Ouvem-se coisas acertadas aqui e ali. Coisas que se vão falando para o ar de tempos em tempos, quando se passa por experiências boas e experiências más, que um dia mais tarde vêm espelhar - com mais ou menos precisão - aquilo por que passamos eventualmente. Se assim é, se as palavras e histórias de uns se ajustam às nossas, então talvez sejamos mesmo todos diferentes, mas no fundo todos iguais. É nisso que vou acreditando à medida que passam e voam os dias. É isso que começa a levantar-se como verdade. Mas como para toda a regra, também aqui há uma excepção. Ou duas, se quisermos ser minuciosos.
Ainda que na pretensa igualdade, há quem insista em viver num mundo paralelo, à parte deste nosso, onde é rei e dono e senhor do universo e arredores. Caminham como pavões por entre o reles e comum mortal, como se de algum modo um poder divino lhes tomasse as veias. Mas esses estão longe de ser preocupação ou problema de alguém. Talvez sejam motivo de inveja para uns, talvez para muitos até, porque nos dias mais tenebrosos que nos assolam conseguem irromper dessa penumbra com facilidade, superiores a tudo o resto. Fora isso, mais dia, menos dia falhar-lhes-á um pé nessa arrogante escalada ao Olimpo e então baterão no fundo, no nosso fundo, onde estamos todos e onde devemos estar. E que batam de cabeça, pelos deuses, para que se extinga a ideia de tentar subir uma vez mais!
Os outros, os que constituem a segunda excepção, pertencem a um grupo mais restrito e de certo modo mais problemático. É o grupo dos apáticos. Caracterizam-se de forma geral por serem pessoas excepcionais, cientes de que somos de facto todos iguais, mas que se esquecem com relativa frequência dessa mesma realidade. E por descuido passam pelos iguais, de olhos postos no que quer que esteja imediatamente além deles, e atravessam-nos sem sequer dar por isso. Sem ponta de má fé, contrariamente aos da primeira excepção.
Contudo, aqueles que se sentem invisíveis, sentem-se igualmente magoados... Uma, duas e três vezes. E quatro, cinco e seis, enquanto houver fôlego para suportar mais! Até que um dia esse embate lhes tire todo o ar dos pulmões. Aí, baixam os braços de vez e então dão um passo ao lado, para que deixem de ser atravessados. E passam simplesmente a não estar lá. Um dia, dois, três... e os apáticos nem se apercebem, porque em boa verdade nem se apercebem do que fazem.
Gostávamos sempre que tudo fosse mais simples, não é? Não era tudo mais fácil? Que um erro não gerasse uma discussão. Que um passo em falso não fizesse cair o céu e tremer o mundo. Que cada um fosse apenas quem fosse, diferente em tudo mas igual em tudo também. Que reconhecesse e aceitasse cada bocadinho e cada recanto de si, cada dom e cada defeito, para que pudesse revelá-los abertamente aos outros e pudesse ser aceite também por eles, sem medos e sem hesitações. Afinal de contas, é a aceitação e cooperação de todas essas diferenças - por mais profundas que sejam - que nos torna especiais aos olhos dos amigos, sem deixarmos de ser iguais a nós mesmos aos olhos do mundo!
Somos iguais, eu e tu. Somos imperfeitos: está inerente à nossa condição de humanos. Vive e deixa viver. Erra - reconhecendo o erro e deixando isso claro a todos - e por fim deixa errar. Não negues, feitas as contas somos mesmo iguais e é aí que reside o nosso verdadeiro valor.
segunda-feira, setembro 05, 2011
terça-feira, outubro 19, 2010
Há dias assim.
Perguntava-me quando chegaria o dia de voltar a estas páginas e eis que chegou. Há coisas para que não há palavras que cheguem. Há pessoas para que não há agradecimentos suficientes. Há momentos que não têm igual. E há dias assim.
Posso dizer que fui sempre, nos poucos anos da minha vida, um alguém como outros tantos, que acreditam plenamente que há coisas que apenas acontecem aos outros... Até que elas chegam à nossa porta e a arrombam; entram sem pedir licença e apoderam-se de tudo aquilo que a nossa porta resguardava. Foi a minha vez.
As minhas paredes estremecem e o meu tecto ameaça ruir. E fora do meu mundo, fora da minha casa abalroada, o céu escurece e engole o que há para lá dele. Fico a sós com as coisas que até então aconteciam apenas aos outros. Não sei o que fazer, o que dizer ou por onde ir. Tudo à volta se veste de dúvida e tudo à volta fala de dor.
As coisas que tomei como certas durante todos estes anos escorregam por entre os dedos e não há mãos que cheguem para tudo. E vão deslizando para longe, quem sabe se para não voltarem nunca mais. Fica connosco o que não foi feito, o que não foi dito, o que devia ter sido feito e o que devia ter sido dito.
Fica dor. Infeliz repito... há dias assim.
Posso dizer que fui sempre, nos poucos anos da minha vida, um alguém como outros tantos, que acreditam plenamente que há coisas que apenas acontecem aos outros... Até que elas chegam à nossa porta e a arrombam; entram sem pedir licença e apoderam-se de tudo aquilo que a nossa porta resguardava. Foi a minha vez.
As minhas paredes estremecem e o meu tecto ameaça ruir. E fora do meu mundo, fora da minha casa abalroada, o céu escurece e engole o que há para lá dele. Fico a sós com as coisas que até então aconteciam apenas aos outros. Não sei o que fazer, o que dizer ou por onde ir. Tudo à volta se veste de dúvida e tudo à volta fala de dor.
