãos em sangue, a alma em brasa e a mente em ferida. No cru jogo da guerra não há espaço para ser-se ético. Pode haver na morte cor, mas não há nada de poético.

Ele era apenas um miúdo. Mas vendo-me desarmado não hesitei em lançar as mãos ao seu pescoço e em apertá-lo entre os meus dedos com todas as energias que tinha em mim. 

Dançávamos um tango a dois. Eu apertava-lhe o pescoço e a vida nele para que ele não pudesse apertar o gatilho que me tiraria a minha. O instinto de sobrevivência percorria-me de alto a baixo, demorava-se no meu coração durante três rápidas batidas e depois dispersava para os meus braços. Depois para os meus dedos. E por fim para o pescoço dele.

Mantivemo-nos nesse ritmo incansável, cedendo e conquistando espaço de dança em alternância, até que a música parou. Sob o peso do meu corpo e das minhas mãos feridas, o pescoço dele finalmente sucumbiu, quebrando com a mesma fragilidade com que se partem galhos secos. Ouvi-lhe um estalido surdo e o ar a fugir-lhe de vez dos pulmões. Larguei-lhe por fim a garganta, os meus dedos roxos e hirtos da força, e rebolei para longe do corpo dele, rolando sobre as costas.

Podia ser apenas um miúdo, mas se em vez de lhe apertar o pescoço eu o tivesse deixado premir aquele gatilho, hoje estaríamos não a caminho do meu casamento, mas do meu funeral.

terça-feira, junho 28, 2016

Vazios de Ti

Sonhei contigo.

Sonhei contigo e acordei com um vazio estúpido de ti. Com uma comichão que não tem como coçar... Parece-me que no canto do teu sossêgo e do teu silêncio consegues ser mais sombra minha do que eu próprio, perseguindo-me pé ante pé sem que o saibas. Os fragmentos de ti em mim são resquícios de uma pólvora meia apagada; fuligem e estilhaços de uma mina armadilhada que um dia pisei sem querer.

Não dou pelo tempo, mas sei que passou e vai passando depressa. Oiço o burburinho dos ponteiros do relógio sussurrando na sala de estar e volta e meia apercebo-me ao longe de doze badaladas roucas. O tempo voa tremido e fugaz como os aviões de papel que punha em órbita em criança e é o veleiro que, ao sabor da maré e embalado em brisas, me afasta de ti e me guia a novos portos e horizontes.

Concluí com sucesso o curso de piloto-aviador. Saí de casa. Casei com a mulher que é a metade de mim e que me é por inteiro. Tenho dois filhos, um rapaz e uma rapariga como sempre quis, ele forte e reguila e ela a princesa dos meus olhos. Brincam neste momento no jardim do outro lado do vidro, enquanto escrevo, na casa que sempre quis ter. Uma vivenda em madeira com um quintal relvado, num bairro tranquilo e com boa vizinhança, com a mesma avózinha passeando-se todos os dias de leggings e fita na cabeça, toda desportiva e sorridente, em modo de jogging. Tenho um pastor alemão cachorrinho, pouco maior que o meu antebraço.

Tenho tudo.
E tenho um vazio de ti.

terça-feira, junho 14, 2016

Castelos de Sonhos

Se em matéria de matéria somos essencialmente água, em matéria de alma somos essencialmente sonhos.

Era isto que a minha avó tentava explicar-me. Tu és o teu castelo de sonhos. O género de castelo é lá contigo; tu decides se empilhas sonho sobre sonho, como blocos de pedra, e constróis um castelo no cume de uma montanha, ou se os dispões antes lado a lado, ao comprido, e constróis uma muralha tão infinita quanto infinitamente saibas sonhar.

O que é certo, dizia-me ela, é que não basta ser-se sonhos. Para se ser sonhos é apenas preciso atirar com carvão e lenha para dentro do forno da imaginação e soprar as brasas. O que é preciso é vivê-los. É correr loucamente atrás deles como leões atrás de gazelas, de garras para fora.

Quando te olhas ao espelho, despe-te de roupas, de penteados e de caras. Quantos sonhos vês? Quando sobes para a balança, cega os teus olhos para números e medidas. Quantos sonhos vês? Quando olhas pela janela, para o mundo lá em baixo e à tua volta, solta-te das tuas próprias correntes, dos teus medos e das tuas dúvidas. Quantos sonhos vês?

Não importa se é aquela ida ao ginásio na porta ao lado mas que parece tão distante, aquele café com o amigo quase esquecido, aquele telefonema que andas há séculos para fazer, aquele perdão que andas a adiar, aquela viagem até ao outro lado do globo, aquele curso superior que querias e não o que alguém queria para ti, aquele emprego que é a tua cara, a conclusão daquele projecto pessoal pendente, a publicação daquele livro ou uma completa viragem de 180º. Nunca é tarde de mais.

Recorda que os teus sonhos são o teu castelo e que não é esperado que alguém o construa por ti. Relembra que todas as jornadas, por longas que sejam, começam com a coragem de um primeiro passo. E antes que a palavra "fracasso" se forme na tua mente, como justificação cansada para desistires de ti, lembra-te que em criança não começaste a andar sem antes tropeçar e sem antes cair. Uma, duas e três vezes.

Como me disse um amigo, todos os puzzles começam com as peças dispersas, baralhadas. O que é preciso é saber juntá-las, uma a uma. Sonho a sonho.

sexta-feira, junho 03, 2016

E Viveram Felizes Para Sempre

"E viveram felizes para sempre."
Só que não.

É engraçado. Vivi uma infância embalada pelos mágicos filmes Disney (quem não?), esculpido ponto a ponto, sem que me apercebesse, pelas sábias lições de vida escondidas para lá das bonecadas. Inspirado, na minha inocência de criança, pelas mensagens de esperança de um mundo melhor e de uma vida plena, quantas vezes ao som de "E viveram felizes para sempre". Bem ou mal, isso reflectiu-se em mim, na minha forma de ser e estar na vida e na minha forma de projectar o meu futuro. Até há uma semana.

Neste quarto não há muito que fazer senão cansar-me de ler jornais e de ver os mesmos canais de televisão vezes sem conta. Nem meio vazio, nem meio cheio, apagar a televisão não se revela melhor opção, porque à falta desse ruído de fundo há só a minha respiração esquisita e os apitos intervalados desta maquineta irritante, que se me liga por uma agulha ao pulso. Nem a porra de uma mosca se ouve.

Então, enquanto esperava, optei por falar com os meus botões. Revi todos os cenários possíveis, ansiando pelos melhores e preparando-me para os piores. Sei lá, na altura pareceu-me uma boa ideia. Sempre gostei de ser racional e até hoje a vida não me tinha falhado nesse aspecto: a coisa da vida é que tudo se resume a uma questão de perspectiva. E nos meus breves anos de vida eu já carrego um histórico pesado de termos de comparação, que me faz olhar para tudo num paradigma de simplificação e de aceitação. Separar coisas importantes de coisas irrisórias ou acessórias.

A verdade é que vi partir amigos injustamente, vi partir irmãos e irmãs de amigos cedo demais, alguns deles de formas tão estúpidas quanto o ser humano pode ser estúpido. Onde me situo eu, neste circo de atrocidades, para poder sentir-me infeliz ou injustiçado com aquilo que tenho ou aquilo que me falta? Ao lado daqueles, que são problemas dignos desse nome, os meus eram anedotas. E daquelas más.

E assim relativizei a questão e ensaiei os cenários na minha cabeça. Embora fizesse all-in no "E viveram felizes para sempre" (porque, convenhamos, ainda tinha muito para viver), ao fim de muito ensaio neste palco decrépito sentia-me em paz com qualquer coelho que o médico pudesse tirar da cartola quando voltasse.

O problema - agora sim - é que, quando ele regressou e passou por aquela porta, entre mim e essa célebre frase tão cheia de sonhos e ambições surgiram duas palavras:

"É cancro".

Deixei de me ouvir respirar.

Deixei de me ouvir respirar e esqueci-me de todas as falas dos meus ensaios, de toda a apaziguada aceitação do meu destino deixado aos ventos.
"É cancro", naquele tom de voz sem réstia de alento, é o copo de vidro que nos escorrega das mãos; que deixamos cair aos nossos pés descalços e se desfaz ali em mil bocados e que te deixa petrificado, imóvel, com receio de assentares um dedo que seja no centímetro quadrado de chão errado. E o zumbido que fica nos ouvidos do vidro a quebrar-se, igual ao som de tudo em ti a quebrar-se também por dentro.

Ninguém te prepara para isto. Engasgas-te a responder, até que desistes de tentar formular uma resposta. Enquanto tu e o teu corpo digerem essa realidade, dás por ti a viajar mentalmente até à tua família, até aos teus amigos, até à tua miúda; a dar-lhes aquele último abraço e aquele discurso de despedida que na verdade não vais dar, porque sabes que quem cá fica são eles e só seria pior se soubessem.

Consegui finalmente engolir aquele bolo, a seco, e não precisei de mais palavras. Arranquei do pulso a porcaria do fio, saltei da cama e fui viver os últimos dias da minha vida, antes de me deitar aqui de vez.