As coisas que tomei como certas durante todos estes anos escorregam por entre os dedos e não há mãos que cheguem para tudo. E vão deslizando para longe, quem sabe se para não voltarem nunca mais. Fica connosco o que não foi feito, o que não foi dito, o que devia ter sido feito e o que devia ter sido dito.
Fica dor. Infeliz repito... há dias assim.
domingo, abril 19, 2009
Minha Irmã
Imagina-te a andar à chuva em dia de tempestade. Imagina.
Imagina que à tua volta há água e nevoeiro. Só. Sentes frio, sentes humidade. Imagina.
Escuta. Ouves a chuva. Já não ouves carros, fugiram da tempestade. Imagina.
Estás só. Há silêncio dentro de ti. E desespero. Falta tranquilidade. Imagina.
Agora pára o tempo. Pára-o e imagina.
Olha em redor. Percebes...?
Vês as gotas de água paradas e o nevoeiro congelado? Aguardam-te.
Aguardam que olhes para eles e depois para ti da mesma forma.
Aguardam que os olhes e depois olhes o mundo da mesma forma.
Aguardam que os observes e depois observes a Vida da mesma forma.
Percebes?
E se eu te disser que imaginei e que a minha tempestade parou e que olhei?
E se te dissesse que daquela solidão de gente assustada me livrei?
E também que logo depois olhei de perto cada gota de água? Cada uma dos milhões?
Se te dissesse que dei um bocado de mim para ver de perto o mais natural da Vida que, por isso, desprezo todos os dias?
Se disser que toquei cada gota de chuva que por mim e por ti passa tão fugazmente que nem há tempo para pensarmos nela, mas que faz parte do mundo onde eu e tu vivemos?
E se, por isto, te dissesse que há mais para além do que queremos ver?
Acreditavas?
Então imagina. E tenta olhar. E fracassa. E sente o frio. E escuta a tempestade que cai. E sente o silêncio dentro de ti. E sente o desespero gritar. E procura tranquilidade. E fracassa uma segunda vez. Imagina. E agora pára o tempo. E volta a imaginar. Deixa-te passear pelo enxame de gotículas paradas e neblina adensada. Toca-os. E sente. Volta a ouvir, a ler se precisares, o que disse e o que deixei escrito. Sente. E acredita.
Há mais, além.
E agora sei. E agora sabes também.
Quiseste perguntar um dia se sabia definir amor. Tentei e tentaste. Ficámos tão longe.
Mas vou arriscar outra vez.
Lembras-te de quando éramos pequenos e nos sentávamos no cume daquela montanha a ver passar os comboios? De quando chovia torrencialmente e esperávamos a mãe e o pai? De quando tremíamos de frio, abraçados, e calados ansiávamos vê-los pisar a plataforma de embarque?
Lembras-te?
Lembras-te, sei que sim. Sinto que sim. Vagamente, por agora. Relembro agora a cara que fazias quando o pai nos mostrava aquelas invenções estranhas. Farás a mesma enquanto lês estas palavras. Recordas vagamente, mas a memória trar-te-á de volta esses velhos tempos, minha irmã. Ainda te interessa encontrar uma definição para amor? Provavelmente não. Dir-me-ias o que pensas agora, que bem sei, que amor se sente, não se define. Mas, de todo o modo, não podia deixar-me levar deste mundo sem te deixar uma resposta. Ou tentativa de uma. E, agora que vejo próxima essa altura, escrevinho estas palavras em letra desajeitada, que sempre tiveste jeito para decifrar, para saber que satisfiz todos os teus pedidos.
Lembra os comboios. Lembra-os. E tens aí a minha resposta.
O amor é como eles.
Quem vê de fora não percebe. Naquele cume não percebíamos. Pareciam todos iguais.
Lembras-te de falarmos disso? Parece que foi ontem…
Mas quem viaja neles sabe que é a coisa mais errada que se pode pensar. E quem pára debaixo da tempestade, à chuva, de tempo parado, como nós, compreende-o.
A gente muda. Quem ocupa o lugar ao lado é diferente. O da frente e o de trás também.
A conversa muda. As crises de que se falam são outras, as do Passado morreram.
O tempo muda. As rugas que se acumulam na minha face e na dos outros lembram-me que não vivo para sempre. Lembram-me que deixo para trás as coisas velhas e que à frente me esperam novas. Poucas, sim, mas novas.
Tudo muda. Comboios iguais? Nunca.
De dentro percebe-se. E quando nos sentámos pela primeira vez num comboio foi isso que me disseste ao ouvido, entusiasmada. Parecia tudo tão pequeno, tão simples…
Olha o comboio e olha o amor. Tocaste as gotas de chuva, tocarás tudo na Vida.
O comboio vem e vai. Vem, passa e vai.
Larga velha gente, velha coisa. Abraça nova gente e nova coisa.
E volta a vir e volta a passar e volta a ir. Nós somos passageiros. Sempre fomos.
A minha literatura sem jeito não há-de mudar. E se não foi nos noventa e dois anos que deixo para trás que mudou, não é nestes dias poucos, em que já respirar me traz dor, que mudará, minha irmã. Tu que soubeste parar a tempestade, a chuva e o nevoeiro, saberás encontrar na minha comparação tola uma luz, como aquela que víamos chegar do túnel escuro, lá em baixo, quando chegava um novo comboio.
Agora que consegui deixar-te uma pista para a tua pergunta de gente pequena, que de resposta concreta pouco tem, tenho um último desejo. Percebi, nos poucos anos que vivi, que os comboios, além de serem como o amor, são como a Vida.
Também é um comboio.
Subimos, pequeninos, numa estação embrulhada num nada sem jeito, que ninguém sabe onde fica. Atravessamos mundos e gentes, lugares diferentes. Viajamos com almas que quando entrámos já ali estavam havia uns tempos.
Almas jovens, almas adultas e almas enrugadas.
Almas que conheciam muito lugar.
Almas de quem nos fizemos conhecidos. E amigos. E namorados. E noivos. E familiares. Entre outros.
Aos poucos, fomos parando noutras estações. Estações de saída. Assistimos à partida dessas almas que nos acompanhavam desde o dia em que no comboio subimos.
O coração, então maduro, era invadido por melancolia, mágoa como a que partilhámos nos dias em que a mãe e o pai tiveram de descer e sair da nossa carruagem. Desde esses dias, juraria que nunca vi duas vezes o mesmo rosto no mesmo assento. As almas que partiram deixaram um vazio que ainda hoje me assombra.
Lês-me há muito, minha querida irmã, para agora chegar ao que quero.
Não oiço de ti há anos. Não sei de ti. Mas tu sabes de mim e procurar-me-ás neste mesmo hospital, dentro de poucos dias. Sim, sinto que o túnel onde o nosso comboio se enfiou está para acabar e que pararemos uma vez mais. E sim, sinto que é a minha vez de deixar a carruagem.
Antes de partir, que mais não te deixo por dizer, quero que sorrias por saber isto. Não podia ter na vida, no meu e teu comboio, melhor parceira do que tu. Se o amor é bonito, que ambos sabemos que é, é muito pouco comparado com o que é ter-te. Ter-te tido, melhor direi, que será este o tempo adequado, quando me leres. Sorri, minha querida. Fizeste da minha carruagem uma carruagem especial. Fizeste da nossa carruagem a melhor que qualquer Homem podia ter. Sorri.
Prometo não pisar a plataforma de embarque.
Prometo agarrar-me, com as poucas forças que sei ter, ao fim do teu comboio.
Seguirei contigo.
Tolo? Muitas vezes na Vida, mas não desta.
Seguirei contigo, sim. Não acreditas?
Olha as simplicidades da Vida com atenção. Olha a carruagem com o coração, os olhos fazem-te cega. Olha-a assim e saber-me-ás (ainda e como desde que nascemos) sentado a teu lado, nesse lugar vazio aos olhos por que te fazes sempre acompanhar.
Olha a chuva. Olha o nevoeiro. Aguardam que os observes e depois observes a Vida da mesma forma, que há mais para além do que vês.
O teu irmão.
Imagina que à tua volta há água e nevoeiro. Só. Sentes frio, sentes humidade. Imagina.
Escuta. Ouves a chuva. Já não ouves carros, fugiram da tempestade. Imagina.
Estás só. Há silêncio dentro de ti. E desespero. Falta tranquilidade. Imagina.
Agora pára o tempo. Pára-o e imagina.
Olha em redor. Percebes...?
Vês as gotas de água paradas e o nevoeiro congelado? Aguardam-te.
Aguardam que olhes para eles e depois para ti da mesma forma.
Aguardam que os olhes e depois olhes o mundo da mesma forma.
Aguardam que os observes e depois observes a Vida da mesma forma.
Percebes?
E se eu te disser que imaginei e que a minha tempestade parou e que olhei?
E se te dissesse que daquela solidão de gente assustada me livrei?
E também que logo depois olhei de perto cada gota de água? Cada uma dos milhões?
Se te dissesse que dei um bocado de mim para ver de perto o mais natural da Vida que, por isso, desprezo todos os dias?
Se disser que toquei cada gota de chuva que por mim e por ti passa tão fugazmente que nem há tempo para pensarmos nela, mas que faz parte do mundo onde eu e tu vivemos?
E se, por isto, te dissesse que há mais para além do que queremos ver?
Acreditavas?
Então imagina. E tenta olhar. E fracassa. E sente o frio. E escuta a tempestade que cai. E sente o silêncio dentro de ti. E sente o desespero gritar. E procura tranquilidade. E fracassa uma segunda vez. Imagina. E agora pára o tempo. E volta a imaginar. Deixa-te passear pelo enxame de gotículas paradas e neblina adensada. Toca-os. E sente. Volta a ouvir, a ler se precisares, o que disse e o que deixei escrito. Sente. E acredita.
Há mais, além.
E agora sei. E agora sabes também.
Quiseste perguntar um dia se sabia definir amor. Tentei e tentaste. Ficámos tão longe.
Mas vou arriscar outra vez.
Lembras-te de quando éramos pequenos e nos sentávamos no cume daquela montanha a ver passar os comboios? De quando chovia torrencialmente e esperávamos a mãe e o pai? De quando tremíamos de frio, abraçados, e calados ansiávamos vê-los pisar a plataforma de embarque?
Lembras-te?
Lembras-te, sei que sim. Sinto que sim. Vagamente, por agora. Relembro agora a cara que fazias quando o pai nos mostrava aquelas invenções estranhas. Farás a mesma enquanto lês estas palavras. Recordas vagamente, mas a memória trar-te-á de volta esses velhos tempos, minha irmã. Ainda te interessa encontrar uma definição para amor? Provavelmente não. Dir-me-ias o que pensas agora, que bem sei, que amor se sente, não se define. Mas, de todo o modo, não podia deixar-me levar deste mundo sem te deixar uma resposta. Ou tentativa de uma. E, agora que vejo próxima essa altura, escrevinho estas palavras em letra desajeitada, que sempre tiveste jeito para decifrar, para saber que satisfiz todos os teus pedidos.