Não deu para tudo, mas consegui um serão em família e dar o último adeus em silêncio a grande parte dos meus. Para terminar, hoje assisti pela última vez a um jogo de vólei da minha equipa, sem eles saberem. E ganhámos...! Ganhámos e ganhámos bem, com um mérito irrepreensível, e só por isso,  mesmo não seja "para sempre", eu vou daqui feliz.

Um abraço amigo.

quinta-feira, maio 05, 2016

Sonhos que Nunca Sonhaste

Ninguém quer lembrar-se do que a mente nos reserva durante a noite.

Os meus pais pariram-me sonhador. Na minha mente crescem sonhos como crescem morangos na terra ao sol. E nem preciso de os regar. O problema é que, num duelo à faroeste entre mim e a minha mente, quem vence é sempre ela. Porque sabe onde ferir.

"Calma lá, cowboy dos sonhos, que conversa vem a ser essa?", perguntas tu. Nem te dás conta. Não te dás conta porque, como disseste naquela manhã entre sono e cigarros, ao acordares nunca te lembras do que sonhaste. E ainda bem para ti: ninguém quer lembrar-se do que a mente nos reserva durante a noite.

Os pesadelos são poções fabricadas em caldeirão pela nossa mente - escolhendo os ingredientes certos a dedo e misturando-os "generosamente" - e administradas pela noite ao nosso corpo, via intravenosa. É uma matemática simples: durante o dia, o trabalho do corpo que não dá tréguas à cabeça; durante a noite, o veneno da cabeça que não dá descanso ao corpo. Olho por olho, dente por dente. E se por vezes a dose é pouca, vezes tem que é veneno mata-ratos, de concentração muito para lá da dose letal.

A nossa cabeça conhece-nos bem. Sabe com precisão milimétrica e a papel químico o que mexe connosco. O que nos assusta de morte, o que nos dá suores frios e o que nos dá sete coronhadas no estômago sem sequer nos tocar. Mesmo quando nós próprios não sabemos. Mas tu não percebes. Não fazes ideia do que isso é. Não sabes o que é veres-te num cenário tão real que não sabes distinguir se estás a dormir ou se estás acordado. As paisagens, os sons, os cheiros!, os rostos.

Tu - para quem, não lembrando, tudo será sempre novo, de novo - não farás ideia do que é, noite após noite, regressar ao mesmo sonho. Ao mesmo pesadelo. Às mesmas salas e recantos obscuros que já exploraste n vezes antes, mas que, enquanto novo sonho, terás de tornar a explorar. Com o mesmo medo com que exploraste da primeira vez. Já sabendo e antecipando o que vem lá por detrás daquela próxima porta.

Não sabes o que é estar no centro de acontecimentos tão grotescos que te deixam de mãos e pés atados e com o coração na boca e que, por te lembrares quando acordas, és obrigado a reviver. Vi o meu pai morrer brutalmente baleado, em plena emboscada islâmica, por exemplo. Vezes e vezes sem conta. À frente dos meus olhos. Sem poder impedi-lo e sem ter para onde fugir. E como esse, tinha outros tantos para partilhar contigo. As minhas partidas nocturnas de xadrez contra os meus medos, em que o meu Rei está sempre em Xeque; eu refém de mim próprio. Eu a ratoeira e eu o rato.

Invejo-te. Ninguém quer lembrar-se do que a mente nos reserva durante a noite. Eu lembro-me. E preferia não me lembrar.

sexta-feira, abril 29, 2016

Para Quem a Lama é Ouro

De repente esqueci-me por que estávamos a lutar.

Era a minha terceira jornada em guerra, longe de casa e fora do meu país. Nesse período, vi muita coisa. Testemunhei mais do que desejava e assisti às cicatrizes a brotarem-me à flor da pele e à flor do coração. Fragmentos de explosões, golpes de faca e ferimentos de balas. Irmãos de armas mortos, amputados, desfigurados e tantos outros feridos. Mas aquela imagem fez parar o mundo. 

Tínhamos acabado de abrir caminho em território hostil. Um lamaçal nas imediações dos destroços que sobravam daquela terriola. Achava-a deserta, já que não tínhamos avistado ninguém. Nem um pio. Só o vento varrendo as ruínas, os motores dos jipes e os passos secos de quem, como eu, seguia a pé. E os chocalhos da água nos cantis e das fivelas nos capacetes.