Lembra os comboios. Lembra-os. E tens aí a minha resposta.
O amor é como eles.
Quem vê de fora não percebe. Naquele cume não percebíamos. Pareciam todos iguais.
Lembras-te de falarmos disso? Parece que foi ontem…
Mas quem viaja neles sabe que é a coisa mais errada que se pode pensar. E quem pára debaixo da tempestade, à chuva, de tempo parado, como nós, compreende-o.
A gente muda. Quem ocupa o lugar ao lado é diferente. O da frente e o de trás também.
A conversa muda. As crises de que se falam são outras, as do Passado morreram.
O tempo muda. As rugas que se acumulam na minha face e na dos outros lembram-me que não vivo para sempre. Lembram-me que deixo para trás as coisas velhas e que à frente me esperam novas. Poucas, sim, mas novas.
Tudo muda. Comboios iguais? Nunca.
De dentro percebe-se. E quando nos sentámos pela primeira vez num comboio foi isso que me disseste ao ouvido, entusiasmada. Parecia tudo tão pequeno, tão simples…
Olha o comboio e olha o amor. Tocaste as gotas de chuva, tocarás tudo na Vida.
O comboio vem e vai. Vem, passa e vai.
Larga velha gente, velha coisa. Abraça nova gente e nova coisa.
E volta a vir e volta a passar e volta a ir. Nós somos passageiros. Sempre fomos.
A minha literatura sem jeito não há-de mudar. E se não foi nos noventa e dois anos que deixo para trás que mudou, não é nestes dias poucos, em que já respirar me traz dor, que mudará, minha irmã. Tu que soubeste parar a tempestade, a chuva e o nevoeiro, saberás encontrar na minha comparação tola uma luz, como aquela que víamos chegar do túnel escuro, lá em baixo, quando chegava um novo comboio.
Agora que consegui deixar-te uma pista para a tua pergunta de gente pequena, que de resposta concreta pouco tem, tenho um último desejo. Percebi, nos poucos anos que vivi, que os comboios, além de serem como o amor, são como a Vida.
Também é um comboio.
Subimos, pequeninos, numa estação embrulhada num nada sem jeito, que ninguém sabe onde fica. Atravessamos mundos e gentes, lugares diferentes. Viajamos com almas que quando entrámos já ali estavam havia uns tempos.
Almas jovens, almas adultas e almas enrugadas.
Almas que conheciam muito lugar.
Almas de quem nos fizemos conhecidos. E amigos. E namorados. E noivos. E familiares. Entre outros.
Aos poucos, fomos parando noutras estações. Estações de saída. Assistimos à partida dessas almas que nos acompanhavam desde o dia em que no comboio subimos.
O coração, então maduro, era invadido por melancolia, mágoa como a que partilhámos nos dias em que a mãe e o pai tiveram de descer e sair da nossa carruagem. Desde esses dias, juraria que nunca vi duas vezes o mesmo rosto no mesmo assento. As almas que partiram deixaram um vazio que ainda hoje me assombra.
Lês-me há muito, minha querida irmã, para agora chegar ao que quero.
Não oiço de ti há anos. Não sei de ti. Mas tu sabes de mim e procurar-me-ás neste mesmo hospital, dentro de poucos dias. Sim, sinto que o túnel onde o nosso comboio se enfiou está para acabar e que pararemos uma vez mais. E sim, sinto que é a minha vez de deixar a carruagem.
Antes de partir, que mais não te deixo por dizer, quero que sorrias por saber isto. Não podia ter na vida, no meu e teu comboio, melhor parceira do que tu. Se o amor é bonito, que ambos sabemos que é, é muito pouco comparado com o que é ter-te. Ter-te tido, melhor direi, que será este o tempo adequado, quando me leres. Sorri, minha querida. Fizeste da minha carruagem uma carruagem especial. Fizeste da nossa carruagem a melhor que qualquer Homem podia ter. Sorri.
Prometo não pisar a plataforma de embarque.
Prometo agarrar-me, com as poucas forças que sei ter, ao fim do teu comboio.
Seguirei contigo.
Tolo? Muitas vezes na Vida, mas não desta.
Seguirei contigo, sim. Não acreditas?
Olha as simplicidades da Vida com atenção. Olha a carruagem com o coração, os olhos fazem-te cega. Olha-a assim e saber-me-ás (ainda e como desde que nascemos) sentado a teu lado, nesse lugar vazio aos olhos por que te fazes sempre acompanhar.
Olha a chuva. Olha o nevoeiro. Aguardam que os observes e depois observes a Vida da mesma forma, que há mais para além do que vês.
O teu irmão.
sexta-feira, janeiro 02, 2009
Para Lá de Fogo!
Fechei os olhos para pensar novamente no que me transborda na alma, que é, para lá de muita coisa que não se explica, amor. Amor sem igual, no âmago de um mundo que esquece ou já nem sabe o que amor é. Se há maior orgulho do que aquele de quem enverga uma farda com séculos de história, em memória digna de gerações e gerações, que são família, então desconheço-o. E se o desconheço, tu desconhecê-lo-ás também, porque será uma pedra na vida, de que ninguém quererá falar ou ouvir. O maior orgulho é aquele que nos queima o coração. Amor que me afoga em lágrimas, quando ouso olhar para o passado. Amor que me inunda quando aperto, um por um, os botões d'O Dólman e quando piso as mesmas pegadas de gentes do mesmo sangue que, um dia, viveram o que vivo e se tornaram grandes homens. Grandes portugueses. Lembrança de uns que deixaram já a vida por eles passar. Subiram na vida por trabalho de algo que me é comum. Comum a todos os que da Luz Meninos são! A chama, que há tanto ano arde, vive em mim e em nós e não dorme. E neles viveu também, adormecida na eternidade. Chama que se acende por sentimentos que as palavras tentam, em vão, descrever. Mas é, com toda a certeza, amor a uma Casa: o nosso Colégio Militar. Nosso, de todos aqueles que seguiram, seguem e seguirão com fé os valores de um Criador iluminado, triunfante de tempos para trás deixados. Fundador distinto, Marechal António Teixeira Rebello, que, de tão corajoso, partilhou com todos um sonho que era só seu. E do sonho nasceu a Obra. Do sonho nasceu a realidade, como da terra brotam as flores, que só com Amor se firmam belas. E voltamos ao início de tudo. Amor, para lá do Fogo que, na alma, se faz vibrar. Amor em lembrar os anos em combate, luta dura em ardor, por uma Pátria que é nossa e de mais ninguém. Amor em repetir e continuar as batalhas onde guerrearam nossos irmãos e primos, nossos pais e tios, nossos avós e também os seus avós. Honra e orgulho. Honrados por viver aquele mesmíssimo sonho, tão ousado, que é Utopia, no seio de um mundo por si próprio condenado. E orgulhosos por erguer as espadas dos antepassados, nossos irmãos, e, com elas, vencer e conseguir os demais triunfos, por eles deixados por conquistar. Se houver algo neste mundo com tamanha grandeza, esperarei encontrá-lo. Tesouros destes não há muitos, garantidamente. Tesouros que, mais ricos do que qualquer fortuna, enchem e preenchem a alma de qualquer um. Quem sabe consente. Tesouros que, em retrospectiva, me fazem tremer da cabeça aos pés, tanto quanto tremi quando atravessei as portas daquele mundo desconhecido pela primeira vez! E ao amor e a tudo aquilo que me traz as lágrimas aos olhos, quando caio na tentação de reviver os fogos memoriais do que passou, junta-se mais e mais saudade. Saudade porque aquilo que me construíu me vai abandonando aos poucos, fumo do meu fogo. E vejo-o partir devagar, mas parece querer fugir mais depressa. Chamo-o, mas não pára. Peço-lhe para voltar, mas não volta! Como qualquer coisa que parte, de costas voltadas, deixa a marca. Deixa a dor e o vazio. Mas chamar-lhe «qualquer coisa» seria ingratidão da minha parte. É Casa sem congénere. E esse amor que dá e que deixa é tão reconfortante, tão singular, que arriscaria uma mais ousadia, ao dizer que é amor maior do que todos e do que qualquer um. Gritaria aos quatro cantos do mundo que o Colégio Militar, minha perpétua Paixão, representa e tem o que de melhor há nele. Palavras serão sempre palavras e não mais do que isso. Mas a lágrima que cai completa-as.
É saudade, meu amor, é saudade. Saudade que até mim veio e que a meu lado se sentou. Veio para ficar. Saudades tão pequenas, amontoadas numa só, tão gigante: saudades de cada pedrinha que faz de ti quem és, saudade das tuas paredes e tectos. Saudades do espírito que te habita. Saudades dos bons e dos maus momentos. Saudades da tua vida, da tua alegria e da bondade com que me acolheste. A mim e aos meus irmãos. Saudades de tudo. Perder tudo isto. Perder-te assim, como sei não haver alternativa. Mas depois de tudo... é impossível não doer.
Mas sim, fica jurado que te levarei para todo o lado. Fazes parte da alma, parte do passado e do presente, parte do futuro, parte de tudo. Tu és eu. E já há muito.
Um agradecimento será pouco para o que aconteceu e para o pouco que está para vir. Mas receio não poder dar mais do que isso. Assim, dou-te tudo - que é sempre pouco - o que tenho. Não consigo escrever mais... as palavras não chegam.
Estás e para sempre ficarás aqui dentro.
Tomás, 108 de 2001
2 Jan 2009
É saudade, meu amor, é saudade. Saudade que até mim veio e que a meu lado se sentou. Veio para ficar. Saudades tão pequenas, amontoadas numa só, tão gigante: saudades de cada pedrinha que faz de ti quem és, saudade das tuas paredes e tectos. Saudades do espírito que te habita. Saudades dos bons e dos maus momentos. Saudades da tua vida, da tua alegria e da bondade com que me acolheste. A mim e aos meus irmãos. Saudades de tudo. Perder tudo isto. Perder-te assim, como sei não haver alternativa. Mas depois de tudo... é impossível não doer.
Mas sim, fica jurado que te levarei para todo o lado. Fazes parte da alma, parte do passado e do presente, parte do futuro, parte de tudo. Tu és eu. E já há muito.
Um agradecimento será pouco para o que aconteceu e para o pouco que está para vir. Mas receio não poder dar mais do que isso. Assim, dou-te tudo - que é sempre pouco - o que tenho. Não consigo escrever mais... as palavras não chegam.
Estás e para sempre ficarás aqui dentro.