Atrás de nós vinham em coluna dois carros de combate, artilharia pesada. Ao atravessar o lamaçal, os carros abriam fendas na terra e as fendas depressa cediam lugar a poças, de uma água mais acobreada que os nossos coletes. E do silêncio asfixiante, uma criança de meio metro, escondida apenas entre pele, ossos salientes e uma coragem do tamanho do universo, arrasta-se para fora das ruínas e afoga a boca nas poças que deixávamos para trás, secando uma por uma. Via-lhe o coração bater por debaixo da pele seca, tal a magreza. De cérebro congelado, consegui apenas antes de seguir caminho deixar-lhe cair, como ali a mim tudo me caía, o cantil que trazia à cintura.

Sei contar de trás para a frente a história de todas as minhas cicatrizes, mas não encontro palavras à altura daquela nova que acabava de ganhar. 

Há verdades que ferem mais que balas.

quinta-feira, abril 28, 2016

Frágil

Tens o hábito terrível de partir do pressuposto que temos pela frente muitos e longos anos de vida, tu e eu e toda a gente. Mas em última análise, a vida é estupidamente frágil e não nos permite saber quem fica e quem parte, ou tão-pouco quando parte quem parte.

E então talvez fosse sensato relembrares isso com maior frequência, para que quando ao fim do dia te deitares tenhas absoluta certeza de que não deixaste alguém desapontado ou magoado, alguém com o pensamento amargo de te ter magoado a ti porque decidiste adiar explicações para outro dia - ou quem sabe para nunca - ou para teres absoluta certeza de que não deixaste alguém a quem gostarias de dizer o quanto significa para ti sem uma palavra.

A vida prega partidas e a verdade é que nunca vais saber quando foi a última vez que viste alguém, a última vez que tiveste a oportunidade de lhe dizeres e de fazeres com ela todas essas coisas que foste acumulando e tens em ti guardadas.

Talvez valha a pena pensar nisso.

(28/04/2014)

quarta-feira, abril 27, 2016

Ciência da Alma

Desde criança que acredito em almas. Enquanto todos acreditavam em Deus, na Vida depois da Morte, no Céu e no Inferno, eu acreditava somente em almas. E era gozado por isso.

É claro que a princípio não entendia a complexidade que o conceito envolvia. Na mente do meu eu pequeno, as almas eram imaginadas como minúsculos seres azuis conduzindo os corpos das pessoas à minha volta, sentados ao volante das suas vidas nos cockpits das suas cabeças. De cinto apertado e tudo. O cabelo no topo das cabeças servia, como era óbvio, para não deixar as almas ao frio.

Com o passar dos anos, a minha visão mudou um pouco e as pequenas almas azuis dissolveram-se num pó invisível que corria no sangue das pessoas, nessa encruzilhada de veias e artérias que eram como auto-estradas para elas. Se antes imaginava as pequenas criaturas azuis mais gordas ou mais magras consoante a figura ou a personalidade de cada pessoa, nesta fase media as diferentes almas em termos de densidades e formas desses pós, ainda que invisíveis. Quanto mais denso e quanto maior a dimensão das suas partículas, dos seus grãos, mais vincada e mais audaz a alma. Agradava-me a perspectiva científica da questão.

E então caiu-me nas mãos, como um pára-quedas furado, a expressão de alma gémea. A ideia baralhou-me. Como assim, "gémea"? Seriam dois pós congéneres? Alojados algures num mesmo quadrado imaginário da tabela periódica? Ou duas substâncias diferentes, soluto e solvente, com elevado coeficiente de solubilidade, capazes de se fundir na perfeição?

Mas de que forma estava isso relacionado com o amor, de todo o modo? E então como funcionava essa conversa que tanto ouvia, entre choros e soluços dos mal-amados, de que "nada dura para sempre" e de que "o que é bom acaba depressa"? Uma solução perfeita não se inverte assim tão facilmente, tão espontaneamente.

Então, num esforço mental, aceitei a hipótese de a alma ser não um pó, mas algo de imaterial. E, aceitando, porque não estender à alma imaterial a teoria de Lavoisier, de que "na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"? Poderão as almas desviar-se das auto-estradas do sistema sanguíneo e saltar de corpo em corpo? Poderão as almas gémeas escolher um dia habitar noutra casa, num outro corpo, dando lugar a uma com quem a nossa alma incorpórea não se identifique mais...?

Fica-me a dúvida. Mas quero acreditar que sim. Talvez assim os amores não tenham sempre um fim, como dizem, mas apenas uma mudança de rumo. Talvez deixem de dar vida e brilho a um par de olhos e passem a dá-los a um par diferente. Então não acaba. Temos só de seguir espreitando na janela de cada um dos outros corpos em redor, até (re)encontrarmos, no seu cockpit vago e indefinido, o nosso soluto ou o nosso solvente.