Tomás, 108 de 2001
2 Jan 2009
domingo, março 23, 2008
Why?
Guerreamos por insignificâncias.
Desejamos impossibilidades.
Estragamos importâncias
E ignoramos necessidades.
Desejamos impossibilidades.
Estragamos importâncias
E ignoramos necessidades.
sexta-feira, novembro 16, 2007
[Perdição]
Tornou-se impossível
Evitar aqueles problemas
Que vêm até nós e nos abarcam...
E todos os dilemas
Que sufocam quando se exaltam.
Contra tudo e todos
Um dia
Tudo aquilo que sonhámos
Aquele mundo que sorria
Tudo aquilo por que lutámos
Aquele olhar que se perdia
Tudo aquilo por que passámos
Aquela felicidade que ardia
Viria a não ser mais
Que mera memória tardia.
O mundo rosado
Que contigo se desenhou
Na escuridão dos infelizes
E da realidade se apagou
Arrancado de mim
E também de nós
Parte crucial, sim
A luz e a voz
Ajoelhar-me-ia para
Recompor o que mudou
Pois só gente seria
Nesse olhar que se fechou
Mundo perdido no sonho derrubado
Futuro esquecido no presente perturbado
Destruição de fantasia e destino marcado
E lembrança de momentos nossos do passado
A marca dos que vieram e passaram
A gravura e cicatriz dos que ficaram
A mágoa e memória dos que embarcaram
Na ânsia desesperada dos que amaram
Evitar aqueles problemas
Que vêm até nós e nos abarcam...
E todos os dilemas
Que sufocam quando se exaltam.
Contra tudo e todos
Um dia
Tudo aquilo que sonhámos
Aquele mundo que sorria
Tudo aquilo por que lutámos
Aquele olhar que se perdia
Tudo aquilo por que passámos
Aquela felicidade que ardia
Viria a não ser mais
Que mera memória tardia.
O mundo rosado
Que contigo se desenhou
Na escuridão dos infelizes
E da realidade se apagou
Arrancado de mim
E também de nós
Parte crucial, sim
A luz e a voz
Ajoelhar-me-ia para
Recompor o que mudou
Pois só gente seria
Nesse olhar que se fechou
Mundo perdido no sonho derrubado
Futuro esquecido no presente perturbado
Destruição de fantasia e destino marcado
E lembrança de momentos nossos do passado
A marca dos que vieram e passaram
A gravura e cicatriz dos que ficaram
A mágoa e memória dos que embarcaram
Na ânsia desesperada dos que amaram
sábado, outubro 13, 2007
O Grito Final
Passam horas. Passam dias e semanas. Sorrateiramente, passam meses... passam anos. Olhamos para trás e vemos um passado longo e glorioso. Poderá inclusivamente ser considerado como «mal aproveitado», mas agora já pouco importa. Olhamos para o dia de hoje e vemos o quanto mudámos. Por fim, olhamos para o futuro e vemos que tudo o que um dia começou, brotou e floresceu está para morrer brevemente. Pouco falta para tudo acabar. Hoje, presente, somos Meninos da Luz em fase terminal. Somos Meninos da Luz formados. Somos instrutores. Amigos. Irmãos. Pais. Hoje, choramos em conjunto em prol de algo que certo dia nos uniu e marcou para sempre e que, quando o momento chegar, irá cicatrizar as nossas almas e corações para nunca ser esquecido...
Como pude achar, um dia, que a vivência colegial era longa? Como? Por que razão me terá parecido tudo tão lento? Não sei responder. Mas sei que estava redondamente enganado. Porque... vejo-me ao espelho e vejo o peso da responsabilidade sobre os ombros. E carregamo-la às costas, para todo o sítio; para onde quer que vamos. Passámos em "tão pouco tempo" de crianças a adultos prematuros. Passámos de aprendizes a mestres... Aqueles que hoje tomam o lugar que tomámos há 4 e 5 anos olham-nos e ouvem-nos. Tentamos a todo o custo fazê-los ver o que a nós foi explicado. Tudo passa depressa e tudo acaba, antes que nos apercebamos disso. Mas não assimilam isso. Tal como nós não assimilámos, tal como nós não percebemos. E custa profundamente vê-los fracassar e falhar precisamente onde nós errámos... Não conseguimos mudá-los e saímos magoados.
Hoje passamos-lhes tudo o que nos é possível e tudo o que nos foi passado, mas sempre de lágrimas no canto do olho, porque o nosso tempo de viver isso já está para trás das costas, já cedeu à inevitabilidade avassaladora do passado... e uma vez mais, dói. A dor é saudade incontrolável. O que anteriormente nos parecia tão fácil, hoje é tão difícil... Precisamente o contrário ao que, até termos uma posição de graduado, sempre pensávamos. Uma vez mais, estávamos enganados.
Mas só quem sente na pele a força e tristeza de um último grito, o grito final de desespero por ensinar e aperfeiçoar os erros que, outrora, foram nossos, se apercebe disso. O grito que traz o fogo de uma alma profundamente marcada. De ora em diante, contam-se os nossos últimos momentos. O grito é de imortalidade. O que ontem fizemos, e não fizemos, será por outros feito, sempre em plena continuidade.
Grito de guerra.
Grito de mágoa.
Grito de dor incontornável.
Grito de Saudade.
Grito de Vitória.
Grito de Felicidade e Esperança, Amizade que alcança…
O Nosso Triunfo.
É o fim, mas é de igual modo um começo. Tudo começará do zero para quem, no dia de amanhã, entrar pelas mesmas portas pelas quais entrámos certo dia. E dos miúdos que hoje ensinamos, receberão tudo o que estes recebem dia após dia. Receberão o que já foi de alguém, que hoje é nosso e que amanhã será dos nossos Putos.
Hoje, o Grito Final é nosso. Com orgulho e brio, gritemos.
Por Ti, Colégio que nos apraz,
Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz!
sábado, janeiro 27, 2007
Reflexão
Uma lágrima cristalina cai, tornando o papel molhado e rugoso. A tinta, gasta em palavras soltas, desvanece aos poucos nessa grossa gota salgada. Palavras que não parecem ter muito sentido. Todavia, a ideia retida em cada pequeno conjunto de letras mostra um pesado sentimento de amarga saudade. O arrepio que salpica nas costas e o formigueiro persistente que se apodera da mão, até à ponta dos dedos, dão um gosto quente sobre a frieza do papel, à medida que as palavras vão surgindo, calorosas. Sem marcar a tinta cintilante nele, papel, é difícil viver entre a escura solidão e o agonizante sofrimento... Com sequência, as lágrimas continuam a molhar o papel, a manchar e turvar as palavras e, aos poucos, mostram a convulsão e o sufoco apertado duma mente fustigada. Manchas que dão ao texto uma exclusividade pitoresca de uma expressão dura, fria e impetuosa. As memórias antigas encadeiam-se num sonho, que ecoa na mais profunda penumbra dessa mesma mente, a cada noite que inevitavelmente passa. Avivam o passado inesquecível e alimentam a esperança de um futuro igualmente singular. Cada protagonista dessas memórias é um ponto de luz nos dias de lubrina densa e escura e cada um é um longínquo caminho descoberto com muito ainda por descobrir. Cada um é uma das lágrimas que se soltam e cada um é um sorriso, por muito mais fugaz que ele seja.
A ironia impossível de entender é a longa durabilidade dos tempos em que anseio por vocês e a instantânea rapidez com que passam os momentos em que convosco estou. Há muito questiono a inquestionável razão de ser assim. E aqui nasce a soturna e lúgubre "solidão" de que muitos falam.
Resta-me murmurar este segredo:
« Um dia estas lágrimas secarão, tornando seco o agora humedecido e enrugado papel onde escrevo. Nesse dia perceberás o que digo. »
A ironia impossível de entender é a longa durabilidade dos tempos em que anseio por vocês e a instantânea rapidez com que passam os momentos em que convosco estou. Há muito questiono a inquestionável razão de ser assim. E aqui nasce a soturna e lúgubre "solidão" de que muitos falam.
Resta-me murmurar este segredo:
« Um dia estas lágrimas secarão, tornando seco o agora humedecido e enrugado papel onde escrevo. Nesse dia perceberás o que digo. »
sábado, dezembro 02, 2006
[Um único]

(Dedicado ao Sr. Mário,
Gentil senhor e grande amigo.
Estará sempre presente,
Não aqui, mas comigo.)
Um sorriso sempre aberto,
Com uma força imortal,
Que nem de muito perto
Terá esta lágrima jovial
A honestidade,
A generosidade incondicional
Fogosa nesta amargura
E tristeza memorial
Num mundo cravado
Fundo no coração,
Perdido, mas encontrado
Na farda cor-de-pinhão
Aquele que provou Homem ser,
Que esta lágrima provocou,
Findou a estrada difícil de percorrer,
Mas grande é a marca que deixou
Mas o Homem não será ignorado,
E muito menos esquecido,
Será antes relembrado,
Como vencedor e não vencido
Aquele lugar que foi dele,
Agora deixou de ser,
Porém continua nele,
Uma memória não deixa de viver
Um agradecimento
De uns rapazes que foram seus,
Neste triste e mau momento,
Um grande, grande adeus
E um forte ZACATRAZ...
sexta-feira, março 17, 2006
[Ser Lusitano]
É olhar pela janela,
E observar o mar,
Pintar sobre a tela,
O desejo de navegar,
Num barco à vela,
Onde ninguém irá chegar,
A paisagem mais bela,
Que se poderá alcançar
O rumo inexplorado,
O sonho inesquecível,
O paraíso mais falado,
A Pátria invencível,
O grande barco alado,
Que atinge o impossível,
O mundo fechado,
Onde tudo é invisível
A terra esquecida,
Pela doce vitória,
A mágoa perdida,
Imbuida na glória,
A vela erguida,
Nas brumas da memória,
A saudação recebida,
Após anos de História
E observar o mar,
Pintar sobre a tela,
O desejo de navegar,
Num barco à vela,
Onde ninguém irá chegar,
A paisagem mais bela,
Que se poderá alcançar
O rumo inexplorado,
O sonho inesquecível,
O paraíso mais falado,
A Pátria invencível,
O grande barco alado,
Que atinge o impossível,
O mundo fechado,
Onde tudo é invisível
A terra esquecida,
Pela doce vitória,
A mágoa perdida,
Imbuida na glória,
A vela erguida,
Nas brumas da memória,
A saudação recebida,
Após anos de História
[Convulsão de Pensamento]
Aproxima-se o momento,
Estou pálido, estou tenso,
Aproxima-se o momento,
Estou nervoso, não penso,
O tempo corre lento,
Devagar e imenso,
O tempo anda lento,
Perfurante e intenso,
Que me leve o vento,
Vago e extenso,
Estou relutante e macilento,
Pregado a um lenço,
Pois que chega o momento,
Não sei se o venço,
Não posso chorar, será que tento?,
Preenche um lugar longo e denso,
Que tenebroso pensamento,
Deixar aquilo a que pertenço
Cair no esquecimento,
É coisa que dispenso,
E que me enche de sofrimento.
Estou pálido, estou tenso,
Aproxima-se o momento,
Estou nervoso, não penso,
O tempo corre lento,
Devagar e imenso,
O tempo anda lento,
Perfurante e intenso,
Que me leve o vento,
Vago e extenso,
Estou relutante e macilento,
Pregado a um lenço,
Pois que chega o momento,
Não sei se o venço,
Não posso chorar, será que tento?,
Preenche um lugar longo e denso,
Que tenebroso pensamento,
Deixar aquilo a que pertenço
Cair no esquecimento,
É coisa que dispenso,
E que me enche de sofrimento.
sábado, fevereiro 11, 2006
[Colégio Militar]

Colégio Militar, grande colégio,
Viver em ti é amar-te,
É somente um privilégio,
Não consigo pensar em deixar-te!
Nasceste de um sonho,
Agora és bem real,
Minha dedicação em ti ponho,
Para que sirvas Portugal
Em ti deixámos nossos corações,
Mas em tudo resto permaneces,
Não Te deixaremos partir,
Sabei: é só isso que mereces!
Ergue a Tua cúpula até aos céus,
Que a Tua chama jamais se apague,
Desenrola-Te desses tão longos véus,
Não permitas q'o Espírito se acabe!
Tão bem que nos ensinaste,
Assim permaneceremos até à Morte,
A Ti sempre Servir, fiéis,
És nosso: a nossa grande Sorte!
Tudo Lhe devemos,
Temos isso em conta,
Viverá eternamente,
Para tal fim foi criado,
Destruí-Lo é uma afronta:
Será por todos relembrado
Imortal!
Obrigado Colégio!
[Liberdade]
O veículo move-se
E eu, consigo
Mesmo quando pára
Eu prossigo
A mente solta-se
Luta pela liberdade
O real desmonta-se
Nasce a criatividade
Um novo mundo surge
Surge da escuridão
Enche-se de sonhos
Apaga-se a solidão
Aqui estava só
Agora não mais
Aqui tenho gentes
E claro, animais
Deixo o sol erguer-se
Que se extinga o escuro
Quero este mundo meu
Quero-o seguro
Acrescento-lhe plantas
Criarei um mundo perfeito
Terão flores e serão tantas
Estarão vivas no meu peito
Terminei, está feito
Estou feliz
Ficou mesmo perfeito
Fui eu que o fiz!
Mas no fundo
Apenas existe na minha mente
Só aqui posso viver
Livre e intensamente!
E eu, consigo
Mesmo quando pára
Eu prossigo
A mente solta-se
Luta pela liberdade
O real desmonta-se
Nasce a criatividade
Um novo mundo surge
Surge da escuridão
Enche-se de sonhos
Apaga-se a solidão
Aqui estava só
Agora não mais
Aqui tenho gentes
E claro, animais
Deixo o sol erguer-se
Que se extinga o escuro
Quero este mundo meu
Quero-o seguro
Acrescento-lhe plantas
Criarei um mundo perfeito
Terão flores e serão tantas
Estarão vivas no meu peito
Terminei, está feito
Estou feliz
Ficou mesmo perfeito
Fui eu que o fiz!
Mas no fundo
Apenas existe na minha mente
Só aqui posso viver
Livre e intensamente!
[Vida]
Nunca tentaste ver
O que te é simples assim,
Uma história única
De princípio, meio e fim.
Falo e escrevo-te da Vida
Indiscreto ciclo vicioso
Que passa e se vê bebida
Teatro d'acto glorioso.
Estenderás a mão à vitória:
Tempos de sufoco vencidos
Nos perigos e guerras da história,
Conquistados sonhos perdidos.
Sim, é júbilo disputado e vivido
Pelos que ousam saltar e voar.
Que de nada valerá ter nascido
Se no silêncio não souber gritar.
Disputa, vive, salta e voa,
Mas então mágoa fará parte:
Que hoje abraçar sonhos magoa.
Mesmo se com engenho e arte.
Gente que é gente não desiste
E digo-te que serás tentada
Mas só a gente que não existe
Pode e consegue viver do nada.
Diz para ti:
«Percorro incerta esta estrada
Sem qualquer medo ou receio;
Caminharei encorajada,
Não me deixarei pelo meio.»
O que te é simples assim,
Uma história única
De princípio, meio e fim.
Falo e escrevo-te da Vida
Indiscreto ciclo vicioso
Que passa e se vê bebida
Teatro d'acto glorioso.
Estenderás a mão à vitória:
Tempos de sufoco vencidos
Nos perigos e guerras da história,
Conquistados sonhos perdidos.
Sim, é júbilo disputado e vivido
Pelos que ousam saltar e voar.
Que de nada valerá ter nascido
Se no silêncio não souber gritar.
Disputa, vive, salta e voa,
Mas então mágoa fará parte:
Que hoje abraçar sonhos magoa.
Mesmo se com engenho e arte.
Gente que é gente não desiste
E digo-te que serás tentada
Mas só a gente que não existe
Pode e consegue viver do nada.
Diz para ti:
«Percorro incerta esta estrada
Sem qualquer medo ou receio;
Caminharei encorajada,
Não me deixarei pelo meio.»
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